Foram 14 anos para que Marcos Andrada e Otavio Bertolo lançassem Bem Aéreo.
Marcos testemunhou os perrengues do rock alternativo desde o final dos anos 1980, momento em que, com o grupo Vultos, lançou o disco Filme da Alma (1989).
“Em meio a explosão comercial do BRock, a banda ‘bate na trave’”, relembra, com inevitável trocadilho futebolístico, a banda em seu release.
A trave foi o mais próximo do acerto daí em diante: o independente Lixo Rico (1996), já em carreira solo, teve repercussão ainda menor, culminando num efeito similar ao ambicioso O Melhor e o Pior do Rock no Curdistão (2001), “uma coletânea de diversas bandas criadas por Marcos Andrada”, como define no BandCamp.
Com a criação do Sereialarm, Marcos e Otavio marcaram um belo gol, que parece mais bonito a cada checagem.
Lançado em 10 de março, Bem Aéreo encarna uma simbiose entre o pop-rock e a psicodelia com composições desconcertantemente belas. Os percalços contidos no disco condizem com alguns momentos históricos passados pelo rock de cá ao longo dos anos.
A faixa-título, por exemplo, tem toques de piano que nos remetem ao Lóki? (1974), de Arnaldo Baptista. “Repousa o Grande Céu” pode ser vista sob duas óticas: tem o lado nostálgico das boas músicas dos anos 1980 e, por outro lado, um ar novidadeiro que transparece amadurecimento. “A Hora Mágica” lembra o Violeta de Outono fase Em Toda Parte (1990).
“Vênus Chegou” exibe grandiosidade na confluência guitarra/bateria. “Solarium” abstrai sobre sonhos como se estivesse flutuando a ponto de chegar às nuvens, até surpreender com a entrada abrupta duma sonoridade cósmica, nos moldes do space-funk.
‘Os astecas vivem em mim’, canta em “Miragem”, interligando séculos de um passado místico. ‘Vêm no meu sonho me tocar/São os maias/São os incas/Eles vivem dentro de mim’.
Encerra com “Dispersar em Vagalumes”, simulando hélices – ou seriam asas? – que se afastam.
“A gente nunca teve a preocupação de soar como ‘a banda do momento’”, disse Otavio em entrevista ao Scream & Yell. “Pra mim é algo que soa muito mais próximo dos anos 70 em algumas faixas, em outras mais dos anos 80. Talvez tenha uma aura, uma coisa retrô, mas não é algo datado de uma forma pejorativa”.
Bem Aéreo faz jus ao nome e está mais distante do passado do que as referências que imaginamos. Talvez seja um pé adiante, muito à frente do pop costumeiro que se toca nas rádios roqueiras.
Ouça Bem Aéreo no player a seguir:
