Por conta de uma dedicação mais intensa aos lançamentos de jazz o Na Mira decidiu que, sim, deveria dedicar uma lista exclusiva de melhores do gênero.

Num giro pelas seleções de grandes discos de 2015 é fácil se deparar com The Epic, do saxofonista Kamasi Washington, tanto por sua conexão com To Pimp a Butterfly, como por sua exuberância e excentricidade que o tornam caracteristicamente ‘experimental’, tag cada vez mais perseguida por quem busca compreender a complexidade da música no século XXI.

Quem dedicou mais de 2h à audição de The Epic dificilmente saiu incólume. Ele representa o opus criativo de um instrumentista potencialmente criativo. Mas não foi a melhor coisa que o jazz nos ofereceu em 2015 – e isso, você pode comprovar nesta lista.

Dos novos parâmetros quebrados com trio piano/baixo/bateria ao híbrido compromisso de revisitar a ancestralidade de um passado de lutas por vias espirituais. Da assimilação de outros ritmos populares às grandes orquestras. Do virtuosismo técnico ao virtuosismo de composição e arranjos. Dos novos timbres de guitarra à nova fluidez vocal.

Enfim, o jazz segue firme e forte, mais heterogêneo do que nunca.

Para acompanhar a seleção, eis uma playlist especial, com uma faixa de cada disco mencionado aqui. Ouça:

Groovin’ Cast Especial: O Melhor do Jazz em 2015 by Na Mira Do Groove on Mixcloud

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Confira a seleção dos 16 melhores álbuns de jazz de 2015:

16. Organic Riot

Wild Card

Gravadora: Top End Records
Data de Lançamento: 9 de fevereiro de 2015

O Wild Card é basicamente formado por um trio: Clément Régert (guitarra), Andrew Noble (órgão) e Sophie Alloway (bateria). De Londres, eles dizem fazer um estilo nu-jazz, mas, em Organic Riot, parecem mais ter feito uma mixtape de hip hop. Eles convidaram diversos artistas. Nathalie Williams faz um cover correto de “Feeling Good”, de Nina Simone, e cai na ginga funk em “Wash Him Out”. As entradas do trombonista Jerome Harper e do trompetista Graeme Flowers formam uma poderosa sessão de metais tanto em “Wild Card Theme”, como na mencionada “Wash Him Out”. O protagonismo do órgão em “Shake It Up!” e a levada funk-R&B de “Tchouks”, com vocais de B’loon, fortalecem a climatização soul do disco. Não que devamos chamar Organic Riot de soul-jazz, mas não pega nada mal incluir o termo ‘colaborativo’ aí no meio.

Ouça: “Wash Him Out”

15. Incoming!

Riot Jazz Brass Band

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 23 de outubro de 2015

O equivalente londrino do Hypnotic Brass Ensemble (de Chicago, EUA) também traz o hip hop e o groove do funk ao seu jazz corpóreo. Incoming! é o segundo disco do Riot Jazz Brass Band, que soma a música do bálcãs em sonoridades que exploram os growls de trompetes numa excelente trinca formada por Lucian Amos, Nick Walters e Sam Warner (vide “Sheezy Sheeps”). “Jump Jive” e “Life of a Mouthpiece” são claros exemplos de que o funk e o rap entram seletivamente no rol de influências – tanto que o ativo MC Chunky está lá para garantir a linha vocal (em “Checkmate”, uma aventura pelo drum’n bass, ele é acompanhado pelo rapper Tonn Piper, também de Manchester). Bem diversificada, é possível encontrar traços tanto da Rumpilezz Orquestra, do baiano Letieres Leite, como dos mais tradicionais grupos de Nova Orleans em Incoming!. Excluindo isso, sobra de montão groove e mais groove neste disco instigante.

