Começando com as escusas: muita coisa legal aconteceu na música brasileira em 2016, mas infelizmente não ficamos tão atentos a tudo que rolou na cena. Em vez de 30 discos, como fizemos com a lista dos gringos, vamos ficar nos 20 mesmo, porque resume de forma mais concisa e verossímil o que o Na Mira acompanhou no desenrolar do ano.
**
A cantora Céu foi uma das melhores coisas que aconteceu na música brasileira nos últimos anos. Antenada às climatizações sonoras e com admirável percepção sentimental do que acontece ao seu redor, ela permanece relevante.
Todo ano que tem disco de Céu, lá está ela no topo, ou pelo menos no top 5 das listas de melhores. Mas, a questão é: por que ela sempre está lá? Minha sensação é que falta um olhar apurado dos atentos à música brasileira.
O apuro musical de Céu em Tropix, em nossa avaliação, não é tão importante quanto à cena queer nacional, com Liniker na ponta de frente, ou comparável à avalanche de grandes nomes que o rap tem nos apresentado, caso de BK, Síntese e muitos outros.
Sabemos que teve discos de Tom Zé, Carne Doce, Dexter… Eles não aparecem nesta lista, mas não porque foram esquecidos. É porque, mais uma vez, nosso compilado quis relembrar o que consideramos mais relevantes.
Ah, avisamos de antemão: curtimos pacas o novo disco solo do Mano Brown. Na lista dos melhores álbuns nacionais do ano, que você confere aí embaixo, explicamos o porquê (embora ele não seja o 1º da lista).
Primeiro, a playlist:
Confira também:
• Os 30 melhores discos de jazz de 2016
• Os 30 melhores álbuns internacionais de 2016
• As 30 melhores músicas nacionais de 2016
• As 30 melhores músicas internacionais de 2016
Confira a lista completa dos 20 melhores álbuns nacionais de 2016:

20. Incerteza
Retalho
Gravadora: NAS
Data de Lançamento: 15 de setembro de 2016
Encontre via BandCamp
Investidas da música brasileira em que o acid-jazz esteja na linha de frente. Isso é porque Incerteza, primeiro disco do duo Retalho, é muito bem conduzido pelas pratadas de bateria, trazendo o escopo do samba, do indie-rock e das músicas de tradição africana e conectando-os a elementos da música lo-fi. Formado na cidade de Americana (SP), o Retalho trafega por transições, ora mostrando como uma forma de abordagem, ora reprocessando os elementos como forma de endossar os múltiplos aspectos intrínsecos à música brasileira como um todo. Faixas como “Metrópole” e “Tudo que Caber” são instrumentais viajandões, mas típicos de uma essência que só poderia vir de nossos trópicos. Não é uma associação óbvia; é bem subjetiva, muitas vezes melancólica, mas totalmente brazuca.

19. Coisas do Meu Imaginário
Rael
Gravadora: Laboratório Fantasma
Data de Lançamento: 10 de novembro de 2016
Rael versa sobre preocupações políticas, utopias de um mundo melhor e cita frases dos Racionais com uma serenidade própria de um cara tranquilão, atento ao que acontece ao seu redor, mas na maioria das vezes com uma vibe positivista. Coisas do Meu Imaginário endossam esse perfil, só que de maneira mais sofisticada que os trabalhos anteriores pós-Pentágono, grupo do qual fazia parte. “Estrada” alterna corais vocais e efeitos esvoaçantes, enquanto a reflexiva “Aurora Boreal” pode muito bem ser despida numa experiência acústica. As participações dos parceiros Apolo e Masao, do Pentágono, em “Minha Lei”, são bem-vindas, mas quem toma a canção de assalto é o rapper Ogi, com suas elucubrações que vêm de um repertório permeado de mortes e aventuras em HQ. Black Alien também chega pra somar, em “Papo Reto”, num dos pontos de conexão entre os rappers: a influência do ragga (com ajuda de Daniel Yorubá). Pra finalizar, Chico César ajuda Rael a buscar o agradecimento pelas suas conquistas, em “Quem Tem Fé”.

