A Nonesuch Records é um daqueles raros casos de gravadora bem-sucedida em duas frentes: tanto no catálogo artístico, como em seu alcance comercial.
Decerto que sua longevidade tenha a ver com o fato de ter sido adquirida pela Kinney National Company, em 1970, que depois se tornaria a mundialmente conhecida Warner Bros. Isso foi possível por conta das pretensões de seu fundador, Jac Holzman, em querer comercializar música de qualidade pelo preço vigente de LPs na época. Naquele momento, em meados de 1964, o catálogo era basicamente de música clássica europeia, principalmente barroca.
Por mais que soasse ambicioso, Holzman já era conhecedor da indústria musical. Na década de 1950, havia fundado a Elektra Records, que nos anos 1960, esteve envolvida na cena da música pop a partir do primeiro contato com a banda do guitarrista Paul Butterfield.
Com o surgimento da Nonesuch, Holzman decidiu que, primordialmente, ela serviria como subsidiária da Elektra, até que as vendas alavancaram e, comparativamente, tornou-se mais ‘valiosa’ que a gravadora-irmã. Após a negociação com a Warner, as duas praticamente tornaram-se apenas a Nonesuch.
Isso não quer dizer, claro, que a Nonesuch teria sua importância diminuída. Músicos ousados lançaram discos por essa gravadora.
É de se louvar a iniciativa de difundir discos pioneiros da música eletrônica, principalmente The Nonesuch Guide to Electronic Music (1968), em que Beaver & Krause mostram as infinitas possibilidades dos sintetizadores Moog. Isso foi possível graças à ousadia de Teresa Sterne, reconhecida pianista que assumiu a direção artística da gravadora entre 1965 e 1979.
Com o passar dos anos, tornou-se filosofia da Nonesuch explorar um contexto mais global da música, tão ignorada pelas demais majors norte-americanas. Além de divulgar gravações pouco conhecidas de clássicos de Schöenberg e Stravinsky, ela estimulou experimentadores como Morton Subotnick, George Crumb e Donald Martino a produzirem álbuns hoje considerados importantíssimos na música experimental como um todo. Foi também iniciativa de Sterne divulgar world music.
A história da Nonesuch, por si só, é motivo de sobra para comemorar seus mais de 50 anos de atividade. Mesmo quem nunca ouviu falar da gravadora precisa se antenar ao importante detalhe de que boa parte de artistas relevantes da música pop são de seu catálogo. Ou vai me dizer que não conhece The Black Keys, Björk, Wilco, David Byrne, Caetano Veloso ou Robert Plant? Ou Fatboy Slim? Ou Wanda Jackson?
Em setembro deste ano a Nonesuch realizou, em parceria com a Brooklyn Academy of Music, uma série de 20 dias de shows para comemorar seus 50 anos de existência. Um de seus momentos mais notáveis foi a reunião dos rivais Steve Reich e Philip Glass nos palcos. (Pouco se sabe o que causou o atrito entre os dois. Provavelmente, divergências artísticas ou algum outro fator de competitividade musical.)
Já que a importância da Nonesuch é praticamente incontestável, o Na Mira decidiu fazer um recorte de 15 discos que servem de ponto de partida para entender sua ampla contribuição musical. Como qualquer leitor daqui preveria, fugimos do senso-comum – apesar de não negar outros, como Yankee Hotel Foxtrot (2002), pelo simples fato de que não deve ser ignorado.
Assim como é a premissa da Nonesuch, tentamos criar uma lista exploratória para os neófitos fisgarem parte do propósito da gravadora.
Da calmaria zen do japonês Kohachiro Miyata ao avant-garde barulhento e impulsivo de John Zorn, eis uma lista para ajudar assoprar as velas de uma gravadora que merece completar decênios e decênios de aniversários.
Aventure-se:

Momente: For Soprano, 4 Choral Groups and 13 Instrumentalists (Version 1965)
Karlheinz Stockhausen
Gênero: Clássica
Data de Lançamento: 1965
É preciso ter mais sensação e percepção que qualquer senso estético para entender uma das mais icônicas obras deste importante compositor alemão. Importante, por sinal, ainda é pouco para definir Karlheinz Stockhausen: como um dos mais célebres e controversos músicos dos séculos XX e XXI, Stockhausen prosseguiu com técnicas pós-tonais iniciadas por Schöenberg, foi o primeiro a flertar com a eletrônica e abriu as possibilidades aos experimentos com eletroacústica, cujo espaço, projeção e localização são determinantes no processo de compor. Escrito entre 1962 e 1969, Momente faz parte de mais um dos momentos de rupturas do compositor. Com o soprano ora exasperante, ora esparso de Martina Arroyo e o auxílio de Aloys Kontarsky no órgão, mais um total de 13 músicos e quatro corais, os espaços musicais são preenchidos por tensão, alvoroço, palidez, drones e inversões que num primeiro momento soam incompreensíveis, mas depois nos revela a inquietude do gênio que melhor compreendeu o pós-II Guerra Mundial na música. Esta seria a 2ª versão de Momente apresentada de forma bem-sucedida. A primeira foi em 1962, em Cologne (Itália), numa versão incompleta. Depois de reformulada, teve esta versão, lançada em LP na época pela gravadora alemã Wergo (e distribuída ao mundo pela Nonesuch), cuja musicalidade viria a influenciar músicos do porte de Miles Davis e Beatles. (Houve uma terceira versão, mais conhecida, mostrada ao público em 1972 com grande ar teatral.)
Ouça: disco na íntegra

Silver Apples of the Moon / The Wild Bull
Morton Subotnick
Gênero: Eletrônica
Data de Lançamento: 1967/1968
Senhoras e senhores, talvez se não fosse por Morton Subotnick a eletrônica demoraria séculos para se desenvolver. Dono do primeiro disco do gênero a ser lançado por uma gravadora, Subotnick destrinchou a complexidade do sintetizador modular, criado pelo comparsa Don Buchla. Compôs uma obra crua, praticamente dadaísta, como bem sintetizou o crítico Piero Scaruffi. Claro que muitos devem ter torcido o nariz com a mecânica tão disforme que levou Subotnick a tomar gosto por timbres não usuais em sua obra. Enquanto Silver Apples… inicia espécie de ciclo de desenvolvimento da eletrônica, The Wild Bull entona os primeiros beats de dança, ainda que essa não tenha sido a sua premissa. Observe o andamento da 1ª parte do disco: é como se o techno e acid house se manifestassem como pequenas células. Influenciou na empreitada sônica do músico o fato de trabalhar como diretor artístico do Electric Circus, que teria o Velvet Underground como residente nos idos de 1966. Foi o ponto de partida para que o outrora virtuoso instrumentista desse preferência às composições em sua forma mais experimental e – na falta de outro termo – revolucionária. Os dois discos foram lançados em datas diferentes e compilados em um mesmo CD pela Wergo, em 1993.
Ouça: “Silver Apples of the Moon”

The Nonesuch Guide to Electronic Music
Beaver & Krause
Gênero: Eletrônica
Data de Lançamento: 1968
Adquirir via Discogs
Ouvindo este disco hoje, pouca relação encontramos com a música eletrônica. É mais uma espécie de manual de como fazer som com os sintetizadores Moog, que ainda hoje mantêm fanáticos por sua sonoridade. De George Martin a Ray Manzarek, uma geração inteira do rock sessentista deixou-se influenciar pelas possibilidades sônicas deste registro. Os músicos Paul Beaver e Bernie Krause testaram ritmos e combinações que fazem de Nonesuch Guide laboratório essencial para entender o alcance do Moog. Perceber a unidade do disco é um dos grandes desafios do ouvinte que quiser se deparar com os 48 minutos da obra. Sim, ela existe, mas flui de forma difusa e nada programática. Graças a Beaver & Krause, o pop ganhou um instrumento a mais, definidora de uma geração ligada à psicodelia.
Ouça: disco na íntegra

Shakuhachi: The Japanese Flute
Kohachiro Miyata
Gênero: Ambient
Data de Lançamento: 1977
O shakuhachi existe: é uma flauta milenar na cultura oriental. Feita de bambu, com escalas menores, este instrumento praticamente se afeiçoou à cultura zen. Para entender os alcances deste instrumento, não haveria de ter disco melhor que esse de Kohachiro Miyata, espécie de mantra para artistas como o argentino Rodrigo Rodriguez e Larry Tyrell, que propaga a ‘música transcultural’. Não espere arroubos; este é um disco quieto, como se estivéssemos contemplando um samurai em meditação. É um disco muito mais sobre respiração e possibilidades de tempos musicais, que nos cativa por seu formato contemplativo.
Ouça: “Honshirabe”

