40. São Paulo Confessions

Suba

Ano: 2000
Gravadora: Instituto Suba
Gênero: MPB/Lounge/Acid jazz/Experimental

Para transpor todo o ambiente caótico de São Paulo em um disco, tem que ser fera. O músico de origem iugoslava Mitar Subotic faleceu em 1999 e não teve tempo de ver o resultado deste poderoso álbum que melhor reflete a sonoridade da megalópole. Suba – pianista, compositor e programador que já tocou com Hermeto Pascoal, Marina Lima, Arnaldo Antunes, entre muitos outros – trouxe músicos inusitados e experientes para tentar reproduzir a insanidade de São Paulo em um disco que mistura elementos da MPB com eletrônica, lounge, carimbó, manguebit, psicodelia. Participam do disco a então novata cantora Cibelle, o titã Arnaldo Antunes, o grandioso baterista João Parahyba, além de Katia B. e Taciana. Todas as músicas do disco foram compostas pelo próprio Suba – com exceção de uma híbrida versão de “A Felicidade”, de Tom Jobim e Vinicius de Morais, adornada por timbres melancólicos, batidas de drum’n bass e um piano econômico. São Paulo é dor, é correria, é mistério. O que você imaginar da cidade, vai encontrar em pelo menos uma canção de São Paulo Confessions.

Faixa: “Samba do Gringo Paulista”

39. Pareço Moderno

Cérebro Eletrônico

Ano: 2007
Gravadora: Phonobase Music Services
Gênero: Neotropicalismo/Rock Alternativo

Para Tatá Aeroplano e companhia, ser moderno é um conceito. Para não se afugentar de suas próprias influências, a banda surpreende nos arranjos bebendo da fonte da Jovem Guarda, Tropicalismo e Bob Dylan. Legal também é perceber a idiossincrasia que se sobressai em cada faixa do segundo disco da banda paulistana. Em “Bem Mais Bin que Bush”, Tatá canta alegremente que prefere ficar do lado do tão misterioso Oriente do que dos ideais imperialistas dos norte-americanos. “Dê” é adornada por instrumentos de sopro, até que a voz por vezes zombeteira de Tatá subverte a beleza para algo mais sincero. Uma brincadeira que deu muito certo: afinal, hoje o Cérebro Eletrônico se destaca como uma das melhores bandas de rock alternativo no Brasil.

Faixa: “Os Astronautas”

38. Idem

Móveis Coloniais de Acaju

Ano: 2005
Gravadora: Tratore
Gênero: Ska/Latina

Escutar um disco como Idem é liberar energias adormecidas há tempos. Mas, para a experiência com o Móveis Coloniais de Acaju ser completa, você não pode deixar de ir a um show deles. Essa vigorosa big band de Brasília trabalha elementos como ska, música irlandesa e latina com letras divertidas e boas doses de referências ‘cult’. De perder peso para impressionar no casamento da cunhada (“Perca Peso”) ao rock venenoso que enxerga o sadomasoquismo como um petardo divertido (“Sado-Masô”), o Móveis cita Gorbachev (“Copacabana”), faz uma alusão ao personagem central de A Metamorfose, de Franz Kafka (“Gregório”), e coloca o coração para aluguel em “Aluga-se-Vende”. Em sua música, o Móveis promove uma testosterona de influências que querem se expelir de alguma forma. Então, que seja do modo mais festivo possível!

Faixa: “Copacabana”

37. Uma Tarde na Fruteira

Júpiter Maçã

Ano: 2007
Gravadora: Monstro Discos/Elefant Spain
Gênero: Acid Rock

‘Bem-vindos à marchinha niilista’, inicia Flavio Basso – aka Jupiter Maçã – na abertura “A Marchinha Psicótica do Doutor Soup”. Com produção de Thomas Dreher, o quarto disco do ‘grupo de um cara só’ foi lançado primeiramente na Espanha, com algumas faixas de Plastic Soda, de 1999. Apesar do sucesso parcial de A Sétima Efervescência, de 1996, aqui o Júpiter Maçã soa mais psicodélico e misterioso do que em seus registros anteriores. Ele cita Woody Allen e chega a fazer uma espécie de ode à fase oriental de George Harrison em “Beatle George”, além de pegar resquícios dessa influência em “Plataforma 6”. Como já fez nos trabalhos anteriores, revisita Os Mutantes na tropicalista “Síndrome de Pânico” e, na divertida “As Mesmas Coisas”, simula um pé-na-bunda do companheiro após uma alucinada experiência com ácido.

