Escrito por Tiago Ferreira em terça-feira, maio 29, 2012 14 Comentários 

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10. Nadadenovo

Mombojó

Ano: 2004
Gravadora: Tratore
Gênero: Surf Music

Antes de mais nada, Nadadenovo é um disco lindo. Ficar com os olhos vermelhos (fumar um?) é um ato carregado de sutilezas (“Cabidela”), a banda nos convence que as ideias utópicas são uma forma de entretenimento (“Deixe-se Acreditar”), além de nos levar a uma experiência dançante – quando outros levariam a uma contemplativa – ao admirar a natureza em “O Céu, o Sol, o Mar”. Agora, às estéticas: no som do Mombojó, escaletas, clarinetes, guitarras, bateria, sintetizadores e baixo sustentam uma sonoridade que vai do indie ao trip-hop, unindo a complexidade de uma composição MPB a extravagãncias modernas que, ao mesmo tempo que embelezam nossa audição, bagunçam. As letras são simples e você aprende a cantá-las facilmente, mas existe uma fórmula ali que não permite enjoos por parte do ouvinte. O primeiro disco dessa banda de Pernambuco nos fez perceber que ser pop também é ser sofisticado.

Faixa: “Deixe-se Acreditar”

9. Sem Nostalgia

Lucas Santtana

Ano: 2009
Gravadora: Diginois/YB
Gênero: Experimental

Em toda a década, novos artistas exploraram e reprocessaram diversas influências, que vão do dub ao soul, com boas pitadas eletrônicas. Lucas Santtana foi um desses músicos, mas está a anos-luz de distância. Sem Nostalgia, quarto disco de estúdio do músico, soa como um projeto acadêmico de tanta complexidade. Parece que Lucas estudou, observou e manipulou tudo o que já foi explorado em nossa música desde Odair José e criou uma obra futurista que não nega nada do que já feito em nosso país. E aqui, ele foi bem específico: trabalhou para distorcer (quase) tudo o que já foi criado com instrumentos de cordas em nossa música.

“Super Violão Mashup”, que abre o disco, incisivamente mostra o que aparatos eletrônicos podem fazer com o instrumento. É pra deixar purista de queixo caído mesmo, não tem conversa. “O Violão de Mario Bros” vem pra reforçar tais experimentações, algo que se mostra cantarolável em “I Can’t Live Far From My Music”, com composição em inglês. Em “Cira, Regina e Nana”, Lucas expõe seu ecletismo (que pode ser aplicado à musicalidade) ao tergiversar sobre o amor por três garotas. “Amor em Jacumã” é um deleite, um repouso necessário depois de tanto trabalhar para reinventar nossa música. Em poucas palavras, Sem Nostalgia é um disco arriscado, impuro, altamente experimental, que resume bem a influência da tecnologia digital na música brasileira.

Faixa: “Cira, Regina e Nana”

8. Non Ducor Duco

Kamau

Ano: 2008
Gravadora: Plano Áudio
Gênero: Rap

O rap atingiu novos patamares, truta. Falar de homicídio, caos social e má distribuição de renda é um foco do passado – o que não quer dizer que outros músicos de qualidade não o façam. Após desenvolver suas rimas com o projeto Simples, Kamau deve ter feito uma espécie de autoterapia para se encontrar. Isso lhe deu autoconhecimento e autocrítica o suficiente para suas rimas tornarem-se eficazes. Seu impacto é tão profundo que, se a maioria dos moleques desajeitados a ouvissem, a luz no fundo do túnel brilharia. Ouvir “A Quem Possa Interessar” enquanto pega o metrô lotado para trabalhar faz renascer uma chama de orgulho – começamos a perceber que estamos passando sufoco porque algo maior vai acontecer.

“Equilíbrio” fala de correria, mas atenta aos pauses necessários para que possamos dar um passo maior: ‘Quero deixar bem mais que saudades quando me for’. Non Ducor Duco em latim significa ‘não sou conduzido, conduzo’. Serve mais ou menos como autoajuda para que você se encontre e faça o melhor para si e pelo outro. ‘Sucesso é caminhada e não a linha de chegada’. Tipo musicoterapia.

Leia também: Entrevista exclusiva com Kamau

Faixa: “Equilíbrio”

7. Uhuuu!

Cidadão Instigado

Ano: 2009
Gravadora: Independente
Gênero: Rock Psicodélico

O Cidadão Instigado é uma viagem! O terceiro disco de estúdio do grupo cearense é um flerte pop – consequência natural de músicos que insistiram em reafirmação estética nas faixas de …E o Método Túfo de Experiências (nº17 nesta lista). Aqui, o grupo também está mais espacial, mais insano e mais seguro. Em “A Radiação Na Terra”, alienígenas invadem o planeta e clamam por abduzir a linda praia de Jericoacoara numa linda flutuação suscitada pela guitarra de Catatau. “Deus é Uma Viagem” mostra um Catatau em devoção com o divino com uma fluidez vocal que, às vezes, lembra o ícone do brega Bartô Galeno. Nesta canção, paira o inconsciente coletivo de um músico do Ceará, um dos estados mais religiosos do Brasil.