Ouça: “Nailing The Harmony”

14. Things of That Particular Nature

Duane Eubanks Quintet

Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 20 de janeiro de 2015

O 3º disco do trompetista demorou 15 anos pra sair. Não foi intencional – é que ele estava sem tempo mesmo. Nesse ínterim, tocou com Talib Kweli, Alicia Keys, Wu-Tang Clan, The Temptations e diversos outros. Sem alarde, Things of That Particular Nature não é um confronto estético. Seu quinteto é completado por Abraham Burton (sax-tenor), Marc Cary (piano), Dezron Douglas (baixo) e Eric McPherson (bateria). Em “Holding Hands” e na melancólica “Aborted Dreams”, conta com a participação de Steve Nelson no vibrafone. As 10 faixas do disco são ancoradas num post-bop maduro e democrático: cada entrada é respeitada, retilínea. Essa característica é tão preponderante, que são poucas as ocasiões em que um padrão rítmico é mantido. A levada dos compassos é a grande sacada do álbum: em “Rosey”, o feeling piano-baixo-bateria aquece a fornalha para que Eubanks chegue junto; a divertida “Beer and Water” é quase um modal, chegando a lembrar “Freddie Freeloader”, daquele disco que você já está cansado de ouvir.

Ouça: “P”

13. Galactic Parables Volume 1

Rob Mazurek & Exploding Star Orchestra

Gravadora: Cuneiform
Data de Lançamento: 26 de maio de 2015

Dez anos de existência da Exploding Star Orchestra mereceriam uma comemoração à altura. O trompetista Rob Mazurek vai longe em suas conexões espirituais com Don Cherry e Lester Bowie. O álbum duplo registra dois shows: um na Sardenha (Itália) e outro em Chicago (EUA), terra do trompetista. Na primeira parte ele tem à disposição os brasileiros Guilherme Granado (teclado, samplers, synth e voz) e Maurício Takara (cavaquinho, percussões e efeitos), dando maior hibridismo a temas como “Free Agents of Sound” e “Helmets of Our Poisonous Thoughts #16”. Não importa com quem toque, Mazurek exige uma desenvoltura que acompanhe seus solos rascantes e magistrais. O termo intergalático está em sua obra com a mesma intensidade que seus sopros mais veementes. Com esta banda, ‘explosivo’ é mais um adjetivo na bagagem.

Ouça: “The Arc of Slavery #72”

12. Past Present

John Scofield

Gravadora: Impulse!
Data de Lançamento: 24 de setembro de 2015

Depois de perder um filho pro câncer, o guitarrista John Scofield reuniu seu clássico grupo dos anos 1990, com o virtuoso saxofonista Joe Lovano, o baterista Bill Stewart, mais a adição do contrabaixista Larry Grenadier. Past Present é um post-bop blueseiro – afinal, tanto as notas de Scofield quanto de Lovano extraem o melhor da tradição melancólica do gênero, possível de ouvir em “Hangover” e “Slink”, que parece ancorada num take perdido de Time Out! (1959). Em “Chap Dance”, o bop estimula esplêndido duelo entre Lovano e Scofield, lembrando os bons tempos de Meant to Be (1991). A diferença é que a simbiose entre estes excelentes improvisadores está mais apurada. Eles injetam novos elementos criativos no blues e no hard-bop com raro tato e elegância.

Ouça: “Past Present” (trecho)

11. Lucidity

Atomic

Gravadora: Jazzland Recordings
Data de Lançamento: 17 de março de 2015

Mais Eric Dolphy e menos Peter Brötzmann, o primeiro disco do Atomic sem o baterista Paal Nissen-Love cria novos paradigmas rítmicos e enfrenta-os com destreza. O sax-tenor de Fredrik Ljungkvist e o piano de Håvard Wiik são os protagonistas de Lucidity (vide faixa-título) porque se disputam a todo momento. Quando se batem pra valer, arrancam notas arrebatadoras. Quando parece haver uma confluência, como engana “Lanterna Interfuit”, o Atomic se perde nos vãos do avant-garde – tradução: fogem completamente de todas as prerrogativas harmônicas. Essa liberdade musical já é latente desde sempre para a banda escandinava, a diferença é que Lucidity brinca com o ouvinte ao sugerir (e apenas sugerir) o certinho e convencional, resultando em algo duplamente transgressor.

Ouça: “Lucidity”

10. GAÏA

Lionel Loueke

Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 30 de outubro de 2015

Produzido pelo chefão da Blue Note, Don Was, GAÏA é um álbum que se impõe. O guitarrista do Benim juntou-se ao baixista Massimo Biolcati e ao baterista Ferenc Nemeth numa obra flamejante. Apesar de Lionel Loueke citar B.B. King e Jimi Hendrix como ídolos, nenhum power trio blues-rock serve como parâmetro para o que é entregue aqui. Ele toca como um Django Reinhardt alienado por solavancos e com um ar indelével de Bo Diddley. Nem o rock, nem o blues são herança direta de GAÏA, pelo menos não em relação às guitarras. Na melancólica “Sleepless Night” o instrumento opera como um baixo, mas é no arremate estético de “Broken”, que lembra muito a função de um órgão Hammond, que o instrumento desempenha uma função que não se esperaria – quando ele não faz uso semelhante a uma kora em “Even Teens”. Quebrando compromisso tanto com o blues de Chicago quanto o blues africano, GAÏA cria interessante amálgama entre world-music e post-bop numa das investidas mais instigantes em trio em muito anos. Isso evidencia apenas uma coisa: que o jazz jamais esgotará as possibilidades de uma guitarra.

Ouça: “Aziza Dance” (ao vivo)

9. Break Stuff

Vijay Iyer Trio

Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 16 de janeiro de 2015

Break Stuff é uma espécie de Money Jungle (1963) acadêmico. A estrutura e a falta dela são levadas a graus de intensidade que transcendem qualquer comprometimento histórico. Vijay Iyer é um acadêmico que tem em Thelonious Monk seu principal ídolo, mas compõe como um Ahmad Jamal no século XXI. Ao lado de Stephan Crump (contrabaixo) e Marcus Gilmore (bateria), porém, o pianista indiano faz da tensão a principal verve de sua musicalidade. África e Europa e minimalismo e hard-bop são catalisados em notas extravagantes que funcionam melhor assim, acústico, que com a interferência de quaisquer efeitos. Break Stuff é desprovido de swing, mas, por outro lado, faz do ritmo uma elucubração complexa, algo que Iyer aprendeu com a música clássica indiana e adotou em seu método de composição. Professor de Harvard, Vijay Iyer também é um grande experimentador com a eletrônica e hip hop. É em discos acústicos como Break Stuff, porém, que entendemos melhor a aplicação das micro e macroestruturas harmônicas em sua forma de fazer jazz.

Ouça: “Mystery Woman”

8. Luminosa

Anat Cohen

Gravadora: Anzic
Data de Lançamento: 17 de março de 2015

As cores verde e amarelo estão ligeiramente borradas na capa de Luminosa, e não é por acaso. O álbum da clarinetista Anat Cohen é alicerçado na vastidão musical do folclore brasileiro – de Milton Nascimento (no crescendo existencial de “Lilia” e em reflexiva releitura de “Cais”, ambas do clássico Clube da Esquina, de 1972) a Severino Araújo (“Espinha de Bacalhau” exibe um ás de virtuosismo de Anat junto ao acordeonista Vitor Gonçalves). A competência de Anat em domínio de seu instrumento é tão ímpar, que as funções de solista e acompanhamento parecem se confundir: tanto numa como noutra técnica a clarinetista apresenta elasticidade e protagonismo num mix de Paulo Moura e Don Byron. Tanto é que ela reúne duas bandas diferentes em Luminosa: com o baixista Joe Martin, o pianista Jason Lindner e o baterista Daniel Freedman, faz com que seu estilo predomine em passeios multiestilísticos, de “Putty Boy Strut” (releitura de Flying Lotus) a “Happy Song”, numa ótima confluência com Martin. Nas jornadas mais world-music, ela tem o grupo Choro Venturoso, com Gonçalves, o violonista César Garabini e Sérgio Krakowski no pandeiro. Seja no clarinete-baixo, no clarinete ou no sax-tenor, Anat Cohen ilumina muito mais que o título sugere.

