Gravadora: Philips/Universal
Data de Lançamento: 1º de junho de 1968

Qual é o verdadeiro charme de Os Mutantes? A voz doce de uma jovem Rita Lee contrastando com instrumentos elétricos como órgão, theremin e guitarras? Os solos que parecem a engrenagem de uma engenhoca fantasiosa de Sérgio Dias? O distanciamento do pianista e baixista Arnaldo Baptista, que surge em diversos momentos como elemento-surpresa na força estética do trio?

Em junho de 1968, o tropicalismo fervilhava a cena cultural brasileira e Os Mutantes funcionava mais ou menos como motor de uma engrenagem que seria freada em dois momentos específicos: o decreto do AI5, que dissolveu à força o movimento liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil; e a posterior saída de Rita Lee, que mancharia para sempre a história da banda pioneira no experimentalismo no rock brasileiro.

O primeiro disco, porém, foi o momento em que esses eventos estavam longe de representar uma ameaça.

Antes do trio ser presenteado com o nome por Ronnie Von, Rita e os irmãos Arnaldo e Sérgio se apresentavam como Os Bruxos na cidade de São Paulo, alternando shows esquisitos com influências de Beatles e ficção científica com molecagens como tacar ovo na galera que esperava ônibus na rua.

Ronnie, inclusive, apresentou Os Mutantes em outubro de 1966 em seu programa e convidou-os a fazer partes vocais do psicodélico disco Ronnie Von nº 3 (1967). Mas o grande salto veio quando o trio conheceu Gil no Festival da Record daquele ano. Ele ficou impressionado com o que Rita chamava de “high tech mutantesco” (ou seja, o kit de instrumentos) e pediu para que eles fossem a banda de apoio para a inscrição de “Domingo no Parque”.

Em seu livro ‘Rita Lee: Uma Autobiografia’, ela detalha como foi esse momento:

A nova empreitada exigiu esforço extra, um dia inteiro passando harmonia e melodia, outro decorando a letra, mais um para montar vocais e tantos outros para eventuais detalhes. Foi só no ensaio geral, já no teatro da Record, que finalmente aconteceu a fusão voz/violão de Gil + vocais e eletronicidades dos Mutantes + um baterista profissa chamado Dirceu + o arranjo de orquestra do maestro Rogério Duprat”.

Rogério Duprat: gênio nos arranjos

Considerado o grande arranjador da Tropicália, o músico e maestro Rogério Duprat estava atento aos movimentos de contracultura em escala global. Entre 1966 e 67, dialogava com produtores de TV por trás do Festival Internacional da Canção (FIC) para trazer bandas roqueiras, especialmente as que manjavam de guitarras elétricas.

Eletricidade era o que não faltava para Os Mutantes, mas Duprat ainda estava com a pulga atrás da orelha: achava eles parecidos demais com a fase lisérgica dos Beatles.

De qualquer forma, ele sabia que era o momento de chacoalhar o já conturbado cenário musical da época. Com a ditadura militar e o medo do ‘imperialismo americano’, integrantes da chamada música de protesto (de Elis Regina a Geraldo Vandré) criticavam qualquer influência estrangeira. A guitarra, claro, era o representante-mor dessa influência, por sua sonoridade eletrificada.

Em 1967, a marcha contra a guitarra elétrica uniu músicos e intelectuais que diziam buscar a ‘pureza’ da canção nacional. Equivocadamente, Gil chegou a participar dessa passeata mas, a partir de Duprat e Os Mutantes, obviamente viria para encabeçar (ao lado de Caetano) a antítese desse movimento: o Tropicalismo.

Além de ser um arranjador talentosíssimo (certamente um dos melhores que já tivemos), Duprat era politicamente articulado, mas achava que não adiantava muito levar as coisas somente para o discurso. Por isso mesmo, se envolveu intensamente nos meios de comunicação, para dar espaço ao que enxergava como vanguarda, “aproveitando-se da efervescência em que a música popular e a indústria do entretenimento encontravam-se no período”, conforme assinalou André Araújo Lima da Cunha, na tese de mestrado Rogério Duprat, o quarto mutante.

Vale citar, também, outro movimento efervescente naquele período: a Jovem Guarda, de Roberto e Erasmo Carlos. Embora eles representassem a vertente mais popular do rock’n roll, estavam distantes da ruptura comportamental necessária para chacoalhar naquele momento.

É aí que entram Os Mutantes. Porque, além de toda instrumentação eletrificada, a banda reunia elementos de deboche com figurinos inusitados e atitudes incalculadas, num tipo de anarquia que contrastava com todos os movimentos musicais contemporâneos.

