O Na Mira celebrou o fato de o Radiohead ter lançado disco novo. Mas, infelizmente não foi um ano para medianos, e A Moon Shaped Pool teve que ser cortado fora da lista dos melhores internacionais do ano.
Não é bem pela melancolia do disco – porque, nesse quesito, Thom Yorke está a léguas de distância de David Bowie, Nick Cave e Emma Pollock – mas porque realmente 2016 teve uma ótima demanda de discos. Principalmente os tristes. E, convenhamos: Radiohead deixou de ser referência melancólica há muito tempo.
Peguemos Angel Olsen, por exemplo. Ela inseriu suas complexas canções sobre relacionamentos em arranjos mais densos do que o folk, por si só, poderia lhe proporcionar. O rapper Ka deu uma abordagem intrigante à influência de Enter The 36 Chambers (1993), enquanto Solange foi ainda mais radical que a irmã na busca da essência da música e cultura negras em A Seat at The Table.
Foi o ano, também, de vários retornos. Vocês verão que o 1º lugar foi o mais celebrado deles, porque mostrou que o tempo só melhora certas coisas que achávamos ter ficado presas ao passado.
Os dias avançam, algumas coisas se desgastam, mas felizmente alguns artistas sabem como lapidar gêneros associados a tempos idos e reformulá-los às propostas do presente e – por que não? – do futuro.
Confira os 30 melhores discos internacionais de 2016. Tem playlist:
Veja também:
• Os 20 melhores discos nacionais de 2016
• Os 30 melhores discos de jazz de 2016
• As 30 melhores músicas nacionais de 2016
• As 30 melhores músicas internacionais de 2016

30. Honor Killed The Samurai
Ka
Gravadora: Iron Works
Data de Lançamento: 14 de agosto de 2016
Mais obscuro e aventureiro que o antecessor The Night’s Gambit (2013), o 4º álbum do rapper Ka foge mais uma vez de quaisquer paralelos no gênero, absorvendo o impacto de melodias post-rock, IDM e avant-garde. Pense numa parceria entre GZA e Clams Casino, e dá pra se ter uma vaga ideia da pretensão musical de Honor Killed The Samurai, onde as noites obscuras e solitárias inspiram reflexões sobre cenários, possibilidades e perigos. Na verdade, o disco é um reprocessamento do clássico Enter the 36 Chambers, onde as rimas são menos importantes que as sensações e o espírito de andarilho. Ouça canções como “$”, a soturna “That Cold and Lonely” e a jazzística “Illicit Fields”: você vai passar a projetar locais, cenas e ações a partir de canções filosoficamente intrigantes.

29. Throwback to the Future
BROOKZILL!
Gravadora: Tommy Boy Records
Data de Lançamento: 7 de outubro de 2016
O rap passa por momentos distintos tanto em Nova York como no Brasil como um todo. Mas, os elementos que possibilitam essa fusão podem muito bem ser reaproximados, como propõe o grupo BROOKZILL!, formado por Prince Paul (produtor de De La Soul), Don Newkirk, Ladybug Mecca (do Digable Planets) e o brasileiro Rodrigo Brandão, que aproveitou para convidar diversos de nossos compatriotas para participar do projeto. Dos rappers Thaide e Xis (em “S. Bento MC5”) e Elo da Corrente (“Amigo Estranho Amigo”) a músicos do Metá Metá (na dobradinha “Mad Dog in Yoruba” e “BROOKZILL! Suite”), o crossover engloba a cultura afrobrasileira e afroamericana praticamente em sua totalidade. E não falamos apenas de elementos tradicionais: o soundsystem e a música de terreiro mostram que a contemporaneidade e o futuro latejam nesse experimento que – esperamos – há de se repetir.

28. Everybody Looking
Gucci Mane
Gravadora: Atlantic
Data de Lançamento: 22 de julho de 2016
O primeiro disco de Gucci Mane após o período que passou na prisão (e lançou dezenas de mixtapes) é mais cuidadoso. As letras continuam falando descontraidamente de fazer um rolê, andar de carro e sair com algumas garotas. A diferença, porém, está no trilhar de uma nova caminhada. Faixas como “Back On Road”, com refrão entoado por Drake, e “1st Day Out Tha Feds” deixam bem claro que a alegria da liberdade é incomparável com qualquer outro tipo de devassidão. A produção geral, assinada por Mike WiLL Made It, mistura pianos cristalinizados a batidas pulverizadas. Essa dinâmica é explorada constantemente, e mostra resultados diversos: em “Guwop Home”, atiça a lisergia (radicalizada pela voz do parceiro Young Thug); já em “Waybach”, inspira ligar o som no talo na praia, tomando uma cerveja e admirando a paisagem.