Ouça: “Putty Boy Strut”

7. For One to Love

Cécile McLorin Salvant

Gravadora: Mac Avenue
Data de Lançamento: 4 de setembro de 2015

Considerada a “melhor cantora de jazz a emergir na última década” pelo New York Times e DownBeat, a norte-americana de Miami usa a dramaticidade a seu favor. O peso histórico da escravidão contra os negros, a dura realidade de ser mulher nos dias de hoje e os paradigmas da música cantada no jazz no século XXI têm em Cécile McLorin Salvant uma figura que já se apresenta emblemática mesmo com apenas 26 anos. For One to Love é o 3º disco e traz músicas próprias (são 5 no total), versões e um ou outro standard (“Wives and Lovers”, de Burt Bacharach e Hal David, é a mais notável delas, com um canto rigidamente teatral). Desde os discos anteriores a herança Bessie Smith-Cab Calloway-Billie Holiday são assimiladas, mas em “For One to Love” paira o espectro Judy Garland. Será, realmente, que Cécile pertence aos nossos tempos? “Meu trabalho consiste em comover através da minha música, e só isso conta”, revelou numa entrevista de 2014 ao jornal El País. Em For One to Love o que realmente conta é a fluência com que domina suas técnicas: Cécile grita, clama, é sutil, sabe ser doce, amorosa, enfim, é uma vocalista de jazz completa.

Ouça: “Look At Me”

6. Bird Calls

Rudresh Mahanthappa

Gravadora: Act Music & Vision
Data de Lançamento: 10 de fevereiro de 2015

Não é por ter Bird no título que faz deste aqui um disco de releituras de Charlie Parker. O lendário saxofonista do bebop é a inspiração-mor de Rudresh Mahanthappa, mas o que este italiano filho de imigrantes indianos faz com as notas de seu sax-alto são mirabolantes. Suas investidas possuem tanta destreza que fazem a escala de tempo musical subverter aos seus arroubos. Apesar de ágil como o movimento jazzístico dos anos 1940 clamava, Bird Calls é dotado de uma intensidade próxima a Pharoah Sanders, outra lenda do sax (no free-jazz). Os duos de metais de Mahanthappa e Adam O’Farrill no trompete são como aquela amizade competitiva, em que um disputa com o outro até chegar no bom senso rítmico, geralmente chacal. Antes de cada tema ser devidamente explorado, Bird Calls apresenta suítes variadas, como se realmente atendesse aos pedidos espirituais de Charlie Parker. Uma coisa é bastante certa: se ele ainda estivesse entre nós, se impressionaria com a dinâmica fulcral deste quinteto.

Ouça: “Chillin’”

5. The Epic

Kamasi Washington

Gravadora: Brainfeeder
Data de Lançamento: 5 de maio de 2015

O saxofonista de 33 anos famoso por tocar em To Pimp a Butterfly é cheio de energia – que outro motivo você daria a alguém disposto a lançar um disco triplo, como The Epic? Do fusion ao gospel, Kamasi Washington cativa os outsiders por ser soberbo e atônito. Suas transições rítmicas devem bastante ao hip hop, o que se justifica: além de Kendrick, Kamasi tocou com Snoop Dogg, Mos Def, entre outros. Perceba que suas notas vibram como se dialogassem com a intensidade do baixo-bateria da música das ruas. Claro que The Epic tem muito mais a oferecer: em “Re Run Home”, o funk de Chaka Khan bate pesadão e “Leroy and Lanisha”, com o trompete de Igmar Thomas e o trombone de Ryan Porter, fervem, subvertendo as noções de quem acreditaria que o disco enveredaria num cool-jazz. Isso só mostra como o temperamento é perceptível nas composições de Kamasi: ele compreende a fúria de uma comunidade que sofre com o preconceito e devolve erigindo uma crônica complexa de revolta, amizade, sofreguidão, trabalho, esperança e amor. Eis uma obra fortemente espiritual.