18. Gehenna
Labirinto
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 7 de setembro de 2016
Quando lançou o split com o grupo canadense de post-rock Thisquietarmy, o Labirinto ganhou projeção internacional com sua trilha apocalíptica. É um som mais soturno e apegado aos riffs de guitarra que de contemporâneos como Herod e E a Terra Nunca Me Pareceu Distante. Em “Qumran”, a urgência dos riffs em contraste com notícias televisivas da época da ditadura dão o tom da violência. “Avernus” tem uma pegada meio Godspeed You! Black Emperor, com variações na melodia que parecem encapsular bons momentos de uma vida inteira. Apesar do som pesado e da forte carga de guitarras/bateria, o Labirinto segue fazendo aquela trilha que se encaixa na nossa vida, mas que raramente percebemos.

17. Sabotage
Sabotage
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 16 de outubro de 2016
Os fãs do rapper do Canão, favela de São Paulo, ansiavam pelo que reservava o acervo de Sabotage. Dezesseis anos após o antológico Rap é Compromissorefr (2000), diversos músicos e produtores, sob tutela de Daniel Ganjaman e Tejo Damasceno, ajudaram a fazer com que a vívida memória do rapper fosse recompensada com um álbum à altura. Petardos como “Mosquito” e “Canão Foi Tão Bom” ganharam matizes modernizadas, com elementos da bass music e do trap, cada vez mais incorporadas ao rap nacional. O resultado é saudoso e extremamente positivo, mas vale ressaltar que o material utilizado não era de canções concluídas com o aval de Sabotage. Convincente, mas não verossímil, o fato é que Sabotage rememora a forte carga enérgica e emocional característicos do compositor – algo levado ao extremo em “País da Fome: Homens Animais”.

16. Remonta
Liniker e os Caramelows
Gravadora: Pomm_elo
Data de Lançamento: 16 de setembro de 2016
O cantor de Araraquara (SP) tornou-se uma das linhas frentes da música queer brasileira porque tem swing, carisma e, principalmente, habilidade de fazer com que o ouvinte se emocione com suas músicas românticas, funkeadas e voltada para as pistas. Liniker encapsula Tim Maia, afoxé, Banda Black Rio e diversas outras cenas cariocas e paulistanas. Ele fala de relacionamentos na maioria do tempo, mas de forma desencanada – como em “BoxOkê”, com a rapper Tássia Reis, e de um jeito soul, em “Caeu”. Remonta é prova de que Liniker é muito mais do que por a cara pra bater em um país tão homofóbico quanto o Brasil. O agito funk de “Prendedor de Varal” (com Xênia França, do Aláfia), a chacona de “Sem Nome, Mas com Endereço” e o som modernizado à lá Céu, em “Você Fez Merda”, são mais que convincentes de que o tato musical de Liniker é bem apurado. E ele sabe muito bem como controlar essa vontade testosterônica de reprocessar suas influências musicais.

15. Vestuário
Isadora Melo
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 20 de outubro de 2016
Percussão marca a vida de uma música. Ela dita o pulso, controla os tempos musicais e ajuda a entender o contexto de uma canção. Especificamente na música brasileira, é raro a percussão (ou bateria) não estar presente. O disco de estreia da pernambucana Isadora Melo, porém, deixou claro que vivacidade não precisa ser entoada dessa maneira. No lugar de bateria, bangôs e maracas, o baixo de Walter Areia e o acordeom de Julio Cesar enaltecem o misticismo de canções intimamente espirituosas. Exemplos de como essa abordagem estética deu certo não faltam em Vestuário. Em “O De Mais Valia”, a pontuação instrumental é mínima, e vai acompanhando o clímax conduzido pelo canto de Isadora. A mistura de baião com música ibérica, de português com espanhol, faz de “Pequena” uma canção tipicamente sul-americana. De fato, Vestuário é uma linda experiência acústica e, ao mesmo tempo, uma quebra de paradigmas. Há outras formas de pulsação musical, e a vasta expressão da música brasileira tem mais respostas pra isso do que imaginávamos.

14. MM3
Metá Metá
Gravadora: Laboratório Fantasma
Data de Lançamento: 25 de maio de 2016
Enquanto o primeiro disco era mais sereno e o segundo mais agressivo, marcando uma ruptura que deu ao Metá Metá grande projeção, MM3 pode ser considerado um álbum mais pop, talvez porque o público dispõe de maior familiaridade com a forte retomada da música de raiz afrobrasileira, com exemplos que vão de Criolo a Russo Passapusso. Juçara Marçal continua cantando como se fosse a guardiã que nos liga ao passado riquíssimo de Clementina de Jesus e Miriam Makeba, enquanto a banda conecta as abstrações de seu canto a tempos, sentimentos e ilusões que nos fazem refletir sobre a nossa vida e sobre o nosso contexto dentro dessa imensidão geográfica e cultural que vivemos. Poucos grupos conseguem fazer o indivíduo pensar sobre si mesmo e sobre o seu valor cultural como o Metá Metá. A cada álbum, essa técnica é elegantemente aprimorada.

13. No Voo do Urubu
Arthur Verocai
Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 7 de dezembro de 2016
Adquirir via Selo Sesc
Trata-se de arranjos. Arranjos divinos, como os teclados flutuantes de “Oh Juliana”, com participação de Danilo Caymmi. Podem ser orquestradamente organizados, querendo voar como pássaro em direção à liberdade da música popular brasileira, como em “Snake Eyes”. Arthur Verocai é inspirador e complexo, urbanismo e natureza. Em seu novo disco, No Voo do Urubu, ele fez questão de compartilhar toda essa riqueza musical com convidados bem conhecidos da nossa música. Na faixa-título, Seu Jorge surge límpido numa entrada que nos faz lembrar como seria se ele fosse a grande atração de um teatro municipal. Os metais vão de encontro ao Romantismo de Mano Brown, em “Cigana”, enquanto a seguinte, “O Tambor”, é mais despojada, convidando o ouvinte à dança, com a voz envolvente de Criolo. Dono da incrível técnica de extrair beleza de tudo quanto é canto, Verocai é prova de que o interesse nacional nos arranjos pode ter aumentado, mas poucos se igualam ao que ele nos oferece.

12. Castelos & Ruínas
BK
Gravadora: Pirâmide Perdida
Data de Lançamento: 21 de março de 2016
Castelos & Ruínas. Sonhos e desilusões. Um rei e um zé. Os opostos são colocados lado a lado, como forma de mostrar que entre o bom e ruim a linha é bastante tênue. O primeiro disco solo de B.K. é uma jornada solitária – e vemos como o momento em que dosamos as coisas, para um julgamento individual, é parte da essência de Castelos & Ruínas. Em “Quadros”, ele diz: ‘Éramos a cinza agora somos o fogo/E não há nada que possamos fazer’. Até mesmo as divindades têm sua opinião sobre o rapper: ‘Eu sou querido no céu/Eu sou amado no inferno’, é o polêmico início de “Caminhos”. Mas é na faixa-título que os encaixes da vida transcendem as contrariedades entre ‘certo’ e ‘errado’. As questões vêm à cabeça quando damos um rolê, esvaziamos a mente, paramos pra pensar na vida: ‘Quero saber o que a vida tem pra oferecer’, canta B.K. Contradições fazem parte do pacote de oferecimento.

