Ornette Coleman é a essência do free-jazz não porque criou, revolucionou e transfigurou o estilo. Com o sax-alto, inventou a técnica ‘harmolódica’, uma mistura de harmonia, ritmo e melodia truncados numa forma de tocar que parece estrepitosa, mas não demorou a se revelar como uma estranha evolução do blues, do bebop e do avant-garde.
Os primeiros discos de Ornette são notáveis logo no título: Something Else!!!! (1958), The Shape of Jazz to Come (1959), Change of the Century (1960)… O melhor é que todos eles são ótimos, essenciais para entender o real significado do free-jazz.
Desde que surgiu, Ornette marcou e fincou sua posição como divisor (de notas) no jazz. A linguagem musical foi a que mais sofreu impacto no começo de sua carreira, mas, ao longo dela, o saxofonista percebeu que a busca do ‘ser livre’ ia além das rupturas.
Por mais que Free Jazz (1961) seja fundamental, o disco é apenas parte do complexo contorno musical que sua obra ganharia com o passar dos anos.
Em outras palavras, não mencionar a abertura do free-funk que Ornette empreendeu com o quarteto Prime Time, não apontar a importância da fricção do arco de violino, instrumento que também tocou com bastante desenvoltura, e não reconhecer o frescor musical que fez valer o Grammy, em 2006, é imperdoável, um compêndio indesculpável de injustiça histórica para com Coleman. Ele foi um dos maiores de todos os tempos, e esse é um dado difícil de ignorar.
O saxofonista-tenor Archie Shepp, contemporâneo de Ornette e um dos grandes expoentes do free-jazz, disse:
Em minha opinião, Ornette Coleman revigorou a linguagem do blues, insuflando-lhe uma nova vida, sem destruir sua simplicidade. Coleman não retirou o blues de seu universo expressivo original; ao contrário, ele reconduziu o blues a seus desenvolvimentos iniciais, livres, clássico-africanos, não harmonizados.
Para se ter dimensão da obra de Ornette Coleman, listamos 13 grandes discos de sua carreira. Não são os melhores, porque a ausência de alguns deles nessa lista é algo que o Na Mira assume como unilateral (era pra ser 10, mas 10 é muito pouco). Funciona melhor como um guia, para que sua passagem jamais seja esquecida.
R.I.P., Coleman.

Something Else!!!!
Gravadora: Contemporary
Data de Lançamento: 1958
Havia muitas coisas a provar no primeiro disco. Antes de se destacar, alguns músicos viam Ornette Coleman como desafinado, já que as notas de seu sax-alto raramente captavam precisão rítmica. Something Else!!!! mostra o jazzista se adequando no contexto de estar em conjunto. “Invisible” e “Jayne” têm os resquícios do bop mais pela temperatura que o grupo atinge que pela busca de virtuosismo. “Chippie” é um ragtime sintomático – isso por conta da confluência do ágil baixo de Don Payne e o piano de Walter Norris. Coleman se afastaria completamente dessa estrutura, mas não faria mal se prosseguisse a partir daí. O diálogo entre o sax-alto de Ornette com Don Cherry, que aqui assume a corneta, soam estranhamente particulares em “The Blessing” e “Angel Voice”. Não era daquela maneira que se fazia bebop, muito menos hard-bop. Uma nova via se apresentava.
Ouça: “Jayne”

The Shape of Jazz to Come
Gravadora: Atlantic
Data de Lançamento: Outubro de 1959
Leia também: The Shape of Jazz to Come na seção Grandes Álbuns
O ano de discos emblemáticos como Kind of Blue e Time Out não teria tanto impacto assim se não tivesse uma obra como The Shape of Jazz to Come. Estabelecendo uma espécie de crossover entre o bebop e a quebra das progressões harmônicas, Ornette Coleman polemizou por renegar o desenvolvimento de gêneros como hard-bop, modal e cool-jazz em takes fabulosos como “Eventually” e “Focus on Sanity”. O blues também é uma influência sintomática em seu trabalho, e “Peace” não apenas reafirma, como sugere uma abordagem que rompe estruturalmente com o ritmo em 12 compassos. Este é o álbum que traz a canção mais conhecida de Ornette: “Lonely Woman”, ou, o take que selou a simbiose entre o saxofonista e o trompetista Don Cherry. A técnica harmolódica de Ornette consiste em unir e transcender os limiares do que representa a harmonia e a melodia. Mais de cinco décadas depois, “Lonely Woman” destaca-se como exemplo mais vivaz dessa busca.
Ouça: disco na íntegra