Faixa: “As Mesmas Coisas”

36. A Invasão do Sagaz Homem Fumaça

Planet Hemp

Ano: 2000
Gravadora: Sony
Gênero: Rock/Hip Hop/Ragga

O rock como nunca se viu! A crítica especializada sempre elogiou grupos que trabalhavam a sutileza para vociferar assuntos que estavam intalados na garganta de qualquer brasileiro. Bom, o Planet Hemp entrou e subverteu tudo com suas letras diretas, ríspidas, apologéticas. Usuário causou em 1995 por estremecer com as canções que todo mundo conhece: “Não Compre, Plante!”, “Mantenha o Respeito” e “Legalize Já”. Agora, em questão de produção e agressividade, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça soa mais poderoso e até maduro. A musicalidade aqui é melhor trabalhada – muito por conta da produção de Mário Caldato Jr. – e o grupo parece estar mais coeso: Black Alien perde a postura de um dos principais vocalistas, mas ressurge com seus vocais hipnóticos. BNegão, de volta, já mostra a que veio logo na primeira faixa “Doze com Dezoito”: ‘Vou te foder antes que você foda a minha gente!’. Tem hardcore nervoso (“Procedência C-D”), a mistura maluca que já habita no nome de “Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga” (um Pantera com Public Enemy?) e o habitual pop agressivo em “Ex-Quadrilha da Fumaça”. O Planet acabou – mas acabou com louvor, tenha certeza disso.

Faixa: “Ex-Quadrilha da Fumaça”

35. Banda Larga Cordel

Gilberto Gil

Ano: 2008
Gravadora: Warner
Gênero: MPB

Discos de retomada são sempre perigosos. Mas este não é o caso de Gilberto Gil. Depois de assumir o Ministério da Cultura por mais de cinco anos e passar por um hiato de 11 anos sem disco de inéditas, Gil preferiu dar asas à imaginação e respeitar sua criatividade em Banda Larga Cordel. Ele, que já explorou do baião ao rock, não quis fazer nada conceitual. Para tanto, entregou um disco nada coeso – o que não é uma notícia ruim. Ele explora o reggae em “Os Pais”, lembra Gonzaguinha em “Despedida de Solteira” e trabalha lindamente com arranjos de cordas na balada “A Faca e o Queijo”. Quando se fala em temáticas, Gil costuma surpreender, e ele não faz diferente ao conectar Baden Powell e samba de vitrine em “Samba de Los Angeles”, com bonita sofisticação; ou trabalhar o maxixe com efeitos high-tech na ‘dança digital’ de “Não Grude Não”.

Faixa: “Não Tenho Medo da Morte”

34. Artista Igual Pedreiro

Macaco Bong

Ano: 2008
Gravadora: Trama
Gênero: Rock Instrumental

Taí o disco que fez voltar os olhos do público para o efervescente cenário instrumental no Brasil. Direto de Cuiabá (MT), o Macaco Bong gosta é de pancada, de rock, de letargia! “A música instrumental era quase que restrita ao jazz e a nova cena nos permitiu essa liberdade estética, algo que não existia no mainstream musical”, chegou a dizer o então baixista Ney Hugo, que hoje deu lugar a Gabriel Murilo na banda. Apesar dos temas serem erigidos com cautela, o disco deixa espaço para improvisações dignas de rock stars. “Amendoim” é um hard core tão poderoso, que um vocal ali provavelmente a estragaria. “Fuck You Lady”, com interpolações grunge, agradou tanto que foi parar em uma compilação organizada por uma revista francesa. Todos os músicos do Macaco Bong são virtuosos, mas o verdadeiro mérito de Artista Igual Pedreiro está nas composições. Agressividade na medida.