Ouça: “Re Run Home”

4. Stretch Music

Christian Scott

Gravadora: Ropeadope
Data de Lançamento: 18 de setembro de 2015

Dialogar com outros movimentos no jazz é comum desde seu nascimento, quando Jelly Roll Morton concordava que a música clássica europeia influenciava suas big bands nos anos 1920. Quase um século depois os ritmos populares tomaram rumos distintos, e lá vem o trompetista Christian Scott com a prerrogativa de chamar de rock, indie, rap e o que mais for o movimento por trás de Stretch Music, seu disco mais ambicioso até o momento. “É essencialmente a mesma ideia; é apenas uma atualização, separada por um século”, disse o trompetista. Um dos principais reforços é a presença da flautista Elena Pinderhughes, que insere um elemento tântrico em “Sunrise in Beijing” – é em “Liberation Over Gangsterism”, porém, que a confluência com o trompetista se mostra ricamente soberba. O guitarrista Cliff Hines dá abertura para o rock moderno em “West of the West”, mas nos parâmetros Pat Metheny/John McLaughlin, enquanto o percussionista Joe Dyson Jr traz a herança cubana e brasileira para o caldo. Por mais que o discurso soe extravagante, a inserção dos gêneros pop mencionados são sutis, mas suficientemente marcantes para que Stretch Music clame para que o jazz aceite a própria universalização, sem distinções.

Ouça: “Sunrise in Beijing”

3. COIN COIN Chapter Three: River Run THEE

Matana Roberts

Gravadora: Constellation
Data de Lançamento: 3 de fevereiro de 2015

No final de 2013, Matana Roberts veio ao Brasil sozinha, com seu sax-alto, e apresentou no Centro Cultural de São Paulo uma estranha desenvoltura com data-shows e solos intermediários. Repletos de vozes do além, ela dava um outro sentido a COIN COIN Chapter Two: Mississipi Moonchile e, de certo modo, antecipava para o que realmente queria com o terceiro capítulo da saga em busca da ancestralidade do povo negro nos Estados Unidos. River Run THEE é um diálogo intenso com o que não se vê, só se imagina. Um antigo piano Archambault, de 1900, sintetizadores e overdubs ajudam Matana a se conectar tanto de forma branda, em “The Good Book Says”, como de forma mais veemente, em “Nema Nema Nema”. A instrumentação neste disco é importante, mas não diminui o fato de ser uma obra narrativa: os clamores são impactantes mais por sugerir cenários de opressão velada, que por seu conteúdo. Os prantos e rezas indicam tanto a influência da música gospel, como a extensão do sofrimento de um povo. O exercício que a saxofonista propõe vai além de um exorcismo próprio: ela faz com que o ouvinte seja testemunha do peso histórico que não deve se dissociar assim, de uma hora pra outra, de todos os indivíduos, sejam cúmplices ou não, presos a essa historiografia ou não. O pertencimento é de Matana Roberts e, sobretudo, nosso também.

Ouça: “Always Say Your Name”/”Nema Nema Nema”

