Todo ano é proveitoso para a música quando não se fica preso ao pastiche repetitivo da cultura pop.
Mas este ano foi difícil ficar incólume às discussões mais acaloradas: da recusa de Taylor Swift aos serviços de streaming à dancinha horrenda de Drake, passando pelas extravagâncias de Miley Cyrus, o novo disco do Justin Bieber e todas as especulações sobre o retorno de Adele, paramos, fixamos. Mas, olhamos pelo outro lado.
Um lado não tão distante assim, tendo em vista que o 1º lugar desta lista, por exemplo, não é bem uma novidade. Mas buscamos atentar aos novos movimentos e cenas que refutam a ideia fácil de aceitar de que não se faz mais música criativa. Ou inovadora. Ou legitimamente, como muitos gostam de dizer (inclusive o Na Mira), experimental.
Talento é uma característica, para nós, que vem depois da ousadia e da vontade de contribuir com uma obra nova, relevante e que realmente valha a pena ser ouvida. Poderia um disco só com ruídos e barulho de ventiladores ser melhor que 25? Dependendo da abordagem, por que não?
O Na Mira é afeito ao meio-termo de tudo isso. Porque a técnica não representa muita coisa quando falta uma espiritualidade que até agnósticos e ateus compreendem quando se fala em música. É o ethos. Ou, como diria o teórico Walter Benjamin, a aura.
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Sem muitas delongas, apresentamos, com algumas concessões e outras surpresas – que esperamos que vocês pesquisem – os 30 melhores discos internacionais de 2015:

30. Into the Deep
Galactic
Gravadora: Mascot Music
Data de Lançamento: 17 de julho de 2015
A energia do funk de Nova Orleans está longe, muito longe de morrer. Mesmo em tempos onde se celebram mais as experimentações que o groove do gênero, o Galactic tem se destacado por sua criatividade que anda pau a pau com o vigor de metais e guitarras. Os líderes Robert Mercurio (baixo) e Ben Ellman (sax) dão o peso de uma big band ao funk corporificado. E eles vieram com ótimas participações neste 11º disco, que celebra 20 anos de grupo: na faixa-título, contam com a voz de Macy Gray; o blues meio gospel de “Does It Really Make a Difference” é cantado pela lendária Mavis Staples, ainda que de forma mais branda.
Ouça: “Sugar Doosie”

29. Algo Sucede
Julieta Venegas
Gravadora: Ohanian/Sony
Data de Lançamento: 14 de agosto de 2015
Da ranchera ao indie, a mexicana Julieta Venegas não vê barreiras musicais em seu sétimo disco. Ela se inspirou em seu cotidiano e na sua vida – “Se Explicará”, por exemplo, é dedicada à filha, que está na fase de “perguntar sobre tudo”, aos 5 anos. No clipe de “Ese Camino”, Julieta parece abrir as portas de sua própria casa, com muitas plantações e lembranças nostálgicas de infância.
Ouça: “Ese Camino”

28. Time? Astonishing!
L’Orange & Kool Keith
Gravadora: Mello Music
Data de Lançamento: 24 de julho de 2015
Tramas espaciais e batidas avant-garde. O rapper Kool Keith sempre soube se virar com batidas descomunais, mas ao lado de L’Orange inevitavelmente ficou no ar: uma nova barreira foi quebrada. Time? Astonishing! é diferente de qualquer outro disco de rap porque faz do cósmico-espacial uma referência bem distante de George Clinton ou Digable Planets. Os entrecortes são mais abruptos e as rimas são afiadas como lâmina – vide “The Green Ray”.
Ouça: “The Green Ray”

27. Via Tania and the Tomorrow Music Orchestra
Via Tania
Gravadora: Narooma
Data de Lançamento: 24 de fevereiro de 2015
Imagine Cat Power com uma orquestra de flautas e violinos à disposição. Via Tania não tem proximidade com a música indie – é mais chamber-music, muito bem estruturada. É pacífica, apesar dos momentos de fricção de cordas. Via Tania and the Tomorrow Music Orchestra deu um trabalhão pra ser concretizado. As sessões foram registradas em 2010, em Chicago, para depois ganharem os arranjos da orquestra de Matthew Golombisky. Depois que Via Tania mudou-se para Austrália – e Golombisky para a Argentina – tudo permaneceu engavetado, até que ela pegou o material para mixagem, no ano passado, e deu o trato final a esta bela obra. Etéreo e relaxante, o disco revela arranjos complexos que flertam com o jazz europeu, a música de câmara e as baladas pop.
Ouça: “I See You Tiger”

26. St. Germain
St. Germain
Gravadora: Nonesuch
Data de Lançamento: 9 de outubro de 2015
O nu-jazz foi um gênero efêmero. Cansado de ouvir falar nele, Ludovic Navarre, o cara por trás do St. Germain, decidiu ficar recluso após lançar o bem-sucedido Tourist (2000). Depois de turnês ao lado de Herbie Hancock e longa pesquisa musical em comunidades malinesas e música tradicional do Gana, ele retornou com um disco homônimo que reúne participações de Fanta Bangayogo (“Voilà”), o guitarrista Guimba Kouyate, entre alguns outros, fazendo com que o jazz e o deep-funk entrem na onda do blues africano. No álbum, St. Germain também incluiu o single “Real Blues”, com sampler do lendário Lightning Hopkins, mostrado pela primeira vez em 2002. Não pense que ficou desencaixado: isso só mostra como o blues pode ser reprocessado e reinterpretado, não importa o lugar de inspiração.
Ouça: “Real Blues”

