Claro, você já deve ter ouvido falar em Jack Bruce. Certamente por conta de seu trabalho excepcional com o Cream, até hoje o nome mais cotado quando se menciona power-trios.

Apesar de seu extremo alcance musical, o Cream foi uma banda que durou apenas de 1966 a 1968, com três álbuns na bagagem.

Vasta mesmo foi a produção solo de Jack Bruce. Com 14 álbuns, pelo menos três deveriam ter lugares garantidos na estante de todo bem bom que gosta de música: Songs For a Talor (1969), seu primeiro registro solo; o excepcional How’s Tricks (1977), onde mostrou grande poder de inovação; e o não menos ótimo A Question of Time (1990) que, inclusive, traz Ginger Baker nas baquetas. (Baker, vale dizer, brigou e muito com Bruce durante os anos competitivos de Cream.)

No dia 25 de outubro, aos 71 anos, o excelente baixista e multiinstrumentista faleceu devido a uma doença hepática.

Seu último disco foi lançado em 2014. Chama-se Silver Rails e rememora os muitos trajetos musicais traçados em mais de 50 anos de carreira.

Para relembrar Jack Bruce, listamos 10 canções de seu catálogo. É apenas um guia para que sua música permaneça fresca em nossas memórias. Se são ou não as melhores de sua extensa obra, isso não entra em discussão. Servem como porta de entrada para se aventurar nessa trip pelo acid-rock, jazz, rock’n roll, fusion e blues-rock, a bordo de um dos maiores instrumentistas que o rock nos trouxe.

Todas as faixas mencionadas podem ser ouvidas no player ao final do post.

Descanse em paz, Jack Bruce.

“SWLABR”

Álbum: Disraeli Gears
Artista: Cream
Ano: 1967

Comercializada como lado B da conhecida “Sunshine of Your Love”, esta faixa de Disraeli Gears é ainda melhor que o hit ad eternum do Cream. O baixo acelera, a guitarra possui aqueles arroubos flamejantes que destacou Eric Clapton. E a bateria, típica de Ginger Baker. Mas é aí que Bruce dá um passo mais largo como compositor (‘Você tem o sentimento do arco-íris, mas o arco-íris tem uma barba’). Ao lado, claro, do eterno parceiro Pete Brown.

“White Room”

Álbum: Wheels On Fire
Artista: Cream
Ano: 1968

O destaque pode ter ficado para “Crossroads”, escrita por Eric Clapton, que também exibe um baixo monstruoso de Jack Bruce. Mas é na faixa inicial do disco derradeiro do power-trio que a parceria com Pete Brown alcança outros patamares. Imagético, enigmático. Sim, eram as drogas.

“Theme For an Imaginary Western”

Álbum: Songs For a Tailor
Artista: Jack Bruce
Ano: 1969

Comparada com a música da The Band e conhecida na versão do Mountain, que a tocou no Festival Woodstock, a segunda faixa de Songs For a Tailor fortalece a credencial sentimentalista de suas composições. O baixo é cativante, mas são as notas de órgão e cello, todas compostas pelo próprio Bruce, que enfatizam a genialidade de um dos melhores momentos de seu primeiro álbum solo.

“Things We Like”

Álbum: Things We Like
Artista: Jack Bruce ft. John McLaughlin, Dick Heckstall-Smith & John Hiseman
Ano: 1970

Gravado em 1968, em Things We Like Jack Bruce ainda fazia parte do Cream. O repertório é todo jazzístico, apenas com faixas instrumentais. Nem chegou perto de ter sucesso; lançado em 1970, o disco andava par a par com os trabalhos do Lifetime e Weather Report. O guitarrista John McLaughlin, da também banda de jazz-fusion Mahavishnu Orchestra, é convidado de honra no disco, ao lado do saxofonista Dick Heckstall-Smith e do baterista John Hiseman. Na faixa-título do álbum, o baixo de Jack Bruce é sobressalente, tão intrépido quanto o sax tenor de Dick. Às vezes segue solitário, mas sempre sabendo aonde ir.

