Como não ficar chocado com a morte de um músico tão inspirado quanto David Bowie?

Já se sepultava Bowie desde que ele decidiu dar um longo breque na carreira, após o lançamento de Reality (2003). No ano seguinte, após um show na Noruega, ele se sentiu mal e foi diagnosticado com uma séria obstrução na artéria, que fez com que cancelasse o restante da turnê.

Suas aparições foram ponderadas por algumas participações especiais em shows  (do Arcade Fire) e discos (gravou backings para “Province”, de TV On The Radio, do álbum Return to Cookie Mountain, de 2006). Em 2013, porém, ele quebrou o silêncio com o álbum The Next Day, uma celebração de momentos-chave de sua carreira com 14 faixas inéditas que lhe renderam o Grammy de Melhor Álbum de Rock.

Mais que celebrado, este retorno mostrou que o Camaleão ainda domava aquela estranha energia que inspirou discos tão importantes para o rock, como Hunky Dory (1971) e Station to Station (1976).

Aos 66 anos, ele se mostrou rejuvenescedor no clipe de “The Stars (Are Out Tonight)” e voraz em sua crítica aos hereges no impactante clipe de “The Next Day”, com os astros Marion Cotillard e Gary Oldman no elenco.

O álbum mostrou que os anos 2010 seria uma década de importante retomada da obra de Bowie, ainda que lhe faltasse um artifício que certamente lhe renderia milhões: a expectativa de uma turnê.

Desde o início, essa probabilidade era fria. Bowie sempre foi reservado com a imprensa: não sabíamos os detalhes de sua vida, e talvez realmente não houvesse o motivo de saber. Especular sobre a obra de um artista a partir de suas condições de saúde é uma perfídia que, felizmente, Bowie não teve que encarar.

[pullquote]

Crítica: David Bowie | ★ Blackstar

[/pullquote]

Era muito mais instigante procurar nas entrelinhas de suas músicas o que ele estava passando, do que folhear os tabloides.

“Where Are We Now?”, neste caso, foi a melhor forma de transmitir uma mensagem após uma década de reclusão. Apropriada como o primeiro single, ela antecipou The Next Day. Dizia a canção: ‘Você nunca soube disso/Que eu poderia fazer isso/Apenas andando sobre os mortos’.

Mais vivo do que nunca, Bowie criou um sentido de esperança que se materializou em uma obra que só cresce a cada audição.

Nesse ínterim, não só Bowie como todos os profissionais que trabalhavam diretamente com o Cameleão sustentaram uma agenda que fez com que ele não fosse mais ‘esquecido’. Em 2014, veio Nothing Has Changed, que pela primeira vez compilou clássicos de toda a sua carreira. Mesmo com o objetivo de reemergir o que gravou em cinco décadas, Bowie deixou claro que The Next Day não seria sua obra derradeira.

O aceno veio com o lançamento de uma canção inédita, “Sue (Or in a Season of Crime)”. Então, ele mudou tudo: pediu para que os arranjos fossem feitos por Maria Schneider Orchestra (dona do melhor disco de jazz de 2015) e evocou um clima perenemente soturno.

A densidade jazzística com elementos da música de câmara europeia marcava um campo sonoro que Bowie ainda não havia penetrado. Todavia, ele seguia a vida, mostrando uma estranha relação com uma mulher que chega a enterrar. A musicalidade é soberba, e imaginamos Bowie com uma túnica evocando um estranho ritual que bagunça as noções de espiritualidade e excentricidade.

A convergência desses termos, inclusive, é a pauta de seu novo álbum, Blackstar.

No álbum, ele rearranjou as canções numa estrutura art-rock, com as guitarras de Ben Monder pontuando as flutuações antes pertencentes às flautas, sopranos e violoncelos. A entrada do saxofone, de Donny McCaslin (também da orquestra de Schneider), é bem mais marcante. Bowie elevou a importância dos sopros ao mesmo nível dos riffs de guitarra, e isso foi crucial para mostrar como sua imaginação continuava a desafiar todos que já ouviram e reouviram mesmo seus trabalhos mais obscuros.

De tudo isso, sobressai a mensagem que Bowie nos deixou em “Lazarus”. A NME já cravou que, no clipe, ele nos contou que estava morrendo. Faz sentido: ele está enfermo numa cama, com os olhos vendados por esparadrapos, cantando: ‘Desse jeito ou sem jeito/Você saberá que serei livre/Assim como aquele pássaro azul’.

Em apenas dois discos, David Bowie abriu e fechou parênteses intermináveis de criptografias e mensagens. Se The Next Day era a chama vivaz da vida, Blackstar é o sintoma antecipado da morte. O elo que os une é a inventividade, que dialoga e ao mesmo tempo destoa de tudo que Bowie fez nos últimos 50 anos.

Por isso mesmo, o trabalho derradeiro não poderia ser mais simbólico. Bowie se libertou e nos deixou com uma obra intrincada, para ser refletida. Descanse em paz.

***

Confira uma playlist só com as melhores músicas de Bowie (siga a gente pelo Spotify):