25. Blade of the Ronin
Cannibal Ox
Gravadora: IGC
Data de Lançamento: 3 de março de 2015
Vast Aire e Vordul Mega são dois dos nomes mais cultuados do rap alternativo por conta de um disco do Cannibal Ox: The Cold Vein (2001). Quem produziu foi El-P, mas uma briga por controle da obra separou o coletivo do atual membro do Run The Jewels, e desde então um disco sucessor foi prometido. Chegou só agora. Bill Cosmiq assume a função, comprometido com a veia obscuro-flamejante que dinamiza as rimas da dupla. O rap do Cannibal Ox tem herança no Wu-Tang Clan, mas em 2014 soa como cartilha para o cloud-rap, um meio-termo entre Insane Clown Posse e SpaceGhostPurrp, com admirável experiência. Se duvida da força do rap alternativo na atualidade, precisa ouvir “Iron Rose” (com o cultuado MF Doom) e a crueza de “Carnivorous”, ao lado de Elzhi.
Ouça: “Iron Rose”

24. Nozinja Lodge
Nozinja
Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 1º de junho de 2015
Diretamente da África do Sul, Nozinja apresenta ao mundo o shangaan, uma mistureba eletrônica da tsonga e do kwaito com elementos da house-music e do funk cósmico. Naturalmente, o som é futurista, mas por vezes também soa aloprado. Dialetos e repetições histriônicas de som podem soar estranhas, mas não abandonam as raízes dançantes imensamente atreladas à música do continente. Essa música foi comercializada pelas rádios, até que agradou músicos como Caribou e, logo, despertou interesse da Warp, a gravadora que melhor abraça a eletrônica criativa feita nestes últimos anos. Da transfiguração de tradições em “Xihukwani” à ritualística “Vamaseve Vatswelani”, em que backings femininos cantam na mesma agilidade de batidas pré-programadas (parecida com o forró, até), Nozinja Lodge é, sem sombra de dúvidas, um disco de música eletrônica como nenhum outro.
Ouça: “Tsekeleke”

23. Poison Season
Destroyer
Gravadora: Merge/Dead Oceans
Data de Lançamento: 28 de agosto de 2015
Se Kaputt (2011) foi o disco que deu ao Destroyer o status de um dos melhores atos indies da atualidade, Poison Season vem para mostrar que as intersecções musicais podem ser mais bem amarradas do que se imaginava. “Dream Lover” termina como um jazz arrebatador, enquanto a seguinte, “Forces From Above”, com seus violinos em atrito, é herdada da música europeia – com traços da influência africana, como evidenciam as percussões. Música caribenha e ibérica também são inspiradoras para as composições ora naturalistas (“The River”), ora destruidoras (“Midnight Meet the Rain”). Tudo isso é prova de que Daniel Bejar tem expandido com inteligência seus horizontes e à forma de se chegar a uma poesia árida, mas ainda assim sensível.
Ouça: “Girl in a Sling”

22. Transfixiation
A Place to Bury Strangers
Gravadora: Dead Oceans
Data de Lançamento: 17 de fevereiro de 2015
Barulho. Barulho? Não, barulho x barulho. Enfim, já entendeu né? A Place to Bury Strangers não recuou na distorção e lançou um disco que pode ser tido como meio-termo entre o noise-rock e o pós-punk. Começa como toda banda que reprocessou bem The Jesus & Mary Chain, em “Supermaster”. A partir de “Straight” e “Love Right” a banda entra numa válvula noisy arrebatadora, inserindo o shoegaze como elemento fundamental (ouça também as excelentes “I’m So Clean” e “I Will Die”). Anos 1980 e 90 são fortemente canalizados no 4º disco da banda de Nova York, mas a brevidade, o flamejar e as composições curtas e dinâmicas mostram que A Place to Bury Strangers musica o caos atual com mais proficiência que a maioria das bandas que assumem (ou querem assumir) o título noise no que fazem.
Ouça: “Straight”

21. Holding Hands With Jamie
Girl Band
Gravadora: Rough Trade
Data de Lançamento: 25 de setembro de 2015
Não é uma banda de garotas, primeiramente. São um quarteto de rapazes de Dublin (Irlanda) com uma fome de A Place to Bury Strangers e tão estruturalmente voláteis quanto Parquet Courts. Este é o primeiro disco cheio do Girl Band. A sonoridade por vezes opaca dá a impressão de ser mal produzido – e é justamente por isso que funciona tão bem. Apesar do ar esquizofrênico, as pausas sônicas são respeitadas – como se pode observar em “Baloo”, que pode deixar o ouvinte atônito para o que vem por aí. Quem gosta de The Pop Group e The Fall vai se maravilhar com que o vocalista Dara Kiely é capaz de fazer com guitarras afastadas e baterias monocromáticas. De tão cru, parece um álbum de demos. A potência, no entanto, parece cronometrada. A forma com que o Girl Band lida com isso é que soa interessante.
Ouça: “Pears For Lunch”