Music For 18 Musicians
Steve Reich
Gênero: Clássico/Minimalismo
Data de Lançamento: 1978
Qualquer superlativo é pouco para a mais complexa obra de Steve Reich. A empreitada foi ousada. Já conhecido nos círculos acadêmicos com obras para piano, órgão, violino e percussão, o músico montou uma estrutura de, hum, 18 músicos para criar uma obra modular. Suas linhas repetitivas têm pequenas variações, como se a música fosse dona de sua própria organicidade. Separado em 12 seções, em cerca de 1h o ouvinte transporta-se a um afluente musical que beira a divindade. Uma geração inteira tornou-se influenciada por Reich antes mesmo que Music For 18 Musicians fosse lançado. Depois deste disco, King Crimson não foi mais o mesmo, Brian Eno não foi mais o mesmo, nem toda a noção de minimalismo foi a mesma. Com a premissa de explorar as possibilidades da psicoacústica (a forma mais sensorial de percepção musical), as pulsações do clarinete, o piano em continuum, as vozes em respiração, junto a uma grande orquestra matematizada pelo compositor norte-americano, trouxeram novas formas de exploração musical. Impossível mensurar o impacto desta belezura.
Ouça: disco na íntegra

Koyaanisqatsi
Philip Glass
Gênero: Clássico/Minimalismo/Trilha Sonora
Data de Lançamento: 1983
Tem que ter paciência para assistir ao documentário Koyaanisqatsi, dirigido por Godfrey Reggio. Sem fala, mostra paisagens e cidades naturais dos Estados Unidos com efeitos subjetivos de câmera. A música de Philip Glass se adequa à proposta porque parece dar sentimento a essas imagens. Ainda que esteja muito associado ao que chamam de minimalismo, Koyaanisqatsi irrompe como se revelasse o estado melancólico de tudo que observamos à distância. A estrutura harmônica com que rege sua orquestra vai de encontro à tensão de forma esplêndida – basta observar “The Grid” e “Resource”. Um ano antes o compositor havia lançado o influente Glassworks, ainda hoje a melhor porta de entradas para conhecer o seu trabalho. Mas foi com Koyaanisqatsi que o público pôde captar melhor a experiência sensorial de sua música. Assim como Steve Reich, com quem mantém rivalidade artística até hoje (não interessa se tenham se apresentados juntos ou não no recente festival comemorativo de 50 anos da Nonesuch), Philip Glass é peça fundamental na música como um todo. Brian Eno, Klaus Schulze e Björk que o digam…
Ouça: disco na íntegra

Big Science
Laurie Anderson
Gênero: Avant-garde
Data de Lançamento: abril de 1982
A futura esposa de Lou Reed preveu, com acerto, que tudo no futuro seria automatizado. A julgar por Big Science isso não é algo tão ruim assim – mesmo que alguns ouvintes se assustem com a solidão de uma transeunte por uma cidade vazia, da faixa-título. Boa parte das obras que se dedicaram a traçar uma perspectiva do futuro por vias científicas usavam a melancolia como artifício do desconhecido. Laurie Anderson faz diferente; busca musicalmente o incerto sem as apreensões intrínsecas a obras desse tipo. Mais densamente que Vangelis, Laurie foi exploratória até o fim neste que, até hoje, é o seu disco mais importante. Dificilmente o ouvinte não terá percepções sensoriais alteradas após “Born, Never Asked” ou “It Tango”. E dificilmente campos musicais sci-fi se abririam para Kid A (2000) ou Biophilia (2011), ainda que Big Science disparadamente permaneça à frente no fator estranheza.
Obs: O lançamento original deste disco foi feito pela Warner Bros, em um contrato que previa 7 discos. Em 2007, foi relançado em CD pela Nonesuch, também adquirida pela Warner.
Ouça: “O Superman”

Before We Were Born
Bill Frisell
Gênero: Jazz post-bop
Data de Lançamento: 1989
Quando se fala de guitarristas de jazz, Bill Frisell está próximo do topo. O quinto disco solo do instrumentista que fez dezenas de colaborações (de Ron Carter a Carrie Rodriguez) é eletrizante do início ao fim. A colaboração de Arto Lindsay como guitarrista dá uma impulsão forte; ao invés do avant-garde ou do fusion-jazz, o blues elétrico é ovacionado em suas linhas catárticas de composição. Não é apenas o título que sugere algo místico; a intensidade retrata bem as performances espirituosas de um guitarrista que ainda é pouco conhecido do público. Das notas espaciais do sax barítono de Doug Wieselman à bateria temperamental de Joey Baron, Before We Were Born ainda é a melhor porta de entrada para deixar-se trafegar pelas influências improváveis de Frisell – que incluem cha-cha-cha, música carnática, avant-garde. (O parceiro John Zorn colabora nos arranjos de “Hard Plains Drifter”.) Pois é, ele é praticamente completo… E toca guitarra pra cacete!
Ouça: “The Lone Ranger”