Então, por que reduzir toda essa atitude a guitarras e baixos elétricos? Foi exatamente esse o ponto de atrito que fez com que Duprat estimulasse o hibridismo no disco de estreia dos Mutantes de maneira que parecesse uma fuzarca.

“São muitos sons absurdos e maravilhosos, é um disco totalmente futurista”, disse Arnaldo Baptista ao Jornal do Brasil sobre o disco. “O Duprat, além de estimular o meu lado clássico, me incentivou muito a estudar piano. Os takes de trompas e outros instrumentos de orquestra presentes nos Mutantes foram concepções dele”.

Os Mutantes: primeiro disco

Quando surgiu a oportunidade de gravar Os Mutantes, a banda teve que acelerar as coisas. Pouco tempo depois de gravarem o disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circenses, o trio recebeu o convite para gravar o LP solo na gigante Philips.

A primeira faixa, “Panis et Circenses”, foi um ‘presente’ de Caetano e Gil, que escreveram as letras em apenas 15 minutos. Ao referir-se às ‘pessoas na sala de jantar’, o grupo chamava atenção para a alienação das pessoas ‘ocupadas em nascer e morrer’, enquanto leões, punhões, mortes e afins acontecem lá fora sem que elas se preocupem.

Também de Tropicália a banda trouxe “Baby”, canção de Caetano que se tornou o primeiro sucesso de Gal Costa (cedida por Maria Bethânia), e “Bat Macumba”, de Caetano e Gil, ganhou adições percussivas que a deixaram com um groove estranhamente delicioso, pontuado por riffs distorcidos de guitarra.

Interessante, também, é a versão que a banda fez para “A Minha Menina”. Rita Lee conta que teve a “cara de pau de ir sem avisar até o apartamento de Jorge Ben e pedir ‘pelamordedeus’ uma música”. A história, que ela conta em sua autobiografia, é divertidíssima:

Quem abriu a porta toda descabelada foi uma cantora não muito conhecida na época. Ops, já ia me desculpando pela inconveniência quando o deus do suingue escancara a porta e simpaticamente me convida a entrar. Por cinco segundos pensei que ia rolar um ménage, mas nos segundos seguintes mr. Ben já estava no violão tocando o esboço de “A Minha Menina” com olhares de torpedo para a moça. Tempos depois, quando a cruzava nos bastidores da vida, então já muito  famosa, trocávamos olhares e um sorrisinho cúmplice“.​

(Infelizmente, Rita não revela quem seria essa cantora.)

Era latente a preocupação de misturar o regional brasileiro com línguas e influências estrangeiras. Nesse caso, pouco importava a representatividade dos temas recriados ou subvertidos pelo grupo.

“Adeus Maria Fulô”, por exemplo, vem de uma canção que Rita tinha captado de sua mãe, que a tocava no piano. Ela contrasta o naturalismo perene do início com instrumentos improvisados, “com tampinhas de garrafa afinadas que, ao soltá-las no chão, tilintavam a nota certa”, segundo a cantora.

Arnaldo contou mais tarde que The Mamas and The Papas era uma forte influência no grupo, algo que dá para perceber nos trejeitos vocais das duas últimas canções: “Tempo no Tempo (Once Was a Time I Thought)”, que une gospel a trilhas de desenhos antigos, e “Ave Gengis Khan”, uma piração bem assimilada pelo virtuosismo de Sérgio.

Importância do disco

Meio século depois, o disco de estreia d’Os Mutantes segue como a principal referência do Tropicalismo – com exceção, claro, do disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circenses.

Enquanto o rock ainda dava os primeiros passos no cenário nacional, Rita, Arnaldo e Sérgio viajaram anos-luz no quesito transgressão. Da capa que lembra um filme thrash de terror aos arranjos dodecafônicos de canções que assimilavam nacional e estrangeiro na mesma medida, Os Mutantes tornou-se a obra máxima do que podemos chamar de lisergia tropical.

A banda conquistaria o mundo com toda essa irreverência, mas uma coisa precisa ser dita: com a saída de Rita Lee, em 1972, nunca mais a banda recuperaria o charme de outrora. Ela disse que foi expulsa por não igualar-se aos quesitos técnicos dos irmãos Dias – prova de que nem mesmo a banda tinha percebido que a grande inovação dos Mutantes não estava na eletricidade ou nos aparatos técnicos de suas canções; englobava, também, figurinos (responsabilidade de Rita), atitude, performance, bagunça, subversão…

Vieram bons discos da banda posteriormente, mas nenhum com o niilismo e com a ousadia do álbum de estreia.

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