Gravadora: Sony
Data de Lançamento:
19 de agosto de 2016

Imagine a emoção: ser convidado para tocar no encerramento das Olimpíadas Rio 2016, num Maracanã lotado, na cidade onde mora, ao lado das filhas, uma neta, e celebrando grandes nomes como Pixinguinha, Braguinha (autores de “Carinhoso”) e Noel Rosa (“Pastorinhas”).

Junto ao sambista Martinho da Vila costuma vir seu sorriso, tão sincero quanto contagiante.

A noite de 21 de agosto de 2016 certamente foi bastante feliz para ele, mas esse estado de ânimo já era permanente há um bom tempo. Claro que ele tem inúmeros motivos, afinal, tem carreira consolidada, praticamente faz o que quer em termos artísticos e pode se regozijar do talento de suas filhas (a mais conhecida é Mart’Nália, que dispensa apresentações).

Entretanto, a felicidade também tem sua conotação política. Foi exatamente esse o motivo que o levou a gravar um disco com o título De Bem com a Vida.

“O Brasil tá meio baixo astral”, disse o músico ao jornal O Globo. “Nosso momento político tá muito complicado. Pensei muito nisso quando estava fazendo o disco. A gente que é de criação sempre acaba sendo influenciado pelas coisas à nossa volta. Eu quis então fazer um disco contra isso, um disco pra cima”.

De Bem com a Vida é seu primeiro de inéditas desde 2007, quando lançou Martinho da Vila do Brasil e do Mundo.

Perscrutar a vã filosofia do conceito de felicidade e alegria é um jeito errado de compreender o disco.

Escutar Martinho da Vila demanda uma atenção que vai além do samba.

Vem dele a preocupação com as complexidades harmônicas. Em “Chôro, Chorão”, que compôs em 1976 para Ademilde Fonseca, violão e cavaquinho viajam décadas em suas convergências e diálogos, com todos os elogios à dupla de instrumentistas Gabriel de Aquino e Alan Monteiro.

A cadência de “Samba Sem Letra” parece a de um partido alto, mas é controlada por sua serenidade. Ela mantém uma estabilidade rítmica pela riqueza musical extraída das cordas.

Que não se confunda otimismo com alegria forçada. De Bem com a Vida tem muitos momentos reflexivos e lúgubres. A experiência e a inteligência na forma de adequar ritmo, cadência, poesia e musicalidade permanecem na obra de Martinho da Vila

“Danadinho Danado” também já havia sido registrada anteriormente: foi gravada pela primeira vez em disco de Simone, de 1995.

Os que já buscam Martinho por sua alegria podem deixar que a primeira faixa, “Escuta, Cavaquinho!”, rode. Ele ovaciona o instrumento como uma dádiva, talvez um grande alento para um ‘futuro muito incerto, mas já pleno de saudade’ do nosso país.

“Amanhã é Sábado”, por mais simples que seja, é como um clamor para curtir o fim de semana como realmente se deve. Estresse? Fome? Problema no jantar? Uma ‘ducha morna’ é o que ele diz que precisa para sair do cansaço. Essa ducha, talvez, pode ser o momento propício para pensar no amanhã, em vez de ficar preso a um passado de angústias.

Isso faz parte da filosofia de Martinho: “Os positivistas é que mudaram o mundo”, disse, justificando a direção do álbum. “A gente não pode ficar com a autoestima baixa”.

Que não se confunda otimismo com alegria forçada. De Bem com a Vida tem muitos momentos reflexivos, como “Disritmou”, composta com Carlinhos Vergueiro, que fala, por exemplo, da decepção de um amor antigo.

“Muita Luz”, composta com João Donato, tem incríveis arranjos do violino de Jorge Mautner. O que parece ser um passeio barroco transforma-se numa cortina poética. A atmosfera é lúgubre, mas dá pra perceber risos de Martinho, numa entrega religiosa: ‘Como a estrela que guiou os magos/Daquele que é sempre luz/Viva Jesus’.

Vale lembrar que Martinho da Vila não tem uma religião definida. No livro Fantasias, Crenças e Crendices (2011) ele cunha o termo “Sincretismo Sensual” para entender o misticismo em torno da religiosidade no Brasil. Elementos da Igreja Católica, do candomblé, do bantu: todas compõem parte de seu credo. Por isso, quando entram os atabaques em “Do Além”, escrita com Arthur Maia, a reverência à Africa ultrapassa a apreciação musical. ‘Descobri que a magia vem dos ancestrais’, diz, citando Angola, Uganda, Nigéria, Cabo Verde, Benim e Algéria, como se elas completassem o pedaço que a divisão das placas tectônicas separou do Brasil.

As múltiplas e complexas facetas de Martinho da Vila podem ser usuais para quem cavucou bem mais a fundo que “Devagar, Devagarinho”. Mas, ainda assim, é improvável a parceria com o rapper paulistano Criolo em duas faixas: “Alegria, Minha Alegria!”, que mais parece um mero convite ao samba, com poucas rimas; e na faixa-título, uma continuidade do clima conversê.

São as duas canções menos inspiradas do disco, mas não por culpa de Criolo, mas sim do formato escolhido. Criolo entra numa cadência artificial, longe de extrapolar sua técnica do samba num estilo “Linha de Frente”.

De qualquer forma, elas não diminuem a representatividade de De Bem com a Vida. A experiência e a inteligência na forma de adequar ritmo, cadência, poesia e musicalidade permanecem na obra de Martinho da Vila. Mas, acima de tudo isso, trata-se de um disco com propósito, uma mensagem que tem o bem como finalidade. E isso também é político.

Outros lançamentos relevantes:

Frank Ocean: Blonde (Boys Don’t Cry)
Omar Rodriguez-Lopez: Blind Worms, Pious Swine (Ipecac)
Nels Cline: Lovers (Blue Note)
Gonjasufi: Callus (Warp)
Akira Tana: Stars Across The Ocean (Sons of Sound)

Errata:

• Usamos, erroneamente, a expressão positivismo, quando na verdade o certo seria otimismo. O termo positivismo vem da filosofia de Auguste Comte (1798-1857), que considera “como único e verdadeiro o conhecimento humano, baseando-se apenas em fatos da experiência”, segundo verbete do dicionário Michaelis.

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