Naked City
John Zorn
Gênero: Avant-garde
Data de Lançamento: 16 de fevereiro de 1990
Era pra ser um workshop. Mas, músicos do porte de Bill Frisell (guitarra), Fred Frith (baixo), Wayne Horvitz (teclado) e Joey Baron (bateria) tinham que fazer algo juntos. Quem melhor que o saxofonista John Zorn pra eletrizar essa trupe? Discípulo de Ornette Coleman e um dos músicos de avant-garde mais produtivos, Zorn puxa da lentidão à agilidade do grindcore – quando não faz o contrário, como em “You Will Be Shot”. Toda e qualquer estrutura rítmica erigida é quebrada com solavancos em faixas que dificilmente ultrapassam os 3 minutos. Do surf ao punk, passando por trilhas de Batman e 007 e transfigurando Coleman (“Lonely Woman”), Enio Morricone (“The Sicilian Clan”), Jerry Goldsmith (“Chinatown”), entre outros, Naked City faz do jazz um trator impiedoso sobre qualquer ritmo que seja. Claro que o virtuosismo dos músicos é crucial nesse híbrido sonoro, mas milhões de testosteronas devem ter sido acionadas em petardos como “Demon Sanctuary”, “Ujaku” e “Speedball”, que dão o preview de uma empreitada ainda mais amalucada atingida no posterior Torture Garden (1990).
Ouça: “Demon Sanctuary”

Tuskegee Experiments
Don Byron
Gênero: Jazz
Data de Lançamento: 1992
Então considerado o “indiscutível melhor clarinetista norte-americano” pelo Wall Street Journal, Don Byron fez da ignorância dos norte-americanos negros usados como cobaia pelo Tuskegee Institute tema para as vísceras de suas notas. Dinâmicas, elas estatelam por sua eficácia, ainda mais impressionante que o virtuosismo. Não há exemplo melhor que “Tuskegee Strutter’s Ball”, a mais pancada do disco. O jazzista bebeu de fontes variadas numa obra cuja coesão se apoia por suas explorações multifacetadas. É possível mentalizar um Sonny Rollins afoito em “Next Love”, num disco que também desvenda Duke Ellington (“Main Stem”) e Schumann (“Auf einer Burg”) à intensa maneira de um compositor nascido no Bronx. A aclamação imediata não só tornou Tuskegee Experiments um dos melhores discos de jazz dos últimos 30 anos, como fez de Byron um instrumentista livre para passear por qualquer que fosse o gênero, do klezmer alemão ao rap.
Ouça: “Tuskegee Strutter’s Ball”

Gershwin Plays Gershwin: The Piano Rolls
George Gershwin
Gênero: Jazz/Clássico
Data de Lançamento: 1993
Você pode não ter percebido, mas você já se deparou com alguma composição de George Gershwin, seja em desenhos animados antigos, filmes em preto-e-branco ou em alguma ópera. Antes de sua morte por câncer cerebral, em 1937, o pianista aprendeu música clássica com Ravel, obteve aprovação de Schöenberg e fez parte da elite dos compositores norte-americanos que formavam o Tin Pan Alley (onde estreou com “When You Want ‘Em You Can’t Get ‘Em When You’ve Got ‘Em You Don’t Want”, com apenas 17 anos). A despeito de obras importantíssimas – cujo ápice é Porgy and Bess – o jazz era um dos grandes fascínios musicais do compositor. As construções melódicas de Gershwin seriam fortemente assimiladas pelo ragtime, uma estética mais dançante do jazz. Sua agilidade e intrigante forma de tocar piano despertavam vigor popular. Por isso, as 12 canções desta compilação soam tão familiares às nossas referências pessoais. Gravadas entre abril de 1926 e junho de 1933, as faixas de The Piano Rolls formam um compêndio de preciosidade técnica. Dentre os destaques, deixe rolar os 16 minutos de “An American in Paris”; perceba como ele altera tempos musicais de forma geniosa. Maravilhe-se também com a singular “Rhapsody in Blue”.
Ouça: “Rhapsody in Blue”