Exemplos de como o Cidadão atingiu a veia pop estão em “O Nada”, que abre o disco falando de ladrões que roubam suas casas e suas ideias e a insanidade vista como sua colega em “Doido”. Mas a banda soa melhor quando envereda por suas trilhas infatigáveis, como os bregas de “Dói” e “Contando Estrelas”, sem esquecer de “O Cabeção”, que fala de como o uso excessivo de computador põe em detrimento sua capacidade de raciocínio: ‘É porque você/ainda não percebeu/esta vasta cabecinha em expansão’.

Faixa: “O Cabeção”

6. Cê

Caetano Veloso

Ano: 2006
Gravadora: Universal
Gênero: Rock/MPB

‘Você nem vai me reconhecer quando eu passar por você’, já canta Caê logo de cara em “Outro”. Ao invés de mudar a música brasileira, neste disco Caetano faz uma reciclagem de sua obra artística. Um de nossos maiores músicos abraça o rock’n roll e o espírito de clandestinidade junto com a banda Cê, formada por ele (voz, violão), Pedro Sá (guitarra, baixo, vocais), Rodrigo Dias Gomes (baixo, piano Rhodes, vocais) e Marcelo Callado (bateria e percussão).

No entanto, não é o músico que entra na onda do rock; ele inverte a posição e faz o gênero se adequar à sua poesia. Como ele faz isso?

“Rocks” dá aquela percepção de vislumbrarmos um Iggy Pop brasileiro, mas aquela composição cairia muito bem em um samba, ou uma MPB (falando nessa canção, que solo inspirado de Pedro Sá!). A confessional “Não Me Arrependo” mostra um Caetano obscuro (que até lembra “Walk On the Wild Side”, do Lou Reed), divagando sobre o axioma de ser um dos maiores divulgadores da arte brasileira: ‘nada, nem que a gente morra, desmente o que agora chega a minha voz’. Talvez este registro seja o convite que todos os jovens e pseudointelectuais precisavam para se aprofundar na obra deste mestre irredutível.

Faixa: “Rocks”

5. Por Pouco

Mundo Livre S/A

Ano: 2000
Gravadora: Abril Music
Gênero: Manguebit

Mundo Livre S/A não é um grupo para ser levado a sério. Até porque não dá. O que pensar de músicos que falam de ‘mulher com W maiúsculo’ (“Melô das Musas [Musa da Ilha Grande]“, pot-pourri de duas faixas do primeiro disco), ou ‘ela é meu desfile internacional, meu bloco de carnaval’ (“Meu Esquema”)?

Porém, o Mundo Livre é a personificação do brasileiro, talvez a banda de rock que melhor entende como funciona a cultura do ‘homem cordial’. Todos só queremos saber de gozar!

Na faixa-título, Fred Zero Quatro nos identifica como adeptos à ‘cultura do quase’: quase ganhamos a Copa do Mundo de 1998, quase compramos uma casa, quase ganhamos um carro, a gostosa quase ficou nua. Isso até chegar à verdade chacal: ‘Votamos no quase honesto, pois quase acreditamos nele’. O disco é recheado de intempéries engraçadas, como “Treme-Treme (Shaking All Over)” e “Mexe Mexe”. Mas o tom ácido das críticas irônicas são o melhor recheio deste que é um dos melhores álbuns da banda recifense.

Faixa: “Por Pouco”

4. Nação Zumbi

Nação Zumbi

Ano: 2002
Gravadora: Trama
Gênero: Manguebit

Um disco para ser cantado em estádios, para uma multidão. A sonoridade é bem envolvente e Jorge Du Peixe consegue altercar a agressividade de uma composição política com aquela fórmula indescritível do NZ de chamar as massas para si.

Mudou tudo: com o disco homônimo, a Nação Zumbi quebrou os anos de incerteza que pairaram após a morte de Chico Science. Por mais que Rádio S.amb.A tivesse em evidência, ainda faltava manter a empatia da banda precursora do manguebit com o seu público – apesar dos esforços vindouros de um hit como “Arrancando as Tripas”.

Logo de cara, “Blunt of Judah” e “Mormaço” alargam os risos daqueles que já pularam muito com Afrociberdelia. E não tem moleza não. Nação Zumbi é uma pancada atrás da outra: “Propaganda” é uma crítica voraz à metralhadora disparada pela TV no horário comercial; “Amnesia Express” surge como repouso, mas “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada”, com seu riff à lá Sepultura, incendeia o solo fazendo com que seus pés saiam do chão. Graças a esse disco, hoje o Nação Zumbi mantém a coroa de ser a melhor banda do Brasil.

Faixa: “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada”

3. Nada Como Um Dia Após o Outro Dia

Racionais MCs

Ano: 2002
Gravadora: Cosa Nostra
Gênero: Rap

Sobrevivendo no Inferno é um disco espetacular mas, depois de um hiato de cinco anos, o grupo precisava se reinventar. E isso aconteceu de maneira soberba: os caras voltaram com um disco duplo, aproveitaram mais a enciclopédia musical que é KL Jay e criaram uma narrativa própria e linear.

Lembro que comprei esse CD no dia de lançamento: aquele despertador inicial de “Sou Mais Você” me causou estranheza, mas Mano Brown deu aquele puxão de orelhas com rimas que já esperaríamos (ansiosamente!). A primeira música de fato entra com “Vida Loka Pt. I”, com Brown fazendo uma conexão com seus amigos em um clima cordial, ainda que o perigo faça questão de visitá-los (‘não devo, não temo, me dá meu copo que já era!’). Mas o impacto mesmo veio com “Negro Drama”, com Edi Rock e seus vocais firmes falando sobre valores da cultura negra. Pensa que tá bom? Em seguida, Mano Brown surge com uma agressividade que vem doer na espinha dorsal.

O que complica em Nada Como Um Dia Após o Outro Dia é que não muitos o observaram pelo aspecto musical (muito por conta da produção de Zé Gonzales e as bases de KL Jay). Quantas vezes não coloquei no repeat “Na Fé Firmão” ou “Eu Sou 157″ para aprender a cantá-las? Observe melhor e você vai sacar como os Racionais estão numa pegada mais soul. Prova? “Free at Last”, do Al Green, como base para a bela poesia de “Jesus Chorou”, ou o sampler de Cassiano em “Da Ponte pra Cá”, que cai numa levada mais Curtis Mayfield. O Racionais está mudando – só não muda o estilo de deixar os ouvintes na expectativa.

Leia também: Entrevista exclusiva com Edi Rock

Faixa: “Da Ponte Pra Cá”

2. Rap é Compromisso!

Sabotage

Ano: 2000
Gravadora: Cosa Nostra
Gênero: Rap

Hoje, pode-se dizer que existe uma trincheira entre o atual rap e os ‘anos dourados’ da década de 1990. Antigamente o ritmo mantinha a postura de cronista fervoroso do que acontecia nas periferias, enquanto hoje já alinha melhor as possibilidades tecnológicas para falar do que ocorre no mundo.

Rap é Compromisso! foi mais ou menos como a queda do Muro de Berlim nesse processo. O MC Maurinho dos Santos mostra seu bairro ao mundo, mas não o faz em tom denuncista: pelo contrário, assume a postura de um artista que deve à favela todos os seus ensinamentos. Coisas ruins acontecem, não é? Sabotage não as nega, mas manda a informação procedida de ares positivistas – como ele faz em “Um Bom Lugar” onde, depois de falar que o pecado toma conta dos barracos, diz: ‘quer batalhar tenta a sorte/seja forte/o destino é quem resolve’.

Vale dizer que aqui a demagogia passa longe. Maurinho, que por muito tempo andou pelas sombras (e morreu nela), fala com uma maturidade sisuda, por mais que soe um pouco agressivo. Em “Respeito é Pra Quem Tem”, por exemplo, ele surge pragmático para falar que respeito é algo que a vida cobra – se você não o tiver, cai.

Depois deste disco, Sabotage deu passos largos, chegando a atuar nos filmes Carandirú (Hector Babenco) e O Invasor (Beto Brant). Ele ainda tinha muito a subir, mas foi uma pena que tenha partido dessa quando estava em seu melhor momento na carreira artística. Com isso, a evolução do rap ficou estagnada por um bom tempo.

Faixa: “Respeito é Pra Quem Tem”

1. Japan Pop Show

Curumin

Ano: 2008
Gravadora: Urban Jungle
Gênero: Experimental

É o álbum que melhor resume a integração musical ocorrida durante toda a década. Curumin juntou e fragmentou tudo com fina, rara maestria. Ele, que é um baterista influenciado por soul e hip hop, colocou samba, MPB, rap, funk carioca, canção, não-canção, jazz, música de elevador, som ambiente, rock, brega, forró…

Sem querer reinventar a roda, Curumin absorveu tudo produzido pela cultura pop na música brasileira e brincou com tudo isso, jogou ao ar. O mais curioso é: como pulverizar o pop e a nova dinâmica de consumo e criar uma obra que consegue fluir naturalmente?

Curumin não criou uma fórmula, mas um gênero onde apenas ele consegue ser expoente. Cabe de tudo aqui: um rolê básico com a bicicleta em “Magrela Fever”, um momento divino com os seus discos em “Compacto”, um funk carioca estapafúrdio gozando do noticiário em “Caixa Preta”. Assim como também entram as mensagens politizadas de “Kyoto”, “Mal Estar Card” e “Esperança”.

Muita coisa acontece em dez anos. Agora, condensar tudo isso, brincar e fazer música de qualidade – e acessível -, só Japan Pop Show.

Faixa: “Mal Estar Card”

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