“Gosto de cantar e gosto de escrever canções, mas depois que você compõe e grava, tudo é capaz de andar por conta própria”, disse Belchior ao jornalista Thales de Menezes, lá pros idos de 1987.

De seus discos, nenhum foi tão longe quando Alucinação, lançado em 1976, com produção de Marco Mazzola. “Como Nossos Pais”, “Alucinação”, “Apenas Um Rapaz Latino-Americano”: todas essas canções definiram uma geração perdida.

Como bem disse o compositor Guilherme Arantes, “Belchior foi e sempre será o melhor letrista de canções transformadoras que já existiu”.

Essa transformação seria uma utopia – algo que a canção “Como Nossos Pais” deixou muito claro, com os versos ‘Minha dor é perceber/Que apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos/Ainda somos os mesmos e vivemos/Como nossos pais’.

Depois de todo esse tempo, é possível chegar à conclusão: nunca, você e eu, qualquer brasileiro que seja, chegamos perto de nos encontrar. Nem mesmo as bem elaboradas distinções de gerações X, Y e Z dão cabo de explicar como a luta pelos direitos políticos no nosso país se arrefeceu.

Instrumentos burocráticos

Para essa falta de vontade em lidar com política, tenho uma teoria: com o fim da Ditadura Militar, os políticos ‘legitimaram’ a democracia a partir de instrumentos burocráticos. A Constituição de 1988 pode ser encarada como um instrumento bem-sucedido ao garantir que os direitos humanos fossem respeitados ao obrigar o voto, por exemplo – algo que os brasileiros não faziam desde 1960.

Esses instrumentos se desdobraram e se tornaram mais inatingíveis, ou seja, distanciados do público.

Fernando Collor de Mello, por exemplo, teve o impeachment que lhe tirou da presidência após a primeira eleição presidencial por votos diretos. Por outro lado, teve seus direitos políticos ‘amenizados’ quando argumentou que os gastos do então tesoureiro de sua campanha, PC Farias, seriam de “sobra de caixa dois” em defesa no Supremo Tribunal Federal (STF), em 1994. (22 anos depois, ele estaria entre os senadores que votaram a favor do impeachment de Dilma Rousseff, em um dos mais rígidos esquemas burocráticos que dividiram a nação). Essa é a prova de como o instrumento burocrático funciona para a classe política. Bater de frente com esses instrumentos é algo que exige uma articulação complicadíssima, para além de ideologias.

Por isso mesmo, os instrumentos burocráticos geraram um desgaste na opinião pública. Graças a eles os políticos mantêm suas benesses, ao mesmo tempo em que se candidatam. As revelações da Operação Lava Jato podem significar o desmonte desse maquinário burocrático que faz com que ‘roubar seja normal’ na política. Ficamos tão desgastados pelas lutas, desilusões e, principalmente, pelos instrumentos burocráticos, que nos acostumamos à ideia de que ir às ruas não adianta nada.

Identidade latino-americana

Aí, vem a importância de Belchior. Se por um lado a imprensa nos oferece doses homeopáticas para encarar protestos como badernas de grevistas, por outro temos Belchior: o cara que sabia que devíamos lutar por nossos direitos, mas que principalmente mostrou a dificuldade de se livrar das amarras que nos impedem de movimentar.

Tudo isso tem a ver com o sentimento coletivo. Um simples verso de “Galos, Noites e Quintais”, de Coração Selvagem (1978), mostra como Belchior se sentia diante de tudo isso: ‘Não sou feliz/Mas não sou mudo’.

Muito do que sabemos sobre Belchior vem da sua música. Elas mostram a desilusão do cara que saiu do interior do Ceará, estudou Filosofia e Medicina, abandonou a universidade e foi tentar a vida artística no eixo Rio-São Paulo.

No meio de toda a sua trajetória, ele deu um abraço às fronteiras brasileiras como nenhum outro músico da MPB – afinal, ele era mesmo um rapaz latino-americano e, ‘por conta deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blues’, como cantou em “A Palo Seco”. Essa é a prova irrefutável de uma identidade distinta demais para encontrar paralelos. Isso, claro, definiria sua música e sua biografia.

Coletivo x individual

Esse senso coletivista de Belchior estava a todo tempo em conflito com as durezas individuais. Por isso, de todos os cantores da MPB, o cearense é o que está mais próximo de seus ouvintes, do morador da periferia que procura no curso universitário de Humanas uma forma de reverter as injustiças ao cidadão classe média que reclama das manifestações pela TV.

A dualidade da batalha coletivista versus a crise do indivíduo é incessante, e não leva à vitória alguma.

Muitos artistas dizem que Belchior deveria ser mais reconhecido, mas essa talvez fosse a recompensa maldita desse conflito.

O filósofo austríaco Martin Buber (1878-1965) definiu, no começo do século XX, como se dá essa relação: o individualismo compreende parte do homem, enquanto o coletivismo vê o homem como uma parte. Artistas como Belchior colocam o indivíduo e o coletivo em um mesmo plano. O problema, como definiu Buber, é que é impossível alcançar a totalidade do indivíduo e a totalidade do coletivo.

Imagine Belchior como uma balança. Esses dois aspectos tinham pesos enormes em sua expressão, portanto seria difícil imaginar um alcance popular da magnitude de um Roberto Carlos, por exemplo, que era focado absolutamente no plano indivíduo – já que, como disse o biógrafo Paulo Cesar de Araújo, todas as músicas de Roberto têm a ver com a vida pessoal dele.

O mais incrível é como essa contrabalança esteve presente na vida pessoal do músico. O sumiço de Belchior de 2009 é o exemplo clássico da crise existencial, onde a fuga da realidade é vista como o remédio menos doloroso para encará-la.

Essa reclusão tem inegável apelo romântico: grandes existencialistas, como o escritor russo Fiódor Dostoiévski e o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, considerados dois ‘profetas’ do niilismo (uma maneira vazia de encarar o mundo, sem nenhum aspecto de credulidade) são alguns exemplos concretos de como a literatura e a filosofia têm proximidade com a reclusão.

Belchior seria o exemplo perfeito de como isso também se aplica à música, não fosse a dura realidade a persistir em sua biografia: ele estava endividado, tinha problemas em pagar pensão aos filhos e estava sendo sustentado pelos amigos. Eis a prova chacal de como a crise do indivíduo inevitavelmente carrega o peso do coletivo. Mais de 40 anos depois de cantar que a ‘alucinação é suportar o dia a dia’, Belchior infelizmente não teve como mudar as coisas.

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Belchior morreu aos 70 anos no dia 30 de abril de 2017, vítima de rompimento da artéria aorta na pequena cidade de Santa Cruz do Sul (RS). Ele deixa uma mulher e dois filhos.