Buena Vista Social Club
Buena Vista Social Club
Gênero: Música cubana
Data de Lançamento: 16 de setembro de 1997
Ry Cooder foi dar um rolê em Cuba a convite do produtor Nick Gold em busca de sessões de músicos cubanos e malineses. Encontrou a mais pura música tradicional, (de muito tempo antes da sombria ditadura de Fulgencio Batista) de músicos antigos do porte de Compay Segundo, Rubén González, Omara Portuondo e Ibrahim Ferrer, que cantaram no clube de mesmo nome que fez bastante sucesso nos anos 1940. O encontro não apenas gerou um dos grandes discos latinos de toda a década de 1990; trouxe um revival à música cubana estrondoso, colocando-a no mapa de uma das melhores de todo o globo. A partir deste disco uma geração inteira se deparou com a força avassaladora da música cubana. Bolero, guajira, salsa e faixas como a dançante “El Cuarto de Tula” e a baladaça “Dos Gardenias” são algumas das muitas pérolas deste disco. Cooder colabora nos violões e conta com um time grande e de forte peso – como o baixo de Orlando ‘Cachaito’ Lopez, as maracas de Alberto Valdés e a colaboração valiosa de Juan de Marcos González. Infelizmente os malineses não puderam viajar à Cuba naquele momento, mas a História não deixaria que esse encontro deixasse de existir – vide o influente Afrocubism (2010).
Ouça: “Chan Chan”

Yankee Hotel Foxtrot
Wilco
Gênero: Indie-rock
Data de Lançamento: 22 de abril de 2002
O Wilco teve o lançamento de seu quarto álbum rejeitado pela Reprise Records. O efeito reverso foi grande: eles postaram o disco no site oficial e, como prova de que saíram perdendo, a Warner, major da Reprise, fechou um contrato por meio da Nonesuch. O líder Jeff Tweedy já era reconhecido por sua renovação no folk norte-americano com o Uncle Tupelo; por isso, quando decidiu formar o Wilco, pendeu aos acertos. Mais de uma década depois, Yankee Hotel Foxtrot mantém-se imbatível no topo. Uns creditam as maluquices de Jim O’Rourke como fator determinante, o que é minimamente verdadeiro. A banda soa portentosa em faixas como “I’m the Man Who Loves You”, emocionando como poucas bandas de rock conseguem atualmente. Os efeitos de guitarra em “War On War” são acachapantes e que composição é “Ashes of American Flags”, hein! ‘Todas as minhas mentiras sempre foram desejos/Sei que morreria se pudesse voltar de novo’. Se é ao terreno indie que Yankee Hotel Foxtrot pertence, provavelmente este é o seu bem mais precioso.
Ouça: “Ashes of American Flags”

Doctor Atomic Symphony/Guide to Strange Places
John Adams
Gênero: Clássica
Data de Lançamento: 20 de julho de 2009
O que passava pela cabeça de Robert J. Oppenheimer quando dirigiu o Projeto Manhattan para desenvolver a bomba atômica? O compositor John Adams tenta refazer sonicamente a psique e inseri-la no contexto tanto do pré, como do pós-guerra. “The Laboratory” mostra ao ouvinte que havia algo relacionado à curiosidade. Ao lado da Saint Louis Symphony Orchestra, regida por David Robertson, o compositor cria uma obra exploratória, que une humano, ciência e estados da mente. “Panic” tem muito de seus traços da música minimalista; é lenta, silenciosa. Na sequência, “Trinity”, Adams soa mais dramático, sugerindo exasperação com a intensidade dos instrumentos de corda, até que tudo se dissipa, como se antevesse o clarão. Há moralidade no disco, mas ela é tão difusa quanto a linearidade de nossos pensamentos. Para o relançamento do disco (a primeira versão é de 2005), a Nonesuch incluiu no pacote a obra Guide to Strange Places, cuja tensão revela um John Adams misteriosamente agitado – mas que aos poucos doma as rédeas musicais.
Ouça: “Doctor Atomic Symphony Part I”

Ali & Toumani
Ali Farka Touré & Toumani Diabaté
Gênero: Blues africano
Data de Lançamento: 23 de fevereiro de 2010
Uma guitarra e uma kora proporcionam momentos relaxantes. Não há como não pensar em paz ao ouvir este disco. As confluentes melodias criadas por estes malineses são de purificar corações atônitos, de desvanecer qualquer tipo de estresse emocional. Este disco fez belíssimo jus à memória do guitarrista Ali Farka Touré, que faleceu em 2006 devido a um câncer nos ossos. A sonoridade no disco é de um blues singelo, quase desértico. Gravado em 2005, pouco antes de Touré receber seu segundo Emmy, Ali & Toumani tem cada acorde valorizado por uma pureza ímpar, quebrado apenas nas poucas faixas com vocais de Vieux Farka Touré, Souleye Kané e Ali Magassa (“Sabu Yerkoy”). Como bem disse a crítica do The Guardian, Kitty Empire: “Este álbum brilhante é totalmente o oposto de duelos musicais; anacrônico, na melhor forma possível”.
Ouça: “Ruby”