27. I Asked You a Question
Nitai Hershkovits
Gravadora: Time Grove Selections
Data de Lançamento: 8 de fevereiro de 2016
Os teclados possuem uma infinidade de efeitos e possibilidades estéticas. Pensando nisso, o israelense Nitai Hershkovits extraiu diversas cores e energias de modelos como Farfisa, Rhodes e Yamaha CS-15 para a criação de um disco ácido que mistura psicodelia, jazz setentista e breakbeat. I Asked You a Question anda par a par com os discos de Flying Lotus pré-Until the Quiet Comes (2012), trazendo um pouco de Nicolas Jaar e James Blake prum universo de densidade temporal em takes como “The Palm of Your Hands” e “Rainbow vs. Uniporn”. A participação do cantor israelense Shai Tsabari, em “Datlash”, cria uma auréola no disco, como se ele fosse abençoado. Ela destoa um pouco da proposta do disco, mas não deixa de ser mais uma oportunidade para adentrar a perspectiva musical fora do eixo caucasiano.

26. The Childhood of a Leader OST
Scott Walker
Gravadora: 4AD
Data de Lançamento: 19 de agosto de 2016
Desde Tilt (1995), Scott Walker tem seguido uma linha que alguns ouvintes têm considerado radical demais no dark-ambient. Seus temas se encaixam em trilhas de terror, mas não daqueles que se baseiam apenas no susto. O compositor britânico já mostrou que tem tato pra isso na trilha de Pola X (1999), mas criou uma jornada mais profunda na psique de um jovem que viveu o pós-1ª Guerra Mundial, numa obra em que o clássico e o avant-garde perfazem apreensões e incertezas. Não é preciso assistir ao filme para ter uma ideia do contexto de The Childhood of a Family: a trilha é praticamente uma extensão conceitual do que Walker propõe, só que com temas mais breves e ideias mais fragmentadas. A essência, claro, permanece – sem precisar ser suavizada.

25. The Impossible Kid
Aesop Rock
Gravadora: Rhymesayers Entertainment
Data de Lançamento: 29 de abril de 2016
Bem antes de existir A$AP Rocky, o rapper de Portland Aesop Rock já era tido como um dos maiores nomes do underground no gênero, marcando presença com Float (2000) e mostrando de vez sua verborragia em Labor Days (2001). Ao lado de GZA, Aesop é dono do vocabulário mais rico dentro do hip hop. Nesse pano de fundo todo, porém, The Impossible Kid é mais suave, servindo como porta de entradas perfeita para quem nunca ouviu falar nele. (Pelamor, o cara fez até uma música para o gatinho dele: “Kirby”!) Faixas como “Rings” e “Dorks” mostram que a crueza instrumental de sua produção caem bem ao seu formato de rimas. Poderia ser uma fórmula, se não fosse apenas uma base simples suficientemente adequada para suas rimas afiadas sobre o cotidiano. Noutras palavras, Aesop nunca foi tão pop e acessível em The Impossible Kid, que pode não ser o melhor de seus discos – mas, ainda assim, é um dos melhores de rap do ano. Prova de que ele continua essencial.

24. You Want It Darker
Leonard Cohen
Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 21 de outubro de 2016
Assim como David Bowie, Leonard Cohen lançou o álbum derradeiro dias antes de falecer. You Want It Darker é sombrio, mas não somente por uma suposta previsibilidade de sua partida. Pelo menos desde Old Ideas (2012) suas composições tornaram-se ainda mais obscuras do que já eram – com um toque ou outro de bom humor, é verdade. O que separa esta obra das demais é justamente a conexão com as melodias tácitas que marcaram seus primeiros discos, lá nos anos 1970. A secura de “Leaving the Table” e um aspecto dramático da guitarra flamenca em “Traveling Light” mostram que o tempo, além de dar mais maturidade à obra de Cohen, lhe garantiu mais coesão. Em entrevista à New Yorker, Bob Dylan confessou que prefere os discos mais tardios de Cohen: “há sempre um sentimento direto, como se ele estivesse mantendo uma conversa, te contando alguma coisa, e o ouvinte continuasse ouvindo. É um músico muito mais experiente do que você imagina”, disse Dylan ao jornalista David Remnick. Portanto, ouvir “It Seemed the Better Way”, “If I Didn’t Have Your Love” e a faixa-título é estar diante da pura sapiência musical – palavra de quem é tido como um dos maiores gênios da música.