Free Jazz: A Collective Improvisation
Gravadora: Atlantic
Data de Lançamento: Setembro de 1961
O disco libertador. O disco revolucionário. O disco que mostrou que o bebop podia ir além – e que todos os outros subgêneros musicais poderiam ir às favas. Free Jazz é daqueles álbuns que mudou o mundo, alterou a forma e o pensamento vigente sobre o jazz e levantou discussões iradas e apaixonadas sobre a verdadeira essência da música. Separado em dois canais, a sessão reúne um time de músicos que justificaria o termo manifesto: de um lado, o quarteto bombástico de Ornette Coleman, com Don Cherry, o libertador contrabaixista Scott LaFaro e Billy Higgins na bateria; de outro, o genial Eric Dolphy no clarinete-baixo, acompanhado do parceiro Freddie Hubbard (trompete), Charlie Haden (baixo) e Ed Blackwell (bateria). A base sonora é simples de descrever, mas difícil de acompanhar: formando um atrito entre ritmo e harmonia, Free Jazz interpõe solos e bagunça a entrada sônica de cada músico envolvido. É como se misturasse tudo junto, sem sentido, pra ver no que vai dar. E o que deu? Num dos discos mais importantes do século passado.
Ouça: disco na íntegra

Chappaqua Suite
Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: Segundo semestre de 1965
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Se alguém sair por aí adoidado gritando que Chappaqua Suite é o melhor álbum de Ornette Coleman, não estará de todo errado. Preparado para ser a trilha sonora do filme homônimo, o diretor do longa, Conrad Rooks, achou melhor não incluir em seu trabalho, por achá-la ‘bela demais’, o que poderia ofuscar a trama (em seu lugar, colocou uma trilha elaborada por Ravi Shankar). Chappaqua Suite é o primeiro disco em formato de trio com o baixista David Izenzon e o baterista Charles Moffett. Dividido em quatro partes, mostra o auge da estrutura harmolódica de Ornette. Seu sax-alto é escatológico: envereda mais pelas notas agudas, mas de uma forma que reúne a essência do blues e a abertura do free-jazz num modo inquietamente espiritual. Durante sua gravação, Ornette contou com uma sessão orquestral, comandada por Joseph Tekula, que levou o grupo a uma direção mais abstrata, quase noir de acompanhamento (espécie de antítese de Gil Evans). O genioso Pharoah Sanders surge com seu sax-tenor na última parte do disco, aliviando e tensionando a complexidade harmônica do álbum. Pouco se fala sobre Chappaqua Suite na obra de Ornette como um todo porque, por conta da rejeição, a gravadora não deu ao disco a atenção que merecia. É, sem sombra de dúvidas, um daqueles raros exemplos de perfeição no free-jazz.
Ouça: trecho da suíte

At the Golden Circle Stockholm Vol. 1 e 2
Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: dezembro de 1965
A obra de Ornette Coleman e John Coltrane anda lado a lado, tanto que se pode entrecruzar alguns de seus discos: Ascension (1965) e Free Jazz (1961) e Blue Train (1957) e The Shape of Jazz to Come (1959) são algumas das comparações. Se Ornette pode ser considerado o pioneiro, Coltrane é o músico que melhor espiritualizou os achados que teve. Há, ainda, outra comparação a ser feita: a obra-prima A Love Supreme (1964) e At the Golden Gate Vol. 1 (1965) se correlacionam pela intensidade das notas dos dois bandleaders. Logo na primeira faixa, “Faces and Places”, o sax de Ornette Coleman soa vigorosamente quente, como se fosse mais um dos muitos obcecados pelo bebop. “Dee Dee”, por outro lado, marca notável aproximação com o hard-bop, contrariando veementemente discussões que direcionavam Coleman ao unilateralismo do free-jazz. At the Golden Circle é um dos melhores discos de Ornette no formato trio: ao lado do baixista David Izenzon e o baterista Charles Moffett, Ornette deixou Estocolmo em chamas numa sessão extraordinária, repleta de um espiritualismo pouco associado ao saxofonista.
Ouça: “Faces and Places”

The Empty Foxhole
Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 1966
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Muitos não entenderam: por que motivo Ornette Coleman colocou o filho, de apenas 10 anos, para tocar bateria no disco The Empty Foxhole? A decisão não representa um ‘desleixo’ na seção rítmica; é incrível perceber como Denardo Coleman soa como um jovem influenciado por Sunny Murray, fornecendo a base para uma catarse de experimentos com violino (vide “Sound Gravitation”, que mune o barroco de agressividade) e, claro, sax-alto, que extrai em iguais medidas do blues (“Faithful”) e da fórmula estridente do avant-garde (“Freeway Express”). Segundo disco pela Blue Note, The Empty Foxhole também traz o baixista Charlie Haden de volta no acompanhamento. O disco é mais leve, sutil, mais próximo aos discos iniciais (como Somthing Else!!!!) – algo que, nos padrões de Ornette, naquele momento de sua carreira, não deixa de ser estranho.
Ouça: disco na íntegra

Science Fiction
Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: Segundo semestre de 1971
Leia também: Science Fiction na seção Grandes Álbuns
E se Ornette Coleman resolvesse ser pop? A resposta está em “What Reason Could I Give?”, com suporte de uma voz serena da indiana Asha Puthli, que também canta em “All My Life”. Coleman também assume o violino, instrumento que domina muito bem – ainda que o muito bem seja de uma forma não-europeia, torta e quase arregaçada, como evidencia “Rock the Clock”. O trio Cherry-Haden-Higgins volta a dar suporte a Coleman em “Civilization Day”, selando mais uma vez a transbordante energia que não se perdeu ao longo de dez anos. (Não há fórmula para free-jazz, mas, se existisse, essa fórmula seria patente desse quarteto.) Science Fiction é um marco importante na carreira do saxofonista também porque revela a simbiose com o sax-tenor de Dewey Redman e o trompete de Bobby Bradford (principalmente na faixa-título). E, também, porque trouxe um frescor inesperado à sua obra. Se ele já era gigante nos anos 1960, cresceu ainda mais após Science Fiction.
Ouça: “All My Life”

Dancing in Your Head
Gravadora: Horizon & Tapes
Data de Lançamento: 1977
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Como já não fosse o bastante ser um dos pioneiros do free-jazz e alterar todas as estruturas para dar um novo contexto ao subgênero, depois que ele foi criado e levado aos extremos, Ornette Coleman também reinventou a sua própria banda. Com o grupo Prime Time, formado por dois baixistas – Rudy MacDaniel e Jamaaladeen Tacuma – além do clarinetista Robert Palmer, Charles Ellerbee e Ben Nix nas guitarras e o impressionante Ronald Shannon Jackson na bateria, Ornette trouxe a influência da música marroquina numa sessão elétrica e swingante, que posteriormente ficou conhecida como free-funk. Dancing in Your Head é baseado em três temas que trouxeram outro panorama inovador à sua obra. Ritmicamente complexo, o disco é um experimento ininterrupto que dialoga com o crescimento da música negra na cena pop, nos anos 1970, além de trazer outro limiar ao free-jazz e à sua proposta ‘harmolódica’.
Ouça: disco na íntegra

Of Human Feelings
Gravadora: Antilles
Data de Lançamento: 1982
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Of Human Feelings é o disco mais cheio de swing, de groove, o disco que levou o free-funk da Prime Time a algo palatável. Difícil ficar parado com a energia do álbum, que capta o momento de boom da música negra, remodela num processo free-jazzístico e oferece notas virtuosas, estarrecedoras. A levada musical do álbum, por incrível que pareça, antecipa o que Miles Davis fez em Tutu (1986) (o melhor: Ornette Coleman não precisou regravar Michael Jackson). Of Human Feelings é uma empreitada ousada e talvez até transviada, já que o ritmo funk predomina sobre a estrutura harmolódica de Ornette. O que isso mostra? Que o saxofonista estava disposto a ousar com a música negra pop, bagunçando sua própria técnica – ainda que faixas como “Jump Street” e “Job Mob” não fujam em nada do aspecto inovador que o jazzista apresentou anteriormente.
Ouça: disco na íntegra