11. A Coragem da Luz
Rashid
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 18 de março de 2016
O primeiro álbum de Rashid não foge do que ele já versava em suas mixtapes. A mudança está na abordagem: ele se volta às raízes do samba e da MPB, além de adequar o discurso a padrões melódicos numa linha que lembra Rael (“DNA”) e até uma marcha fúnebre (na jazzística “A Cena”, com participação de Izzy Gordon). As convergências rítmicas casam muito bem com as rimas desconcertantes e agudas de Rashid – como na fugacidade dos pianos em “Como Estamos?”, terminando com solo estonteante no clarinete. Das participações, Rashid também reúne Alexandre Carlos, do Natiruts (em “Depois da Tempestade”) e Mano Brown com Max de Castro (“Ruaterapia”, com um refrão sqaoul). É difícil seguir tantas direções que servem de influência para o rap. Rashid não apenas conseguiu, como multiplicou as possibilidades direcionais de sua obra, seja com discurso afiado ou reflexivo.
Publicidade

10. Rimming Compilation: Liquid Sky
Cadu Tenório
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 16 de setembro de 2016
A repetição na música de Cadu Tenório tem incluído elementos cada vez mais estranhos. Processamento de tapes, spoken-words que parecem aleatórios e climas obscuros se convergem desde que Tenório passou a assinar produções solo. Rimming Compilation transcende a obra do beatmaker carioca a algo mais palatável: há um pouco de Grimes (principalmente pelas referências orientais de Art Angels) e Oneohtrix Point Never, embora permaneça a sensação perene de que estamos penetrando com virulência uma esfera totalmente diferente de nossas referências musicais e experienciais. Há gritos de dor (“Nozsa War”), assim como há respiros que alternam entre o ululante e o aliviado (“Enter the Void”). O espaço preenchido por Rimming Compilation é mais complexo que qualquer outra aventura de Tenório: às vezes ele se confunde com a eletrônica das pistas, ou dá ares de um dark-ambient híbrido, às vezes medonho, às vezes síndrome de nosso cotidiano corrido.

9. Boogie Naipe
Mano Brown
Gravadora: Boogie Naipe
Data de Lançamento: 9 de dezembro de 2016
‘Fiz um groove pra você entender, heeeei‘. Quem explica, no refrão da música “Gangsta Boogie”, é Lino Krizz, parceiro fundamental de Mano Brown em sua primeira empreitada solo. Levou muitos anos para o frontman dos Racionais passar do rap agressivo pro cantor romântico, e Boogie Naipe mostra que esse período transitório pode ser um pouco mais longo. Uma coisa fica evidente: Brown se pôs à prova ao instigar passinhos em “Foi num Baile Black” e “Dance, Dance, Dance” (esta com refrão pegajoso de Seu Jorge). A produção de Leon Ware foi determinante para que o lado romântico de Brown adquirisse elegância e originalidade. Em “Felizes/Heart 2 Heart”, ele chega ao auge do que se esperaria de um soulman em início de carreira, encontrando conforto ali entre Sly Stone e Cassiano.

8. Levaguiã Terê
Vitor Araújo
Gravadora: Natura Musical
Data de Lançamento: 22 de setembro de 2016
Levaguiã Terê é nome de pássaro cultuado pelo folclore indígena. Ao que dá a entender o novo disco do pianista pernambucano Vitor Araújo, esse folclore é misterioso, com um contato bem perene à natureza e de uma expressão intensa. A inspiração veio de Heitor Villa-Lobos, e o que temos é uma obra de arranjos monumentais, que mistura sons indígenas, africanos e europeus com o olhar de quem simula uma experiência vívida em tribos pouco conhecidas. Muitos dos ensinamentos de Levaguiã Terê, álbum duplo com 14 temas, vieram do maestro Mario Ficarelli, com quem ele estudou composição e contraponto. O disco nos faz repensar sobre nossas origens, num tom romântico-contemporâneo – romântico pelo enaltecimento do índio, e contemporâneo por conta do uso de equipamentos modernos em sua concepção, como guitarras e synths.