23. 32 Levels
Clams Casino
Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 15 de julho de 2016
Um dos produtores mais criativos quando se fala em misturar hip hop com ambientes dark, com elementos da eletrônica, Clams Casino passou a ser cada vez mais requisitado. Ele já trabalhou com nomes que vão de Lana del Rey a MF DOOM. Seus colaboradores mais frequentes, A$AP Rocky e Lil’ B, não poderiam deixar de aparecer em seu primeiro álbum solo de fato (Instrumentals, de 2011, é uma mixtape): eles estão juntos na cósmica “Be Somebody”. “All Nite”, com o elogiado Vince Staples, cria um meio-termo entre o eletrônico pesadão popularizado por Yeezus (2013) e a musicalidade soturna de Earl Sweatshirt. Os múltiplos níveis citados no disco têm mais a ver com a modulação sonora do que a modulação climática. Casino inspira takes misteriosamente soturnos, e expandiu essa atmosfera para outros rappers e cantores – incluindo a muito querida Kelela, que em “A Breath Away” faz um soul notívago que ganha contornos de pop catártico e aos poucos adentra uma selva tribal. Mas, a melhor de todas é “Ghost in a Kiss”, em que Samuel T. Herring, do Future Islands, com aquela voz de velho sábio, faz ares de profeta.

22. In Search of Harperfield
Emma Pollock
Gravadora: Chemikal Underground
Data de Lançamento: 29 de janeiro de 2016
Encontre via Chemikal Underground
A morte da mãe e a doença do pai fizeram com que a escocesa Emma Pollock voltasse para si própria e para a infância. Ela passa pela casa onde nasceu e cresceu em canções como “Cannot Keep a Secret” e “Monster in the Pack” e enche o seu folk de adornos estéticos e orquestrados, que lembram Dusty Springfield indo de encontro a Sufjan Stevens. Suas canções são mais reflexivas do que meramente melancólicas: “Intermission” e “Vacant Stare”, por exemplo, têm arranjos de cordas intensos. Seja nos violinos ou nas guitarras, Emma Pollock faz com que esses arranjos se compadeçam ao seu canto sereno – algo que muitos jamais conectariam ao histórico de perdas que marcam In Search of Harperfield.

21. A Hermitage
Jambinai
Gravadora: Bella Union
Data de Lançamento: 17 de junho de 2016
Esta foi uma das pérolas descobertas no podcast O Resto é Ruído. Jambinai é um grupo post-rock-tribal, com muitos elementos do folk oriental, que veio da Coreia do Sul. Há algumas canções em coreano, mas a maioria delas é em inglês – algo que não faz tanta diferença. O rock aturdido, com instrumentos exóticos pra nossa cachola ocidental, como geomungo (longo instrumento de corda típico da Coreia do Sul, que lembra uma cítara) e haegum (também sul-coreano, que lembra um berimbau misturado à cabaça), deixa bem claro que o quinteto está preocupado em canalizar um sentimento de raiva e revolta. Uma música em específico trata-se disso: “They Keep Silence”, que remete à dor das famílias de 300 estudantes que morreram após um navio afundar, por negligência do governo. O som do geomungo cria uma sensação de tempo perdido, enquanto o post-rock ao fundo dilacera a dor e a transforma em ira. Geralmente quando falamos de post-rock oriental, os primeiros nomes que vêm à cabeça são Merzbow, Boris e Mainliner. A linha seguida pelo Jambinai, porém, é mais angular e catártica, com progressões harmônicas que buscam interpretar o sentimento oculto de milhões, que preferem reservar-se ao silêncio.