Song X (com Pat Metheny)
Gravadora: Geffen
Data de Lançamento: Dezembro de 1985
O criativo uso de Pat Metheny da guitarra-sintetizador deu uma projeção ao instrumento no jazz como nunca dantes. Ele se tornou a maior influência nessa direção e, por mais que não fosse um grande expoente do free-jazz, mostrou ter dotes mais que suficientes nesse disco colaborativo com Ornette Coleman. Song X, de fato, é um disco mais associado ao saxofonista não por conta da predominância do estilo que expandiu ao mundo, mas, também, pela explosiva direção que estimulou. Nenhum dos bandleaders revoga o protagonismo, mas faixas como “The Good Life” e “The Veil” escondem um duelo – duelo de gigantes, claro. A grande pérola tem mais de 13 minutos: trata-se de “Endangered Species”, uma confluência que extrapola todos os limiares de um ‘jazz explosivo’. Coleman comparou esse momento a Ascension, de John Coltrane. Metheny e Coleman, que de comum dividem apenas uma forma nada convencional de catalisar melodias, parecem refazer o que foi catapultado como invenção em Free Jazz. Porém, aos que buscam entender a forma que se dá o diálogo, vale observar os virtuosos achados de “Police People” e “Video Games”.
Ouça: “Song X”

In All Languages
Gravadora: Caravan of Dreams Productions
Data de Lançamento: 1987
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O trio que ajudou Ornette Coleman a gravar discos essenciais para o free-jazz está de volta: Don Cherry, Charlie Haden e Billy Higgins relembram o momento em que os experimentos melódicos e harmônicos estavam em ebulição. Sim, eles estão de volta, mas só no CD 1. E voltam bem ecléticos, indo da música afro-caribenha (“Latin Genetics”) à celebração ao mestre Charlie Parker (“Word For Bird”), desde sempre uma das principais influências de Coleman. O CD 2 mostra Coleman recriando os mesmos temas, mas só que com a Prime Time. A proposta é mais massiva, híbrida, imponente: o duplo uso do baixo e o duplo uso da guitarra fornecem um fervor rítmico que parece esquentar George Clinton num vapor de centenas de graus célsius. A quentura inicia em “Music News” e mantêm-se forte na temperatura até “Peace Warriors”.
Ouça: “Latin Genetics”

Tone Dialing
Gravadora: Harmolodic/Verve
Data de Lançamento: 1995
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Tone Dialing pode ser facilmente considerado o álbum mais versátil da carreira de Ornette Coleman. Reinterpretando Bach em sua complexidade harmônica (“Bach Prelude”) e trazendo ao R&B uma nova perspectiva espiritual (“Search For Life”), além de dar uma repaginada na notável “Kathelin Gray”, que gravou com o guitarrista Pat Metheny no álbum Song X, a influência do free-funk de sua Prime Time permanece vívida. A faixa de abertura “Street Blues” traz estranha, mas impressionante sintonia, entre os guitarristas Chris Rosenberg e Ken Wessel. Sete anos após o então último trabalho de inéditas (Virgin Beauty, de 1988), Ornette Coleman transfigurou, mais uma vez, uma de suas inovações estéticas. É um dos últimos trabalhos com a Prime Time, que podia dar sinais de esgotamento criativo, mas ainda conseguia, com efetividade, injetar mais swing na música de Coleman.
Ouça: “Search For Life”

Sound Grammar
Gravadora: Sound Grammar
Data de Lançamento: 12 de setembro de 2006
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O último disco com material inédito de Ornette Coleman foi um adeus honroso. Vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Jazz, Sound Grammar traz seu filho, o baterista Denardo Coleman, novamente na banda de apoio. O saxofonista passeia por takes pouco usuais de sua carreira, como “Turnaround” (de Tomorrow is the Question!, de 1958) e “Sleep Talking” (inspirada em faixa de Of Human Feelings, de 1982). Já com 74 anos de idade, Ornette Coleman resfolega nas notas com a destreza de quem não perdeu a juventude. Com o importante suporte do baixo de Tony Falanga, Sound Grammar exibe o primor com que o sax-altista trata o blues, entrecortando com free-jazz e avant-garde. Registrado num show na Alemanha, Sound Grammar não é uma celebração de sua carreira; é, por outro lado, exemplo de que Ornette queria desafiar o que fez, repaginar o que experimentou e dar nova vida à sua importante discografia.
Ouça: disco na íntegra
