O ano está acabando e a lista do Na Mira do Groove de melhores discos internacionais demorou, mas foi concluída. Foi um ótimo ano para o hip hop, que se renovou e se aproximou de gêneros mais novinhos que estão sendo modelados aos poucos, como é o caso do dubstep. Nesse quesito, destaque para The Weeknd, Shabazz Palaces e Drake. Mas, claro, também continua aquele rap agressivo e transgressor, como é o caso de Death Grips.
O indie ainda contamina a cena roqueira, mas quem sai pelas bordas como o St. Vincent e o WU LYF se dão bem. Há quem se apegue mais ao rock pesado e mais clássico, como o grande retorno do Foo Fighters e o estonteante disco do Fucked Up. The Black Keys, que já tinha evoluído bastante com Brothers, mostrou que é possível ser ainda mais cru e mais original com o lançamento tardio de El Camino que, assim que saiu, já veio parar nas listas de melhores de 2011.
Nomes como SBTRKT, Justice e Toro Y Moi renovaram ainda mais a música eletrônica, ainda que explorem diferentes gêneros.
Entretanto, caros amigos, o primeiro lugar não tem nada a ver com nenhuma das cenas citadas. E não figurou em quase nenhuma lista de melhores. Poderia muito bem ter sido a PJ Harvey, Radiohead ou M83, discos que o Na Mira do Groove gostou bastante depois de ouvir exaustivamente.
Confira também:
• As 100 Melhores Músicas de 2011;
• Os 30 Melhores Álbuns Nacionais de 2011;
• Os 50 Melhores Clipes de 2011.
Confira os melhores discos internacionais de 2011:

50. Audio, Video, Disco
Justice
Gravadora: Ed Banger
Gênero: Eletrônico
Muitos criticaram quando o segundo disco do duo francês caiu na rede. Tudo bem que ele pode não ter as mesmas doses de experimentalismo da disco music que caracterizaram o álbum †, mas Audio, Video, Disco não deixa de ser compenetrado, criando um diálogo maior com o rock e com o eletrônico progressivo. Faixas como “Canon” e “Brianvision” revisitam as produções anteriores dos beatmakers, dando uma limpidez maior às passagens das batidas e, automaticamente, se afastando das pistas de dança. Mas esse compromisso é bem selado em “Civilization”, “On’n’On” e “Helix”, que mostram rumos criativos e até mais pop.
Faixa: “On’n’On”

49. World Wide Rebel Songs
The Nightwatchman
Gravadora: New West
Gênero: Folk
Formado em Ciências Políticas pela Universidade de Harvard, Tom Morello parece não ter deixado de lado suas indignações sociais com o possível fim do Rage Against the Machine. O guitarrista trocou as pedaleiras pelo violão e chamou a banda Freedom Fighter Orchestra para acompanhar petardos como “Black Spartacus Heart Attack Machine” ou o moderno manifesto comunista de “Save the Hammer for the Man”, que traz um lindo dueto de Tom com Bem Harper. Além de explorar o folk, Morello estabelece um diálogo com outros gêneros, sempre partindo do pressuposto de que as canções rebeldes vão penetrar na sua mente.
Faixa: “Save the Hammer for the Man”

48. Watch the Throne
Jay-Z & Kanye West
Gravadora: Roc-A-Fella/Def Jam/Roc Nation
Gênero: Hip Hop
Desde o ano passado já se falava de um disco inteiro com a dupla Jay e We. Eles são parceiros de longa data e gravaram faixas que fincaram história no hip hop, seja na produção de Kanye em “Lucifer” ou no vocal poderoso de Jay em “Monster”. Neste trabalho, eles mostram explicitamente a luxúria e fazem um trabalho ‘de cima para baixo’, como se estivessem jogando pães aos famintos pelos sons dos rappers. Há ótimas colaborações: Beyoncé é quase uma mensageira futurista em “Lift Off” e Frank Ocean soa sensível em “No Church in the Wild” e faz um ótimo refrão em “Made in America”. Os resquícios de grandiosidade são registrados nas ótimas “Otis”e “That’s My Bitch”. Se eles são grandiosos ou não, e se este assunto é polêmico ou não, cabe a você decidir. Prefiro acreditar que eles são bons rappers e fizeram um disco positivo.
Faixa: “Otis” (ft. Otis Redding)

47. SBTRKT
SBTRKT
Gravadora: XL
Gênero: Eletrônico/Dubstep
Apesar da máscara africana na capa do disco, o debut do SBTRKT não tem muitas referências do continente. O som é eletrônico pesado, apesar das percussões pulsantes de “Go Bang”, última do disco. Aaron Jerome, o único membro do SBTRKT, justifica a capa dizendo que ela evoca o espírito de um ancestral e “é usado de forma proeminente em cerimônias e celebrações. É sobre elevar a alma e enfrentar as normalidades da música eletrônica”. Realmente, vemos a inventividade sobressaltar no techno de “Wildfire” (com Little Dragon) e no dubstep dançante de “Pharoahs”.
Faixa: “Wildfire” (ft. Little Dragon)

46. We’re New Here
Gil Scott-Heron & Jamie xx
Gravadora: XL/Young Turks
Gênero: Eletrônico/Dubstep
Jamie xx, uma das mentes criativas do grupo de minimal The xx, não previa o falecimento de um de seus ídolos neste ano. Ele simplesmente caiu nas graças do ótimo disco I’m New Here, de Gil Scott-Heron (lançado em 2010 e considerado um dos melhores álbuns daquele ano pelo Na Mira do Groove), e criou batidas em cima do modelo spoken-word de um dos precursores do hip hop. As batidas da faixa “I’ll Take Care of U” estouraram tanto, que serviram como base para “Take Care”, que Drake cantou com Rihanna no disco de mesmo nome que lançou neste ano. Muito além de um disco com bases criativas, We’re New Here acaba servindo como tributo a um dos maiores ativistas musicais de nossos tempos. Sem falar que mostra como as composições de Scott-Heron se ajustam facilmente às batidas modernas.
Faixa: “I’ll Take Care of U”