7. Trilha para o Desencanto da Ilusão, Vol. 1: Amém
Síntese
Gravadora: Matrero
Data de Lançamento: 24 de novembro de 2016
Um disco fora das obviedades. “Desconstrução” e “Meu Caminho” parecem composições cubistas, com rimas angulares num formato que pega o ouvinte pela esquina. Contrabaixos ululantes e violinos de sonoridade reluzentes são meros adornos de um impacto já causado pela narrativa do Síntese. Realmente trata-se de um rap fustigante, que não tem medo de versar sobre contradições e anseios pessoais. Diretamente de São José dos Campos, o Síntese é a materialização da fuga do óbvio. É preciso dezenas de audições para compreender sua linha neural. A pulsação não reflete o que alguns julgariam óbvio demais, e isso ajuda a compreender a complexidade do Síntese, mesmo em canções tão curtas, como “Gotas de Veneno” e “Gira Mundo”.

6. Banzeiro
Dona Onete
Gravadora: Natura Musical/Tratore
Data de Lançamento: 13 de junho de 2016
O carimbó de Dona Onete, 77 anos, permanece sendo uma das melhores portas de entradas para se interessar – e deixar-se levar – pela música paraense. A riqueza da música da cantora extrapola tudo aquilo que julgamos conhecer da música nortista. Em “Coração Brechó”, vemos traços do bolero, enquanto “Queimoso e Tremoso” é uma salsa à brasileira. O bom humor instiga algumas das músicas mais dançantes que Onete gravou até então, como é o caso de “Tipiti” (nome de um espremedor de palha usado por ribeirinhos amazonenses) e “No Meio do Pitiú” (referência ao fedor do peixe com o cheiro de maresia). Metais e guitarras dão um rico tom de organicidade a Banzeiro, mostrando que o Pará está muito além do technobrega.

5. Arco
Iara Rennó
Gravadora: YB/Circus
Data de Lançamento: 20 de maio de 2016
Libertação e empoderamento feminino. Esses dois termos foram bastante pesquisados no Google este ano, e o fato de um dos dois discos de Iara Rennó lançados este ano tratar justamente disso põe mais argumentos em discussão. Ela conta com Mariá Portugal (bateria/MPC) e Maria Beraldo Bastos (clarone) numa sonoridade meio jazzística, meio vanguarda paulistana, repleto de eletricidade e ousadia. “Mama-me” e “Sonâmbula” usam termos simbológicos para falar sobre liberdade feminina como um todo. “Corpo Selvagem” faz menção ao fato de como a roupa e o corpo da mulher se confundem, criando uma subjetividade que confunde o outro. Noutras palavras: por que nossas atitudes são tão influenciadas pelo corpo masculino e feminino? Algumas dessas respostas podem ser encontradas em Arco (enquanto Flecha mira no masculino).

4. Imorrível
Di Melo
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 13 de abril de 2016
Muitas histórias obscuras já foram contadas no ínterim que separa o antológico disco homônimo de Di Melo, de 1975, com o seu retorno, há alguns anos. Por onde andava aquele soulman pernambucano cosmopolita? Ele brinca com todo esse mistério na faixa-título; quando entra o solo do sax, percebemos que o clima é de total celebração. Mais de quatro décadas depois, muita coisa mudou; menos a voz, as preocupações e a qualidade da música de Di Melo. Do começo ao fim, Imorrível atualiza o soul-funk do compositor. Há mais espaço para guitarras e metais: em “Barulho de Fafá” e na excelente “Dioturno” (com BNegão), você sente a energia pulsar nas veias. “Milagre” tem um ar místico, radicalizado pela sonoridade teatral de Larissa Luz. Já em “Salve a Bandeira”, ele faz uma ode a um Brasil utópico e inexistente, nos moldes de Gilberto Gil.

