Morreu aos 70 anos, dormindo tranquilamente, o nigeriano William Onyeabor. De primeira, muitos devem questionar: quem é esse cara?

Para se ter uma ideia, o ar obscuro de sua história nos remonta a um certo Rodriguez: natural de Enugu, ele revolucionou a linguagem do afro-beat com órgão e teclados elétricos entre 1977 e 85. Depois, foi relegado ao anonimato, até que curiosamente reacendeu-se interesse sobre ele.

E, basicamente, é isso. Quem conhece a música de Onyeabor certamente travou conhecimento por meio da compilação preparada pelo selo Luaka Bop, em que David Byrne é um dos cofundadores. O título era bem sugestivo: Who is William Onyeabor?, de 2013.

Na real, nem eles sabiam quem era Onyeabor. Eric Welles-Nyström, da Luaka Bop, chegou a bater na porta dele antes de lançar a compilação. Disse que se deparou com uma mansão repleta de detalhes brancos, “aparentemente intacta desde os anos 1980”.

Mas, na hora de falar sobre música, só ouviu evasivas. Onyeabor havia se convertido para o Cristianismo, e não queria saber de relembrar tempos idos. Ele deu os detalhes ao jornal The Guardian:

“O endereço que lhe fora entregue era uma loja escura e abandonada, onde uma mulher suspeita perguntou, desconcertante: ‘Você é da Rússia?’, antes de escoltá-lo até a casa de Onyeabor, nos arredores da cidade. Para sua surpresa, era uma mansão branca de três andares com uma fonte de água e uma Mercedes prata de 30 anos em sua frente. A casa era como uma pequena cápsula dos anos 1980 de luxo, decorada com pinturas e lustres e contendo vários teclados e mesas de mixagem. A escadaria foi revestida com pinturas de Jesus e fotografias de Onyeabor em trajes igbo, apertando as mãos de dignitários locais. Disseram-lhe que a casa tinha um heliporto próprio”.

Num dos raros momentos que falou sobre o assunto, disse que “só fazia música para tornar o mundo melhor”. Nos últimos anos de vida ele estava mais próximo do universo gospel, mas se regredirmos algumas décadas essa declaração não é desprovida de sentido.

O Noisey gringo fez um mini-documentário sobre Onyeabor. Veja abaixo (em inglês):

Em tempos em que o afro-beat parece ter sido redescoberto – especialmente no Brasil, com Abayomy, Bixiga 70 e Aláfia – voltar à base da música de Onyeabor permite compreender a universalização do gênero em seu aspecto mais cru: o aspecto periférico.

O periférico é importante na historiografia musical porque ajuda a entender porque o funk carioca é a nova revolução musical – assim como o bass, o dancehall na Jamaica e o blues nos EUA também foram.

Numa primeira audição, ouve-se uma certa tosquice na música de Onyeabor. A forma com que ele usava sintetizadores conecta o conterrâneo Fela Kuti a Kraftwerk. Eu espero que o futuro nos reserve o direito de descobrir como se deu a transição de “Crashers in Love”, um afro-beat agudo que une o ritmo caloroso à emoção, para “When The Going is Smooth and Good”, proto-techno que parece ter saído da mesma cachola que concebeu Computer World (1982). “When The Going” foi o último hit de fato de Onyeabor; gravado em 1985, permitiu que sua música saísse do distrito de Enugu.

Como se encaixaria o ‘periférico’ em Onyeabor se mal sabemos sobre sua história? Ora, pela observação do vasto material dele já lançado.

Existe uma linha evolutiva na musicalidade de Onyeabor, e ela se resume à metalinguagem criada por ele. Mesmo na música em que mais parece emular Kraftwerk há um aspecto local muito forte: a forma com que dinamizaram os sons do sintetizador parece obedecer a um esquema percussivo, marca indelével do afro-beat.

“Better Change Your Mind” é funk que parece opaco, mas possui várias altercações rítmicas, espertamente sustentadas pelo baixo. “Why Go to War”, mais incisiva, se alinha ao discurso político da música de Fela, que protestou contra a corrupção da república de Kalakuta nos anos 1970 e acabou sendo perseguido.

Afro-beat é o termo mais utilizado para definir qualquer som africano de forte implicação rítmica, com traços do jazz e do blues ocidental. Na verdade, Onyeabor não se encaixaria muito bem nesses rótulos. Ele é mais propagador de uma cultura sci-fi, uma espécie de Sun Ra no meio de uma cidade desconhecida, cujas conexões musicais endossam uma linguagem original e instigante.

Trata-se, claro, de um sci-fi periférico. Não saberíamos o que sairia dele se nos anos 1970 ele tivesse acesso à mesma tecnologia que músicos do kraut-rock alemão ou de beatmakers franceses dos anos 1980 na ‘fase final’ de Onyeabor. Por isso, é importante endossar o aspecto periférico: o afro-beat chega ao eletrônico, passando por funk, jazz e música psicodélica, sem a necessidade de altos investimentos tecnológicos, baseado em sintetizadores, baixo, guitarras e percussão.

Apesar do pouco tempo que passamos a ter aprofundado contato com a música de William Onyeabor, é possível perceber seus traços na contemporaneidade. David Byrne e Damon Albarn prestaram homenagem à morte dele, e não foi à toa: seus experimentos com teclados, pianos e sintetizadores são inspirados na ousadia do nigeriano.

O eletrônico do Caribou, a música tribal do tUnE-yArDs e o som eletro-globalizado de Sinkane também devem a Onyeabor.

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