Dois dias antes de se apresentar em Pittsburgh (Estados Unidos), no dia 23 de setembro de 1980, Bob Marley havia passado mal e desmaiado em Nova York. Mas sentiu que não poderia decepcionar uma multidão que esperava, sem saber, aquele que seria o último show registrado do rei do reggae, que infelizmente faleceu em maio do ano seguinte.
E somente agora, pouco mais de três décadas depois, a Tuff Gong lança o disco Live Forever, gravado no Stanley Theater, em formato vinil, CD e digital, totalmente remasterizado. Naquela época, a ideia era divulgar o último trabalho de estúdio lançado por Bob, Uprising, que trazia alguns de seus grandes hits, como “Coming In From The Cold”, “Work” e “Redemption Song”.
Como bem lembrou o jornalista Gabriel Rocha Gaspar, Bob estava ciente de que a morte se aproximava e gravou às pressas o último álbum para dar continuidade aos trabalhos de cunho mais libertário e ideológico, tal qual o Survival, de 1979. E acabou perdendo sua consistência rítmica ao editar as faixas que considerava as melhores a serem gravadas. É como se fosse um álbum póstumo antes da precoce morte do músico.
Em Live Forever, Bob sabia que tinha que entregar uma apresentação à altura, algo que remetesse ao antológico show de Santa Bárbara em 1979 ou o vigor de arena em Live!, de 1975, quando o rei estava conquistando o terreno europeu.
Pode-se dizer que o último registro de Bob está à altura. O vigor está lá sim, e a seleção de canções como “Positive Vibration”, “Them Belly Full” (uma das mais bem cantadas no show) e “Zimbabwe”, ao invés de tocar praticamente na íntegra o Uprising, foi uma escolha mais que adequada. (Ainda que este autor ache que alguns de seus maiores hits ficaram de fora, Bob Marley tentou tocar aquelas que já estava mais acostumado em executar nos shows.)
Óbvio que neste álbum não veremos Bob Marley incitar a liberdade contra o apartheid (como vinha se empenhando em fazer) na África ou realmente convencer os filhos de Jah a procurarem um local pacífico em “Exodus” com o tom incisivo que sempre permeou sua carreira. Isso porque Bob vivia em tensão existencial, por mais que não transparecesse. Antes de machucar o pé e contrair câncer, ele disse que faleceria aos 36 anos.
Mesmo que a apresentação em Pittsburgh não seja considerada a melhor de sua carreira, seria impossível prever que o rei do reggae partiria em uma data próxima. Como o próprio nome sugere, Live Forever era apenas mais um motivo para celebrar a eternidade de um dos maiores músicos do século XX. E faz por onde.