Faixa: “Fuck You Lady”

33. Raciocínio Quebrado

Parteum

Ano: 2005
Gravadora: Trama
Gênero: Rap

Para quem não sabe, Parteum é o pseudônimo do rapper Fabio Luiz, produtor audiovisual, um dos MCs do Mzuri Sana e irmão do conhecido Rappin’ Hood. Nas veias do underground, o primeiro álbum solo do rapper é uma sucessão de rimas inteligentes que, entre outras coisas, critica a inércia perante a televisão (“Raciocínio Quebrado”), fala de estética com uma composição ligeira e amarrada em “Rimas Jogadas ao Vento” – com mais ‘inteligência que McGyver e James Bond’, sem deixar de criticar o ECAD. Em “Época de Épicos”, uma turma habilidosa da cena underground faz aparição: Kamau, Rick e Paulo Napoli. Nesta canção, Parteum se compara ao influente escritor Julio Verne por criar ‘imagens tridimensionais’ em suas rimas, absorvendo energias totalmente diferentes de outros representantes do gênero. “A luz do fim do túnel me guia/Ninguém me enxerga como deveria”, sela o rapper em “O Círculo”. Uma pena – para os possíveis ouvintes.

Faixa: “Época de Épicos”

32. Bambas & Biritas Vol. 1

BiD

Ano: 2005
Gravadora: Beleza Records
Gênero: Vários

BiD sempre foi um produtor muito ocupado (Afrociberdelia, Funk Como Le Gusta, Mundo Livre S/A, Planet Hemp etc) e, para conseguir gravar seu primeiro projeto, teve que ir registrando as ideias na secretária eletrônica enquanto dava continuidade a tantos outros. Como já era de esperar, tem muita brasilidade, funk, soul, eletrônico, rap, experimentalismos. Black Alien participa no mix ragga/rap em “Na Noite Se Resolve”, Rappin’ Hood faz uma ode ao eterno Sabotage em “Maestro do Canão”, Seu Jorge segue na flutuação bossa nova em “E Depois…” e Elza Soares canta no lindo cool jazz de “Mandingueira”. Isso são só as participações. A banda então? Só gente de calibre: o pianista Carlos Daffé (Tim Maia, Banda Black Rio), Marku Ribas (João Donato, Rolling Stones), o irmão Rocco Bid na bateria, Bruno Buarque (Céu, Anelis) na percussão, Lula Barreto (Gérson King Combo) no baixo e, claro, BiD na guitarra, vocal e craviola. Com um time desses, não tem como jogar mal.

Faixa: “Fora do Horário Comercial” (com Marku Ribas)

31. No Chão Sem o Chão

Romulo Fróes

Ano: 2009
Gravadora: YB
Gênero: MPB

Romulo Fróes sambista? Alguns disseram isso quando ele lançou Calado, em 2004. Romulo MPB/tropicalista? Foi a vertente que veio à mente na época de Cão (2006). Mas ele não era um músico para rótulos. Provar isso foi um trabalho árduo, que se materializou no lançamento do disco duplo No Chão Sem o Chão, onde o músico aparece sorrateiramente vertiginoso (vide “Destroço”, com a virtuosa guitarra de Lanny Gordin) e autoindulgente (“Para Fazer Sucesso”), ao mesmo tempo em que se mostra um poeta de sensibilidade em “Pierrô Lunático” ou “Qualquer Coisa em Você Mulher”. São mais de duas horas de canções onde se vê rock, MPB, neotropicalismo, samba – tudo isso não facilita a audição para neófitos. É o lado compositor e até contraditório (quem não o é?) do músico que é enaltecido. A partir deste disco, a música de Romulo Fróes recebeu um outro olhar: o olhar mais atento possível.

Faixa: “Para Quem Me Quer Assim”