20. The Gospel
Årabrot
Gravadora: Fysisk Format
Data de Lançamento: 26 de fevereiro de 2016
Metal da Noruega considerado um dos melhores discos de rock do ano por uma publicação que fala de música do mundo? Em termos de inovação, estranheza e pulsação, não há nada melhor no gênero, neste ano, do que The Gospel. Estamos falando de um ano com bons discos de Iggy Pop, retorno do Metallica e do Radiohead e trampos elogiados de The 1975 e Savages. Melodias post-rock em propostas avant-garde, vocais que lembram de bruxas milenares a homens das cavernas, riffs de guitarra e órgãos, bateria absurdamente improvável… “Faustus”, “Ah Feel”, “Darkest Day”. A sensação de ouvir The Gospel é diferente de ouvir qualquer outro disco de rock pesado. Mais do que a distância do óbvio, o Årabrot prosseguiu um caminho de inventividade na tríade pós, metal e avant glorificada desde The Seer (2012). Teve disco do Swans este ano, mas nada que chegasse perto do Årabrot.

19. Malibu
Anderson .Paak
Gravadora: Steel Wool Records
Data de Lançamento: 15 de janeiro de 2016
Malibu é o segundo disco de Anderson .Paak, mas parece ter surgido como estreia. Sua projeção ganhou contornos exponenciais após participar do disco Compton (2015) e, se alguma expectativa foi gerada, o resultado é bastante surpreendente. Paak faz soul-music, mas com injeção da eletrônica, do hip hop e, principalmente, do gospel moderno, que ele diz estar incrustado em sua obra até o osso. “Heart Don’t Stand a Chance” pode ser a música que você tocaria pra impressionar alguém ao dar um rolê de carro, mas quem quer viajar sob melodias e letras emotivas vai se identificar de imediato com músicas como “The Season/Carry Me” e “Parking Lot”. São 16 faixas, o que faz de Malibu um disco longo, mas a relativização estética que vai do funk setentista (“Am I Wrong”) a participações de rappers do calibre de The Game, BJ The Chicago Kid e Talib Kweli (na psicodélica “The Dreamer”, que fecha o álbum com chave de ouro) mostram que Anderson .Paak é um nome que veio trazer tonificação, gingado e, principalmente, originalidade à soul music.

18. Love & Hate
Michael Kiwanuka
Gravadora: Interscope
Data de Lançamento: 15 de julho de 2016
Com Home Again, o britânico Michael Kiwanuka chegou a ganhar prestígio, mas isso ainda não era o bastante. Ele queria estourar – afinal, se caras como Jake Bugg e Ben Howard chegaram lá, por que ele também não poderia ter aceitação radiofônica? Após recusar convites pra tocar em disco de Kanye West, e ver que as paradas britânicas não costumam levar o R&B e a soul-music tão a sério fora dos circuitos comerciais, ele refletiu, refletiu e lançou uma obra que não poderia fugir do adjetivo ressentido. “Black Man in a White World” e “Place I Belong”, por exemplo, questionam sua representatividade. A extensa “Cold Little Heart” certamente inspiraria algum xingamento por parte de produtores, por ser uma faixa inicial longa, extensa, progressiva. Kiwanuka certamente não quer saber de sucesso, já que Love & Hate é praticamente um manifesto contra o establishment. Não é um disco pras paradas musicais, muito menos pra tocar no rádio. É, na verdade, uma obra espirituosa e sincera. E ressentida, claro, porque o ressentimento, no campo musical, costuma ser bastante inspirador.

17. Coloring Book
Chance The Rapper
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 12 de maio de 2016
Muitos nomes do pop figuram no segundo álbum de Chance The Rapper, como Justin Bieber, Young Thug e Kanye West. Muitos nomes do jazz e do gospel também: há os arranjos de Donnie Trumpet, o coro dos Chicago Childrens, o gospel de Kirk Franklin. Coloring Book é um compêndio de todas as influências de um dos nomes mais eclipsados do rap dos últimos anos. Chance The Rapper faz por onde: rima com a devoção e espiritualidade de um vocalista de igreja, e isso pode ser sentido na soul “All We Got”, na reflexiva “Blessings” e na totalmente gospel “Finish Line/Drown”. Em que outro momento a música da igreja, o hip hop e a música pop encontraram um meio termo de projeção tão imensa quanto em Chance The Rapper, que têm mostrado que o jogo é bem mais complexo do que meras estrofes hedonistas? Se não acredita, Coloring Book é a injeção de fé que você precisa.

