
Há pouco mais de um ano atrás, escrevi um post sobre os malefícios da beatlemania e como ela acabou corrompendo o rock como um todo. Aproveitando que Paul McCartney veio ao Brasil e vive se falando dos Beatles, faço questão de reviver essa discussão aqui. (Lembrando que não se coloca em xeque a habilidade musical do quarteto. É apenas outra forma de analisar o impacto dos Beatles.)
Ano passado, o historiador Elijah Wald escreveu o livro How The Beatles Destroyed Rock & Roll tocando em um ponto-chave para explicar seu argumento. Ele afirma que o grupo chegou numa época onde a integração racial na música estava se iniciando; os brancos iam prestigiar o show dos negros e os negros iam prestigiar Elvis Presley. O rock estava se tornando uma realidade multiétnica nos anos 50. Como Wald complementa, James Brown era rock, Ray Charles era rock, assim como Elvis Presley também o era.
Mas eles se prestigiavam nas apresentações ao vivo; levavam o público ao delírio com a energia nos vocais e nas improvisações nos palcos. Então, o que atraía o público? Suas canções em particular aprimoradas de forma conjuntural (álbum), como a indústria fonográfica fez eclodir após a explosão dos Beatles.
Ouvir um álbum tal qual ouvimos hoje é uma contribuição dos Beatles já que eles, depois da fase psicodélica, mal se apresentavam em público. Entretanto, a chegada dos Fab Four rompeu abruptamente com a integração das possibilidades do rock, dividindo a música negra e tornando-se, essencialmente, uma música para brancos.
Como diz Wald, “o rock dos negros se tornou soul”. E transfigurou-se em música branca. A MTV é a continuidade desse rompimento, pois ela baseia sua programação musical em rock, música para brancos. “E isso, de certa forma, acabou impedindo a evolução dos ritmos de ambas as raças”, analisou o historiador.
As possibilidades tecnológicas ajudaram a dar impulso à febre dos Beatles com equipamentos que elevavam a qualidade sonora. Essa tecnologia coincidiu com o grande sucesso de John, Paul, George e Ringo e trouxeram amplas vantagens para a música. Com isso, as gravações se tornaram o pano de fundo essencial para o sucesso da banda. Eles começaram a trabalhar a possibilidade de canções em conjunto e revolucionaram a indústria fonográfica, enchendo os cofres dos produtores, da própria banda e agradando cada vez mais a crítica e o público.
Só que, com o deslanche dos Beatles, os managers começaram a deixar de lado a música negra. Não agradava mais a energia nas apresentações como na década de 1950; o que importava agora era causar impacto nas canções e deixá-las na memória dos ouvintes através da venda maciça de discos. Isso era possível (com eficácia) com os álbuns – músicas trabalhadas em conjunto. E a partir daí o que interessava era fazer música com características negras que interessasse aos brancos, como fez Berry Gordy Jr. com os músicos negros da Motown.
Wald argumenta que essa divisão de águas dos Beatles acabou ’empobrecendo’ a música negra e a música branca, porque elas ficaram separadas, muito rotuladas. Os Beatles acabaram com essa integração, porque fincaram o pé no mercado e conseguiram realizar o verdadeiro sonho dos produtores musicais da época: deixar evidente que a música de qualidade estava nos grupos brancos, não mais nos negros, que dominaram o mercado durante décadas e décadas. (Paradoxalmente Michael Jackson chegou anos depois e rompeu com esse estigma. Justo ele, um negro que só queria dançar e encantar as multidões.)
Portanto, é errôneo afirmar que a revolução dos Beatles elevou a música para melhor em todos os sentidos. Eles fizeram um sucesso tão grande, que puxaram todo o prestígio da ‘revolução’ para o nome deles e, consequentemente, impediram que a música se integrasse racialmente e se tornasse mais rica.
A contribuição dos Beatles no popular é enorme por conta da possibilidade de trabalhar uma obra em conjunto; mas também é enorme no rompimento com uma integração que poderia dissipar o preconceito – através da música – entre brancos e negros.
E, novamente, tudo ficou dividido entre música para negros e música para brancos.
Para entender um pouco mais sobre esse argumento, assistam ao vídeo de Elijah Wald, o escritor de How The Beatles Destroyed Rock & Roll:
