
20. Cordel do Fogo Encantado
Cordel do Fogo Encantado
Ano: 2001
Gravadora: Rec Beat Discos
Gênero: Maracatu/Ciranda/Coco/Toré
Se Recife emergiu ao mundo na voz de Chico Science, o grupo responsável por colocar Arcoverde no mapa musical do mainstream foi Cordel do Fogo Encantado. De uma hora pra outra, ouvir maracatu virou coisa de estudante, frequentadores assíduos da FFLCH (USP), quiçá até de indivíduos outrora baladeiros. Parte dessa nova devoção se deve à iconoclastia do vocalista Lirinha que, a frente do grupo, mostrou a força da poesia da literatura de cordel ao juntar ritmos regionais como toré, samba de coco e maracatu em aspecto teatral. O primeiro disco do Cordel foi produzido pelo mestre da percussão Naná Vasconcelos, que se incumbiu de endireitar a difusão sonora do grupo. O mais adequado é ouvir o disco inteiro, para adentrar-se na experiência de conhecer a literatura de cordel. No entanto, neste registro vale destacar faixas como “Boi Luzeiro (ou A Pega de Violento, Vaidoso e Avoador)”, “Chover (ou Invocação Para Um Dia Líquido)” e “Toada Velha Cansada”.
Faixa: “Chover (ou Invocação Para Um Dia Líquido)”

19. Servil
Ludovic
Ano: 2004
Gravadora: Teenager in Box
Gênero: Rock
Pós-punk direto ao ponto, incisivo, sincero, reclamão, barulhento. A estreia dos paulistas do Ludovic foi celebrada por ser um disco sem frescuras. Não tem essa de ficar de chororô após tomar uma bota daquela garota que você admira. A resposta do vocalista Jair Naves é bem pragmática já na primeira faixa: ‘grande bosta! Você sempre terá alguém a seus péésss!!’. Direcionado aos ouvintes impulsivos, “Boas Sementes, Bons Frutos” flagra o ser humano naquele ardor do arrependimento: ‘como pude ser tão estúpido? A culpa é minha? Não, a culpa é sua!’. Não tem uma composição aqui que não encerre com uma exclamação. Seria tão bom se as bandas pop de hoje fossem assim!
Faixa: “Você Sempre Terá Alguém a Seus Pés”

18. Mestro
Hurtmold
Ano: 2004
Gravadora:
Gênero:
Se hoje em dia a música instrumental tem força no Brasil, pode dar os créditos para essa virtuosa banda paulistana. Passeando por gêneros que vão do acid jazz à música oriental, o Hurtmold atinge uma aura indescritível por apostar na imprevisibilidade. Do nada você está viajando em um cool jazz, de repente a música chega em um cha-cha-cha, vai para um post rock, flerta com o punk… Pegue uma canção como “Música Política Para Maradona Cantar”: em alguns momentos você vibra como se estivesse em um estádio de futebol até que, naturalmente, a banda percebe o seu enjoo e vai adentrando outras linhas sonoras. Este é o quarto álbum da banda que tem como integrantes Guilherme Granado (teclado, vibrafone), M. Takara (bateria, trompete), Marcos Gerez (baixo), Mário Cappi (guitarra), Fernando Cappi (guitarra) e, por último, Rogério Martins (percussão e clarinete), que chegou para completar neste que é um dos discos mais inventivos da música instrumental brasileira.
Faixa: “Miniotario”

17. …E o Método Túfo de Experiências
Cidadão Instigado
Ano: 2005
Gravadora: Tratore
Gênero: Rock/Psicodélico
Graças ao Cidadão Instigado, o brega é visto com outros olhos na música brasileira. Tornou-se via de fácil acesso para externar sentimentos. É por esses caminhos que seguem as cordas da guitarra de Fernando Catatau, talvez um dos músicos que mais se destacou na música brasileira nos últimos anos. “Te Encontra Logo” resume as procuras musicais do grupo ao caminhar pelos áridos do sertão, surgindo como um convite para você se entregar às longínquas referências de sua ancestralidade nacional: ‘te encontra logo com a distância/antes de ela te dizer que é tarde demais’. Catatau e companhia, que já causaram rebuliço em O Ciclo da Decadência (2002), surgem neste segundo disco para reafirmar a linda mistura de brega com indie, agreste com pós-rock. Assim como o nordestino de Caetano em “Sampa”, em “Silêncio na Multidão” o Cidadão Instigado cria uma atmosfera caótica enquanto Catatau, num momento confessional com o ouvinte, diz não entender a correria das pessoas em um cruzamento da Paulista com a Brigadeiro: ‘é tanta solidão em movimento’. “O Tempo”, que encerra o disco, é uma das músicas mais lindas da década. Pode servir de consolo nos momentos mais incendiários de nossas vidas: apesar da sonoridade triste, é sincera ao dizer que o tempo pode ser nosso melhor amigo e ‘fica sempre observando aquele instante que alguém tentou se aproximar’. Se Amado Batista tivesse escutado, certamente iria disparar: ‘por que não tive essa ideia?’.
Faixa: “O Tempo”

16. Acústico MTV
Paulinho da Viola
Ano: 2007
Gravadora: Sony-BMG
Gênero: Samba
O Acústico MTV já registrou belas apresentações do Ira!, O Rappa, Legião Urbana, Zeca Pagodinho, Gal Costa, Gilberto Gil, Lenine. Mas nenhum deles fez um resgate tão necessário a um gênero quanto o do Paulinho da Viola. Ele, que é o maior sambista vivo, ainda detém o poder da canção. Rema com leveza e grandeza. Ao vivo, ele revisita alguns de seus maiores clássicos, como “Coração Imprudente” (A Dança da Solidão, 1972), “Timoneiro” (Amor à Natureza, 1975) e “Nervos de Aço” (composição de Lupicínio Rodrigues que integra o disco de mesmo nome, de 1973). Quando ele canta “Sinal Fechado”, você não sabe como reagir: a orquestração, junto à sua eterna viola, formam um clima melancólico onde tudo funciona como uma passagem. Aos 65 anos, Paulinho mostra que sua voz não mudou nada – está até mais límpida que alguns registros antigos. Sem falar que continua um compositor classe A ao apresentar as inéditas “Vai Dizer ao Vento”, “Bela Manhã”, “Ainda Mais” e “Talismã” que, em conjunto, mostram um músico otimista e contente por sua trajetória. Ouça e você também se sentirá assim.
Faixa: “Talismã”

15. Sons da Paraíba
Cabruêra
Ano: 2005
Gravadora: Nikita
Gênero: Regional-Psicodélico
Já são quase 15 anos de estrada e, ainda hoje, não vejo o Cabruêra como forte influência no cenário musical da Paraíba. Eles juntam sons tradicionais do nordeste com produções eletrônicas, dub, forró e o tal do agreste psicodélico dos anos 70, distorcendo o sentido de canção e levando-a a uma experiência imagética, quase subliminar. Antes de conceber Sons da Paraíba, os músicos do grupo rodaram toda a Europa e passaram por reformulações de integrantes, tornando-se um quarteto. O disco sintetiza experimentações musicais não catapultadas pelo mainstream, como é o caso das guitarras forrozeiras de “Embolador”, que parecem entrar em dissonância com as percussões. “Lavandeira” tem baterias em marcha e prega a liberdade através da experimentação, que vai do jazz avant-garde (graças aos trombones do Itabones) a uma espécie de rock futurista. Já “Pisei na Pedra” (com letras de Chico Corrêa) é um reggae pra ser entoado chapado em uma cachoeira. Ótima também é a experiência ritualística de “Chuva Chovendo”.
Faixa: “Samba Negro”

14. Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos
Otto
Ano: 2009
Gravadora: Arterial Music/Rob Digital
Gênero: MPB
Otto é doidão. É um troglodita. Aparenta ser irascível. Já deve ter usado de tudo. Mas, what the hell: nada disso importa! Em seu último registro até agora ele mostrou ser um sentimental profundo, ao mesmo tempo que expele suas vísceras. “Crua”, faixa que abre o disco, mostra esses dois lados de uma moeda valiosa de nossa música. Ele está arrasado, mas não tem medo de assumir seus desejos. Flertando suavemente com Condom Black (nº 49 nesta lista) e com um toque a mais de psicodelia, “Meu Mundo” exibe um Otto chapado que consegue controlar seus demônios – personificados pela voz de Lirinha. “6 Minutos” é verborrágica, destiladora de prazeres baratos e mundanos. Aqui, Otto eleva a experiência de uma transa num quarto de hotel sem distinguir a parceira sexual: poderia ser uma namorada, uma prostituta, uma prima distante. Soa como uma longa descrição de um orgasmo. Bonita também é a versão de “Naquela Mesa”, canção de Sérgio Bittencourt eternizada na voz de Nelson Gonçalves. Produzido por Pupillo e pelo próprio Otto, Certa Manhã… foi a primeira experiência do cantor por vias independentes. Tomara que continue seguindo por este caminho.
Faixa: “6 Minutos”

13. Orchestra Klaxon
Max de Castro
Ano: 2002
Gravadora: Trama
Gênero: Samba-soul
Existe um risco muito grande quando se mexe com elementos como samba-soul: o de cair na mesmice e reproduzir aquilo que Jorge Ben já fez com maestria nos anos 1960-70. Max de Castro provou que não é um artista que vive à sombra do pai Wilson Simonal e mostrou que é possível ser vanguardista atualizando os elementos da black music nacional com pitadas de jazz, bossa nova e R&B. ‘É tudo no meu nome/Se eu tô com o microfone’, diz Max em “Calaram a Voz do Nosso Amor”, uma das composições mais inspiradas do disco. Em “A História da Morena Nua Que Abalou as Estruturas do Esplendor do Carnaval”, Max interliga a composição MPB de Erasmo Carlos a um samba drum’n bass, estilo bastante explorado por DJ Patife. Como não poderia deixar de faltar, Max celebra a beleza negra em “O Nego do Cabelo Bom”, em bonito dueto com Paula Lima. E “Mais Uma Vez, Um Amor” é uma espécie de samba-enredo com funk que, aos poucos, vai flertando com o drum’n bass novamente. Além das misturas serem muito bem-sucedidas, Max retorna, dois anos depois de Samba Raro (2000), com uma voz mais límpida em arranjos ainda mais inovadores. Orchestra Klaxon é black music vanguardista de rara qualidade.
Faixa: “Mais Uma Vez, Um Amor”

12. A Farsa do Samba Nublado
Wado e Realismo Fantástico
Ano: 2004
Gravadora: Outros Discos
Gênero: MPB/Rock
Wado, compositor catarinense que radicou-se em Alagoas, sempre batalhou para encontrar a sonoridade perfeita para suas canções de forte complexidade sentimental. Já conhecido por trabalhar com samba em Manisfesto da Arte Periférica (2001) e Cinema Auditivo (2002), no terceiro registro a canção se adequa a uma sonoridade tangencial, com fortes marcas do rock, MPB e pequenas pitadinhas de eletrônica. Para chegar a esse belo resultado, decidiu registrar no álbum a banda Realismo Fantástico, formada por Alvinho Cabral (violão/guitarra), Thiago Nistal (bateria) e Sérgio Soffiatti (baixo). Todos os músicos são de diferentes regiões, algo que veio para comprovar que o clima ‘nublado’ de incertezas permeia toda a geografia nacional. “Tormenta” já celebra a renovação artística do compositor, que se inquieta com a ‘calmaria que vem antes da tempestade’, ou da ‘chuva de sapos’, ou da ‘chuva de sangue’. “Vai Querer?”, uma das mais belas do disco, é uma composição de Luis Capucho e Suely Mesquita que fala, através de um personagem malandro, como é preciso ter espírito de vendedor de porcos para chegar nos altos degraus sociais: ‘Agora dou facada nos incautos/E nunca devolvo’. Belo álbum de uma discografia que você tem que explorar.
Faixa: “Vai Querer?”

11. Bloco do Eu Sozinho
Los Hermanos
Ano: 2001
Gravadora: Abril Music
Gênero: Rock
Como já disse na descrição do disco Ventura (21ª posição nesta lista), com Bloco do Eu Sozinho o Los Hermanos derrubou o queixo de todo mundo que esperava um sucessor do pop superficial de “Anna Julia”. A banda decidiu dar seguimento a composições mais maduras, inseriu um naipe classudo de metais, catalisou melhor as influências da MPB e demais ritmos brasileiros a ponto de inverter a lógica do rock nacional dos anos 2000. Chega de músicas destrambelhadas apalpadas especialmente para as rádios: é bem melhor seguir na flutuação sonora de “Casa Pré Fabricada” ou “Retrato Pra Iaiá”. “Todo Carnaval Tem Seu Fim” é o mais próximo que os hermanos chegaram do pop neste registro sábio, fluido e experimental. Ouvindo este disco com atenção, você percebe o motivo dos fãs dos Los Hermanos serem tão devotos – a ponto de tornarem-se chatos em alguns momentos.
Faixa: “Sentimental”