2. Synovial Joints

Steve Coleman & The Council of Balance

Gravadora: Pi Records
Data de Lançamento: 28 de abril de 2015

O sax-altista Steve Coleman sempre esteve muito à frente de seu tempo. Quando nem se discutia o impacto da música digital no início dos anos 2000, sua M-Base já estava disponível de graça na internet. Quando os ‘young lions’ defendiam a tradição como única verdade absoluta, Coleman e seus Five Elements sugeriam encontros histriônicos com outras culturas musicais. São 30 anos de peso histórico, e a noção de que o jazz ainda tem muito a explorar persiste em suas buscas. Synovial Joints é um álbum que capta múltiplos processos composicionais ao redor do mundo. Intrincados, os temas são mais compromissados com a síncope que com a manutenção rítmica. Neste jogo, sax, trompete (de Jonathan Finlayson) e trombone (Tim Albright), além dos lapsos no sax-tenor de Maria Grand, se convergem a todo momento em escalas dinamizadas pelo movimento corpóreo (quanto a isso, Coleman foi bem específico ao citar ‘sela, pivô, bola, soquete e avião‘, ilustrado em títulos como “Synovial Joints Pt. I: Hand and Wrist” ou “Synovial Joints Pt. IV: Head and Neck”). Aos 58 anos, um dos jazzistas mais importantes da atualidade parece antenado em diversos GPSs ao mesmo tempo. As movimentações compreendem diversas linguagens, culturas e expressões, “explorando diferentes direções conjuntivas para fluxos e ímpetos musicais mais efetivos”. Coleman, tido como um mestre para outros virtuoses contemporâneos, como Vijay Iyer e Ambrose Akinmusire, chama essa busca de “orquestração camuflagem”. Sim, ele esconde um mundo de referências, estudos e, principalmente, movimentos orgânicos.

Ouça: “Acunpucture Openings”

1. The Thompson Fields

Maria Schneider Orchestra

Gravadora: Artist Share
Data de Lançamento: 5 de junho de 2015

Assim diz um livro de jazz sobre Maria Schneider: “Suas peças possuem o fluxo narrativo de um romance que transporta o ouvinte para novos lugares, envolve-o numa espécie de storytelling orquestral e lança-o no meio das mais diversas atmosferas, cores e sentimentos”. O cenário inicial é a fazenda Thompson, perto de onde moravam, em Minnesota (EUA). Com respeito à natureza do local, ela cria composições incríveis com arcos musicais que compreendem os ensinamentos de Duke Ellington e Gil Evans (de quem foi assistente) com ímpar desenvoltura para narrar sem precisar descrever.

“Arbiters of Evolution”, por exemplo, tem no sax-tenor de Donny McCaslin o entrecorte de passagem de tempo em um lugar cuja beleza acompanha as inevitáveis transições naturais. Ele assume o solo do concerto com a responsabilidade de expressar a verossimilhança abstrata daquelas imagens, característica forte dos métodos de composição de Maria.

The Thompson Fields é dividido em oito composições, cada uma com início, meio, fim e a plena certeza de um bem-sucedido processo colaborativo que encara a composição como algo pertencente ao mundo, não a um bandleader. Ouça a faixa-título: você se sentirá no acalanto daquele lugar, e invariavelmente é estimulado a perceber o seu ambiente preferido na infância. Em “Lembrança”, ela se deixa levar pelo impacto da música brasileira em sua obra (já recorrente desde os anos 1990). Ela celebra o saxofonista/clarinetista Paulo Moura, que a levou, em 2001, para o ensaio da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Os solos de Ryan Keberle (trombone) e Jay Anderson (baixo) esculpem o samba a algo tão magistral quanto os mais importantes elementos do jazz para a música norte-americana – pra isso, eles contam com o importante apoio do percussionista Rogerio Boccato. Aqui, ela deu status de linguagem universal a um de nossos gêneros mais valiosos. “Um momento depois de ter finalizado a composição”, explica Maria, em encarte do álbum. “Recebi um e-mail de Luiz, que estava com a gente naquela tarde no Rio. Ele escreveu que Paulo havia acabado de morrer. Então, nomeei a canção “Lembrança”, relembrando. Era tão maravilhoso, tão evidente ver que ali [na escola de samba] eram suas raízes. Aquele lugar era claramente a casa dele“. Da mesma forma que The Thompson Fields é a nossa.

Ouça: “Arbiters of Evolution” (trecho)

Groovin’ Cast Especial: O Melhor do Jazz em 2015 by Na Mira Do Groove on Mixcloud

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