16. In Drum Play
Pangaea
Gravadora: Hessle Audio
Data de Lançamento: 14 de outubro de 2016
Pangaea é um projeto de ‘club music’ (vamos dizer assim) do britânico Kevin McAuley. In Drum Play é o primeiro álbum de fato, após alguns EPs justamente apropriados para sets eletrônicos do SoundCloud. Numa via contrária de caminhos tortuosos de IDM e trip-hop, que vivem novo auge, o Pangaea faz um eletro UK garage com energia para as pistas. Se é exatamente isso que procura, comece por “Rotor Soap” e já pule para “More is More to Burn”. As melodias do acid-house e parte da essência rítmica da disco-music estão incrustadas nas ideias musicais de McAuley – assim como aventuras tribais (“One by One”), sons borbulhantes (“Mutual Exchange”) e um techno frenético (“DNS”). O que faz desta obra algo majestoso é a conexão de múltiplas ideias, cenários e estéticas musicais com o ritmo das pistas, ainda carentes de inovação.
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15. Adore Life
Savages
Gravadora: 22 de janeiro de 2016
Data de Lançamento: Matador
O disco mais vívido de rock do ano foi lançado logo no comecinho dele. Músicas como “Sad Person” e “Adore” fazem valer cada respiro dessa vida, por mais insana que ela seja. Estranho que venha de um grupo feminista de pós-punk? Não acho. ‘Será que é por você que eu rezo?‘, direciona o Savages em “Slowing Down The World”. Em “I Need Something New”, a cantora espera uma reação diferente de um outro – um outro porvavelmente conformado. “The Answer” e “T.I.W.Y.G.” são pungentes e barulhentas, nevrálgicas e enérgicas. A impressão é que a descarga dos Savages ainda não foi descarregada completamente – o que não deixa de ser boa notícia. Afinal, queremos mais. Que bom que o rock ainda nos proporciona essa vontade toda.

14. Ragga Preservation Society
Seekersinternational
Gravadora: Diskotopia
Data de Lançamento: 23 de outubro de 2016
De tempos em tempos o jungle e o dancehall despertam novos interessados, por seu groove envolvente e por sua possibilidade de criar sets quebradiços. Apesar de ter muito som que precisa ser redescoberto, o jungle tem ficado cada vez mais afastado da originalidade. Entretanto, este EP do Seekersinternational, projeto de um produtor canadense preparado para o selo japonês Diskotopia, mostra que ainda é possível sugerir crossovers da música eletrônica como um todo a favor do jungle. O que isso significa? Que scratches, produções defasadas de dub e transições sonoras que parecem vir de uma transmissão interplanetária estão aí para suscitar uma nova abordagem no instigante Ragga Preservation Society. O álbum se desenrola como um set futurista – tanto que as duas músicas finais, “Side A” e “Side B”, de mais de 12 minutos cada, parecem vir de uma rádio totalmente dedicada ao jungle.

13. A Good Night in The Ghetto
Kamaiyah
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 23 de março de 2016
Os mais atentos da cena do rap por algum momento passaram pelo single “How Does It Feeling”, de uma jovem e talentosa rapper de 20 anos que seguia uma linha totalmente diferente de contemporâneas como Nicki Minaj e Azealia Banks. Kamaiyah possui o flow e o tato musical da galera dos anos 1990, mas uma perspicácia de geração Z: ela fala sobre curtir a vida transando (“Niggas”), da inveja das minas (“Out The Bottle”) e de gastar dinheiro à rodo (“Fuck It Up”, com YG). É disso que se trata o presente do rap, a transição geracional que poderia ser interpretada como nostálgica (perceba um crossover entre MC Lyte e Too $hort), se não fosse simplesmente reflexo dos lapsos temporais. Kamaiyah voltar assim para o epicentro do que o rap costumava versar é mais uma prova de que o mundo tá seguindo adiante dos excessos da trap music – sem deixar de recuar um pouco.

12. Blackstar
David Bowie
Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 8 de janeiro de 2016
Assim que Blackstar foi lançado, cravamos a nossa opinião. David Bowie ainda estava vivo, e fomos bem rígidos com a nossa avaliação. Provavelmente seja uma das críticas mais sinceras sobre o disco, que recebeu nota 6/10. Mas, por que ele veio parar nessa lista então? Porque o breve tempo, de alguns meses, deixou claro que a perspectiva do álbum é mais complexa e inovadora do que uma mera resenha imediatista poderia captar. Os arranjos da faixa-título, de “Lazarus” e a repaginada dada a “Sue (or in a Season of a Crime)” mostraram que o lado obscuro do jazz têm tudo a ver com o clima apocalíptico que o Camaleão quis trazer ao álbum derradeiro. Uma pena que ele se foi, mas foi a ciência da própria morte que o fez criar seu álbum mais intrigante em toda a carreira.