“The Doctor”

Álbum: Why Dontcha
Artista: West, Bruce & Laing
Ano: 1972

As brigas, a incompatibilidade musical e a espécie de competição estabelecida pelos integrantes do Cream o levaram ao fim. Mas isso não queria dizer que Jack Bruce estava indisposto ao formato power-trio. Com os ex-integrantes do Mountain – o guitarrista Leslie West, que também assume os vocais, e o baterista Corky Laing – Bruce seguiu apimentando o rock com seu baixo potente. “The Doctor” não apenas é a música mais conhecida por seu appeal ácido. Mostra que Bruce ainda está no comando quando o assunto é rock’n roll ardente. Não precisava mais de Clapton e Baker para chegar a isso.

“Into the Storm”

Álbum: Out of the Storm
Artista: Jack Bruce
Ano: 1974

A guitarra de Steve Hunter, blueseira, traz momentos auspiciosos, mas é no piano espetacular e naquele baixo irrequieto que pousam a grandiosidade da mais emocionante música de Out of the Storm. “Into the Storm”, na verdade, deveria ser o nome do disco, “mas não conseguimos encontrar nenhuma tempestade, em vez disso, desistimos e encontramos um pouco de floresta”, explicou Jack Bruce.

“Outsiders”

Álbum: How’s Tricks
Artista: Jack Bruce
Ano: 1977

How’s Tricks é o disco mais extravagante da carreira de Jack Bruce e marca o rompimento com o empresário Robert Stigwood – algo que havia começado há 15 anos atrás, antes mesmo do Cream, com o Graham Bond Organisation. Ágil e efetiva, “Outsiders” mostra Bruce dialogando com o funk que muitos atribuiriam a Bootsy Collins. Os slaps são nervosos e o crescendo da música possui uma aura estupenda – aura também garantida pelo vibrafone de Tony Hymas, que também tocou bastante com Jeff Beck.

“A.P.K.”

Álbum: Inazuma Super Session
Artista: Jack Bruce, Anton Fier & Kenji Suzuki
Ano: 1987

Poderia citar a ótima “Apostrophe”, com Frank Zappa, ou algum take da ótima parceria (repetida duas vezes) com Robin Trower. Não esqueci também do ótimo trabalho feito ao assumir o baixo das faixas de Berlin, de Lou Reed. Mas fiquemos com a incendiária música feita ao lado de Anton Fier (baterista do The Lounge Lizard, entre outros projetos) e Kenji Suzuki (guitarras). Fera demais, tão bom quanto os sons mais radicais de Jeff Beck. Bruce, claro, controla toda a massa sonora daí.

“Blues You Can’t Loose”

Álbum: A Question of Time
Artista: Jack Bruce
Ano: 1990

A versão de Bruce pára este clássico de Willie Dixon ganhou dinâmica ainda maior com o piano de Nicky Hopkins e a guitarra de econômicos, mas precisos acordes de Albert Collins. Claro que o baixo de Bruce mantém a pulsação, mas são as muitas chamas provocadas pelas entradas de backing vocals, órgão, guitarra e, mais marcadamente, o piano, que formam um dos melhores takes de um dos poucos discos que mostram convivência harmoniosa com o baterista Ginger Baker, que também toca no álbum.

“Reach For the Night”

Álbum: Silver Rails
Artista: Jack Bruce
Ano: 2014

O derradeiro álbum de Jack Bruce é aquilo que muitos esperariam dele. Reúne a faceta mais roqueira, com algumas surpresas (quem esperaria que ele citaria Om e Earth como influências, em entrevista à Rolling Stone?). Mais relaxado, muito por conta da idade já avançada, aos 70 anos Jack Bruce entrega um disco à altura, provavelmente um dos melhores de toda sua carreira solo. Reflexiva, “Reach For the Night” é uma das poucas baladas que Bruce poderia regozijar de ter feito. Com qualidade de sobra, claro, como tornou-se costume em sua larga e curiosa obra.

Groovin’ Cast Especial: Jack Bruce by Na Mira Do Groove on Mixcloud