45. Suck It and See
Arctic Monkeys
Gravadora: Domino
Gênero: Rock
“I wanna rock and roll!”, vocifera Alex Turner na inspiradora “Brick by Brick”. E fala também sobre ‘valsa de bate-estaca’ na tradução de “Pilerdriver Waltz”. Desde que Josh Homme entrou no time de produção dos discos dos Monkeys, a partir de Humbug as composições foram melhoradas e saíram daquela esfera adolescente que divertiu bastante os ouvintes nos dois primeiros álbuns. Em Suck It and See, o trio conseguiu podar bem o espírito garageiro em boas canções como “All My Own Stunts” e “She’s Thunderstorms” e explorar o lado sentimental em “Piledriver Waltz” e “Love is a Laserquest”.
Faixa: “Pilerdriver Waltz“

44. nostalgia, ULTRA
Frank Ocean
Gravadora: Def Jam
Gênero: Soul/Hip Hop/R&B
Veja como adquirir
Quem imaginaria que um coletivo como o Odd Future, bagunceiro e desordenado, pudesse ter um músico com um belo timbre de voz e que não tem medo de admitir que já compôs para Justin Bieber e Beyoncé? Ocean, além de ser o contraponto do grupo de rap mais falado de 2011, também é pop e tem sentimentos que, por mais que tentem esconder, uma hora acabam aparecendo. É o caso de “There Will Be Tears”, em que o músico sente a falta do pai, mas fica receoso de mostrar sua fraqueza perante os amigos que sofreram a mesma perda. ‘Eles não podem me ver chorando/Porque esses garotos também não têm pais/E eles não estão chorando’, canta Ocean em meio a palmas que se encaixam em uma linha contínua de guitarra. Todas as canções de nostalgia, ULTRA, de uma forma ou outra, expõem a maturidade precoce de uma das grandes revelações da música pop. Sem falar na ousadia: Frank Ocean ignorou os esforços de marketing da Def Jam e lançou o disco no seu Tumblr, para o usuário baixar de graça. Era disso que estávamos precisando…
Faixa: “There Will Be Tears”

43. Father, Son, Holy Ghost
Girls
Gravadora: True Panther
Gênero: Rock
Dick Dale em “Honey Bunny”, Television em “Die”, Led Zeppelin acústico em “Just a Song” e Aerosmith em “Vomit”. Todas as bases musicais do Girls evocam alguns dos melhores riffs e melhores canções de rock de todos os tempos. Não digo isso no sentido de ‘cópia’, mas sim de arranjos magistrais, mostrando que o rock’n roll ainda pode ser inspirador e inventivo. Apenas duas pessoas fazem parte do grupo: Christopher Owens e Chet ‘JR’ White. Tem muitas referências dos Beach Boys também, o que explica as belezas vocais que permeiam as canções: algo sentimentalista vindo de um jovem maduro e bucólico que tem assunto para falar sobre o que quiser.
Faixa: “Vomit”

42. Revelation Part I: the Roots of Life
Stephen Marley
Gravadora: Ghetto Youths/Tuff Gong/Universal Republic
Gênero: Reggae
Assim como seu pai Bob Marley explorou o sentimento de força e união no continente africano com Survival, em 1979, seus filhos vêm mostrando esforços para captar e explorar ainda mais esse capítulo que ficou interminável na trajetória musical de Bob. Damian Marley uniu reggae com o rap de Nas no acessível Distant Relatives, lançado ano passado. Stephen Marley produziu o disco, mas também sentiu a necessidade de ser mensageiro. As letras de Revelation Part I são muito boas, mas o grande ponto alto são os arranjos e o diálogo com outros gêneros jamaicanos, como dancehall, jungle e dub. “False Friends” é levado por um belo arranjo de cordas e “Jah Army” é um dub poderoso, com vocais secos que receberam um tratamento estético similar ao autotune. A partir da metade da canção, Buju Banton coloca o peso do jungle, junto com o refrão de Damian. Stephen se arriscou e se saiu muito bem também ao fazer uma releitura de “How Many Times”, de seu pai, em “Pale Moon Light”.
Faixa: “Jah Army” (ft. Damian Marley & Buju Banton)

41. Wasting Light
Foo Fighters
Gravadora: RCA
Gênero: Rock
Dave Grohl disse que ia lançar o disco mais pesado da história do Foo Fighters e lançou, talvez, um de seus melhores trabalhos com a banda. Se a grandiosidade do grupo veio em um tempo não tão longe após o Nirvana, Wasting Light veio para fincar os pés e liderar o mainstream. Já dizem que é a melhor banda do mundo, a mais cotada para os festivais, a mais insana para os fãs… Modismos à parte, Grohl finalmente conseguiu voltar aos bons tempos de The Colour and the Shape, não apenas por causa da energia revigorada de toda a banda, mas também por conta da produção roqueira de Butch Vig que, para quem não sabe, é ninguém menos que o produtor de Nevermind. Neste disco de peso, moldado pra quem gosta de rock’n roll pop e pesado ao mesmo tempo, destaque para “Rope”, “White Limo”, “Arlandria” e “Back and Forth”.
Faixa: “Rope”