11. Redemption
Dawn Richard
Gravadora: Local Action Records/Our Dawn Entertainment
Data de Lançamento: 18 de novembro de 2016
Já ligaram futuro ao R&B em diversas ocasiões, mas ninguém foi tão ortodoxo nesse sentido do que Dawn Richard. Em seu 3º disco, a cantora de Nova Orleans traz um pouco do jazz de sua cidade (mesmo que brevemente, em “LA”, com solo de Trombone Shorty), mas se mostra mais fisgada mesmo é pela eletrônica à lá Warp Records e Aphex Twin. A primeira faixa, “Love Under the Lights”, é uma direção obscura nesse sentido, com reverbs em slow motion convergindo com efeitos cristalinos. “Black Crimes” e a faixa-título têm uma investida inerentemente pop, com produções superlativas que certamente devem ditar os próximos passos das superstars de R&B – enquanto “Hey Nikki”, mais psicodélica e viajandona, leva Dawn a um terreno inatingível de criatividade e estranheza.

10. Lemonade
Beyoncé
Gravadora: Parkwood Entertainment
Data de Lançamento: 23 de abril de 2016
Adquirir via site oficial
Lemonade dividiu opiniões: seria um clamor feminista ou um clamor individual diante de uma decepção amorosa? Na verdade, pouco importa o pano de fundo da vida pessoal de Beyoncé. O fato é que trata-se de um disco em que a dor da traição e da indiferença é dilacerada aos poucos: começa dolorosa em “Hold Up”, fica raivosa em “Don’t Hurt Yourself” e passa a se recuperar lentamente em “Sorry”. As reflexões sentimentais deixam a cantora em maior contato com seu interior: ela relembra os valores ensinados pelo pai em “Daddy Lessons” e ouve a voz de James Blake para seguir em frente, em “Forward”. Nas estonteantes “Freedom” e “Formation”, ela joga holofotes na história de combate do negro norte-americana, colocando-se como peça fundamental de um tabuleiro musical que envolve To Pimp a Butterfly, A Seat at The Table e Run The Jewels 2.

9. Skeleton Tree
Nick Cave & The Bad Seeds
Gravadora: Bad Seed Ltd
Data de Lançamento: 9 de setembro de 2016
É impossível ouvir o novo disco de Nick Cave e não se compadecer ou minimamente se emocionar com a sua dor. Ele perdeu o filho tragicamente no ano passado, e você sente o controle das lágrimas em suas canções melancólico-reflexivas. Em “Jesus Alone”, ele tenta estabelecer uma comunicação com o filho. Já em “Magneto” ele faz um autoexame: ‘Minha pequena e monstruosa memória me engoliram inteiramente’, canta. Mas, chega uma hora que não tem jeito. Nick Cave se entrega às lágrimas em “I Need You”, um lamento sincero da dor de um pai que não consegue se livrar da imagem da presença do garoto. Skeleton Tree é um álbum de dilaceramento. Testemunhar isso é muito difícil, chega a causar dor no ouvinte… É a dor canalizada em sua forma mais crua e difícil de compreender. Certas cicatrizes infelizmente não se apagam.

8. A Seat at The Table
Solange
Gravadora: Saint Records/Columbia
Data de Lançamento: 30 de setembro de 2016
Enquanto Beyoncé dividiu opiniões acerca do feminismo com Lemonade, sua irmã, Solange, foi mais assertiva. Não há ambiguidades em A Seat at The Table. Trata-se de um disco em que sensibilidade e consciência social caminham lado a lado, indissociáveis. A trajetória pessoal também entra na equação que a cantora faz sobre sua interpretação do mundo. Em “Cranes in The Sky”, ela exemplifica como suas escolhas do cotidiano estão entrelaçadas ao que ela enxerga no mundo. O soft-soul de “Don’t Touch My Hair” reforça isso, enquanto as belíssimas “F.U.B.U.” (com The-Dream e BJ The Chicago Kid) e “Junie” estão inseridos no contexto em que a misoginia e o preconceito racial são os ‘inimigos’ a serem combatidos pela cantora. Quem pensa que ela é fraca, engana-se. Trata-se de duas de suas canções mais funky, em que a influência da cantora passa a ser a influência do ouvinte.