3. Golpe de Vista
Douglas Germano
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 12 de setembro de 2016
O compositor paulista Douglas Germano já teve várias de suas canções gravadas por nomes consagrados, como Metá Metá e Elza Soares. Algumas delas ganharam uma versão repaginada em seu segundo disco. “Maria da Vila Matilde” recebeu um tratamento mais sambista, onde Germano se põe como narrador (enquanto Elza, que consagrou a versão em A Mulher do Fim do Mundo, a fez em primeira pessoa). “Canção para Ninar Oxum”, gravado em Encarnado (2014), é entoada sob acordes cuja herança remete a Dorival Caymmi e Gilberto Gil. O tratamento que Germano dá ao samba é agudamente moderno, mas em Golpe de Vista ele optou por dedicar mais crueza às canções. A faixa-título, por exemplo, tem aquela sonoridade típica de samba de vela. “ISO 9000” é meio Paulo Vanzolini, meio Caymmi, enquanto “You S/A”, uma das melhores do disco, prova que a complexidade do gênero só aumenta com o passar dos anos. De Candeia a Adoniran, de Batatinha à Velha Guarda da Portela, um pouco de cada um reside no talento de Douglas Germano.

2. III
RAKTA
Gravadora: Iron Lung
Data de Lançamento: 8 de julho de 2016
Segundo disco do grupo paulista, III faz menção ao fato do RAKTA ser um trio, formado por Carla Boregas (baixo), Paula Rebellato (teclados) e Nathalia Viccari (bateria). A musicalidade tem um pouco de shoegaze, rock espacial sessentista, meio ? and the Mysterians, com kraut-rock e Siouxsie and the Banshees. Em apenas 6 canções, III pega o ouvinte pela energia, aproveitando o som atmosférico dos drones e intercalando-os com guitarras e efeitos viajandões de teclados, temperados por vocais distanciados.
Em “Filhas do Fogo”, parece que estamos diante de bruxas em um plano distanciado de uma imagem chamuscante. “Violência do Silêncio” sonoriza os tristes dados que fazem com que o Brasil seja um dos piores países para ser mulher. Os termos subjetivos pontuados pelo RAKTA têm como pano de fundo um horror que a sociedade prefere manter em silêncio, em vez de enfrentá-lo. As emoções e a revolta são catalisadas pela sonoridade progressiva e, ao mesmo tempo, apocalíptica. Se III não é retrato do Brasil de agora, talvez realmente não saibamos o que está acontecendo à nossa volta.

1. Duas Cidades
BaianaSystem
Gravadora: BS
Data de Lançamento: 8 de abril de 2016
No Brasil, temos a sorte de ter grandes grupos musicais que, além de serem vistos como líderes de uma cena instigante, inovadora e contestadora, concentram um público crescente. Na linha do tempo que projetou o auge de Planet Hemp, O Rappa e Nação Zumbi, não é a história se repetindo como farsa; são tempos e momentos específicos sustentando uma alteridade típica do processo cultural.
Em pleno 2016, não há nenhum outro grupo com hipertrofia musical e discursiva como o BaianaSystem para seguir este curso na cena brasileira. Estamos na era do bass, de uma música tipicamente globalizada. Funk carioca e o soundsystem jamaicano são dois dos maiores exemplos da internacionalização da música latina.
Duas Cidades se comunica com o mundo reprocessado – e dominando bem todas essas linguagens, com especial atenção voltada ao dub e ao bass. E tem muito mais: “Bala na Agulha” dá uma aura pop à embolada; “Lucro: Descomprimindo” parece um misto de axé com percussão do maracatu, enquanto “Calamatraca” nos remete ao rap de Angola com elementos do nosso forró.
Na música do BaianaSystem, o híbrido se torna envolvente. Música brasileira se trata de união das músicas, do diálogo de diversas frentes musicais trocando experiências. É disso que se trata Duas Cidades.
Publicidade
Errata
• Dona Onete é do Pará, portanto, ela faz música nortista, e não nordestina, como estava anteriormente.