7. MY WOMAN
Angel Olsen
Gravadora: Jagjaguwar
Data de Lançamento: 2 de setembro de 2016
Pense em Angelo Badalamenti e Julee Cruise elevado a um nível de catarse emocional como nenhum outro exemplo atual. O 3º disco de Angel Olsen é mais que um disco repleto de ótimas composições. Se ela estava associada a um tipo de folk alternativo, os rótulos foram desforrados: MY WOMAN, além de fazer um retrato mais despido do que ela entende por relacionamentos (familiares, amorosos), transcende o impacto emocional de suas composições. “Intern” tem synths oitentistas e já abre o disco mostrando que Olsen demarcou uma ruptura estética a ponto de dar nova abordagem ao que canta. O produtor Justin Raisen (Sky Ferreira, Charli XCX) ajudou Olsen a obter essa climatização paralisante, mas é a sua forma pausada, que transita facilmente entre o folk e o punk sem precisar rasgar a voz, que impressiona.

6. No Borders
Hugh Masekela
Gravadora: Semopa
Data de Lançamento: 28 de outubro de 2016
O trompetista sul-africano não lançava disco há cinco anos. Nesse ínterim, veio uma preocupação: por que ninguém liga pro que tá acontecendo de ruim no mundo? Conhecedor da múltipla linguagem do continente em que nasceu, ele levou a sério a propagação da mensagem de união. Essa mensagem, em No Borders, vai além da fala: dos ritmos de Gana, Togo, Congo e Nigéria há uma infinidade de expressões, muitas delas resumidas em canções como “Been Such a Long Time”, “Shango”, “KwaZulu” e “Makeba”, dedicada à parceira Miriam Makeba, falecida em 2008 e mundialmente conhecida após Masekela apresentá-la a Paul Simon, que se encantou pela voz dela e a levou para abrir alguns shows da turnê de Graceland, em 1986. Masekela teve importância crucial nesse cruzamento entre a música caucasiana com a africana. No Borders floresceu da urgência de estreitar essas relações novamente – algo crucial em tempos em que a intolerância se tornou a maior das barreiras da atualidade.

5. ANTI
Rihanna
Gravadora: Westbury Road Entertainment
Data de Lançamento: 28 de janeiro de 2016
“Consideration”, a faixa de Rihanna que abre ANTI, em parceria com SZA, foi considerada a 2ª melhor música de 2016 por motivos que transcendem a representatividade pop da cantora. A reflexão individual que ela suscita é reforçada pela batida ragga que a mantém. Pulsação é importante, e é justamente disso que ANTI se trata. Mesmo “Work”, o single em parceria com Drake mundialmente conhecido, se enquadra nisso: o próprio refrão não lembra batimentos cardíacos? “Kiss It Better” e “Needed Me” são o ápice dessas pulsações – e estou falando disso mesmo, ímpeto sexual. ANTI é um disco que pode acompanhar a transa, do começo ao fim. Foda-se o conceitual: “Desperado” e “Love in the Brain” são provas de que a entrega total é a melhor forma de aproveitar um beijo, uma carícia, um rolê ou a parceira (ou parceiro) na cama. ANTI é o divã que todos carecíamos em 2016. Ouça, relaxe, ligue pro parceiro, faça aquilo que quer fazer e seja feliz. Rihanna te ajuda a chegar lá.

4. Atrocity Exhibition
Danny Brown
Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 27 de setembro de 2016
Os discos de Danny Brown são pura letargia – letargia nas letras, nas batidas, nas ideias, na criatividade. A cada lançamento o rapper de Detroit se supera. Há muitos motivos para elencar Atrocity Exhibition como um dos melhores discos de rap dos últimos anos – equação que poderia até tirar “Really Doe”, combo que une Danny a outros gigantes como Kendrick Lamar, Ab-Soul e Earl Sweatshirt. “Downward Spiral” e “Rolling Stone” mostram que a influência também vem do rock, mas essa junção não é nada óbvia: as guitarras se destilam, a voz de Danny surge flutuante como pensamentos em órbita. O harsh-noise de “Ain’t It Funny” e a fuzarca de “Pneumonia” são provas de que a conexão dele vai de Trout Mask Replica (1969) a Death Grips. Fala-se tanto de inovação e da busca de autenticidade no rap nos dias de hoje… Kanye West, Tyler the Creator e Waka Flocka Flame podem tentar, mas estão longes de chegar perto de Danny Brown nesse quesito.

3. The Hope Six Demolition Project
PJ Harvey
Gravadora: Vagrant
Data de Lançamento: 15 de abril de 2016
PJ Harvey visitou as cidades de Washington, Cabul e Kosovo e testemunhou, além de territórios devastados, esperanças devastadas. Ela fez o que se esperaria de um correspondente de guerra – se jornais e revistas ainda se interessassem pela notícia a partir de um viés testemonial. Os fatos que ela traz à tona – terrenos sujos, chaves de escombros, crianças desanimadas – estão transpostos em canções elegíacas, da louvação em “River Anacostia” ao hino esperançoso de “The Community of Hope”. A narrativa de The Hope Six Demolition Project é algo que a cantora já havia experimentado nos anteriores White Chalk (2007) e Let England Shake (2011). O que muda é que este disco é ancorado nas observações em primeira pessoa. O impacto das imagens e pessoas com quem ela teve contato é algo que PJ Harvey prefere deixar em segundo plano. O que importa é chamar a atenção de comunidades, autoridades ou de simples ouvintes de rock. The Hope Six é um clamor de solidariedade, uma lupa necessária naquilo que insistimos em deixar invisíveis.

2. Black Terry Cat
Xenia Rubinos
Gravadora: Epitaph
Data de Lançamento: 3 de junho de 2016
Descendentes porto-riquenhos têm grande importância na cultura hip hop de Nova York, pois muitos imigrantes de lá moraram em locais improvisados do Brooklyn. No R&B, essa transição é mais tímida. Para todos os efeitos, Xenia Rubinos tá aí pra mostrar que nem sempre o piano é significado de melancolia no gênero – é que a melancolia também não é resposta pras dores sentimentais. Black Terry Cat surfa na onda do funk, cumbia e hip hop, num disco em que a mistura resulta em algo impressionante. Xenia traz Lauryn Hill e Erykah Badu pro lado latino da força, injetando energia, frescor e sensualidade de um modo diferente, propondo uma linguagem mais ‘americanizada’ como um todo (de uma América que inclui Cuba, Brasil, República Dominicana, México… Não somente EUA).
Em “Right?”, a incerteza de Xenia nos leva a um cometa em órbita. “Black Stars” é prova de que o cromatismo do piano pode favorecer um som mais experimental e original. As guitarras de “Mexican Chef” e “Just Like I” fornecem importantes pontos de transição para o baixo e para o mellotron, onde Xenia se põe à prova para soar, nestas canções, roqueira e soulwoman ao mesmo tempo. Versatilidade é pouco; é muita técnica pra pouco tempo de disco.

1. We Got It From Here… Thank You 4 Your Service
A Tribe Called Quest
Gravadora: Epic
Data de Lançamento: 11 de novembro de 2016
Vários gigantes da música negra norte-americana brilharam em 2016: de Beyoncé a Robert Glasper, discos desafiadores mostraram que eles se superaram, e ajudaram a expandir um combo de letras boas e musicalidade inovadora a um patamar raramente visto em nossos tempos.
Houveram, também, retornos grandiosos. Mas nenhum foi tão instigante, certeiro e surpreendente quanto o novo álbum do A Tribe Called Quest.
Com a morte de Phife Dawg em março deste ano, os fãs ja haviam desistido de um retorno à velha forma do grupo do Queens. Quis a sorte, destino (ou qualquer outra coisa mística, sei lá) que aquela bombástica apresentação no Jimmy Fallon os instigasse a se reunir novamente.
Q-Tip e Dawg fizeram as pazes, meio às escondidas, e se enfiaram em estúdio, conseguindo concluir as gravações da maioria das canções antes de a complicação com diabetes levar Dawg de vez.
A grande pena é que ele não pôde ver o resultado de tudo isso: um disco honroso, dinâmico e, mais importante, desprendido da fórmula jazz-hip hop que consagrou o grupo nos anos 1990.
Encontre uma faixa ruim em We Got It From Here…, e te darei um doce. Da viagem espacial de “The Space Program”, passando pelo protesto de “We The People”, a elegíaca “Solid Wall of Sound”, o clamor de “Dis Generation”, a simbiose com Andre 3000 em “Kids”, a brisa old School de “Black Spasmodic”… Um disco derradeiro pra entrar na história.
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