O nome do EP é Silence, mas não vá cair na armadilha de achar que vai se deparar com um som minimalista ou no conceito (anti-)sonoro de John Cage.
Primeiro trabalho solo do paulista Filipe C. (de Consolini), Silence tem mais a ver com a quietude de uma relação – um estado contemplativo que surge naquele momento que percebemos o que estamos sentindo.
Numa audição, pululam imagens em espiral diante das canções de Filipe. No momento do refrão de “Empty Spaces”, nossas visões poderiam se distorcer com a voz do cantor se alinhando ao crescendo dos instrumentos.
“Before We Got Sober” é puro desejo: o músico tem noção de que gostaria de estar em um lugar diferente, ‘mas está bem longe disso’ (como canta em inglês). Com cordas cristalinas e levada flutuante, é uma balada com todos os requintes para agradar fãs de música indie de qualidade.
Mas, calma, o EP não é só melancolia: logo em seguida, entra “That’s the Way It Is”, com um piano dinâmico que evoca movimento – ou passos de dança. A bateria intercala a velocidade da canção, e o piano elétrico gera um sentimento de inquietude. Puro exemplo de manifestação dos sentidos interiores – por mais que você esteja calado contemplando o silêncio.
Repleto de camadas como teclados, baterias, guitarras indie e produções orquestradas, Silence serve como trilha meditativa de inverno. As composições são em inglês e floresceram em um período bastante produtivo para Filipe C., que já integrou bandas do circuito independente como Venus Volts, Volantes e FingerFingerrr.
O Na Mira conversou com Filipe C. sobre como surgiu a ideia do EP, influências musicais, sua relação com a música e outras coisas mais. Confira:
Como surgiu a ideia de gravar o EP Silence?
Não premeditei gravar um EP e lançar. Desde outubro [de 2011] comecei a gravar umas músicas, passei por uma fase muito produtiva. Algumas se destacaram e percebi que todas tinham uma relação entre si: sempre tinha piano, cordas, uma coisa que ligava às outras. E aí eu falei: ‘pô, não vou morrer com essas músicas no HD’. Organizei e lancei.
Comecei a perceber a estética e o ponto em comum entre elas. E a ideia do silêncio é reflexo do silêncio de um relacionamento – não tem a nada ver com o minimalismo na música. Até porque o EP é cheio de camadas.
Você quem tocou todos os instrumentos?
Sim. Porque eu trabalho com publicidade, faço trilhas, tenho equipamentos e fluiu muito natural.
Você já integrou bandas como o FingerFingerrr, Venus Volts, Volantes… Como isso agregou ao seu trabalho?
Entrei na FingerFingerrr há cinco anos atrás e começamos a gravar o disco. Não rolou, mas o processo de gravação foi com produtora e, nesse processo, foram seis meses entre a gravação e a mixagem. Ali aprendi muitas coisas de estúdio.
Na Venus, entrei em 2009. Na época, eles estavam mais envolvidos com a MTV e fizemos muita coisa ao vivo, tocamos em muitos lugares. Isso me envolveu na parte de shows. Tocamos em muitos festivais, na Virada Cultural do interior, tocamos pra 18 mil pessoas abrindo pra Pitty…
E, na Volantes, [aprendi] mais sobre planejamento interno: reunião pra fazer uma coisa para três, quatro meses depois. Senti que o pacote foi como uma faculdade; você vai aprendendo na prática para articular as coisas relacionadas à música: gravação, shows e planejamento.
Já tem um roteiro montado de como realizar os shows do EP?
Em outubro faremos o primeiro show na Casa do Mancha. A partir daí, vou atrás de show. Comecei muito recente com isso, e demanda certo tempo trabalhar, negociar, conhecer as pessoas. Mas eu tenho tido uma abertura maior do que imaginava, as pessoas querem conversar e conhecer o trabalho.
Sobre ficar baixando várias coisas, se ligando o tempo inteiro: pro cara que vai compor é interessante até certo ponto. Tem que saber a hora de parar isso. Senão entra como ruído, entope a personalidade da música dele
Sobre músicos nos shows: você contratou, chamou amigos, como se deu essa relação de construir Silence ao vivo?
Essa é uma das coisas boas de ser músico. Passei por várias bandas e conheci muita gente legal. Acho que contratar um cara é legal porque me dá liberdade pra criar e experimentar à vontade, sem ninguém influenciando. Quero seguir dessa forma. Tem coisas que quero testar que às vezes, com uma banda, você não consegue.
Em uma descrição no site RockinPress, já te nomearam como ‘Beck tupiniquim’. Como você encara as comparações?
Esse lance do Beck tem um pouco a ver com a Venus: lançamos um clipe no ano passado que era eletrorock, nada a ver com o que fiz agora. E a FingerFingerrr é quase hip hop. Acho que ele juntou tudo isso, porque vou pra vários caminhos diferentes. E, putz, adoro Beck!
Além de Beck, vi um pouco de Beach House no seu EP…
Cara, nunca ouvi Beach House. É que as pessoas vão comparando com umas coisas que nunca ouvi. Sou muito desligado. Dia desses estava conversando sobre ficar baixando várias coisas, se ligando o tempo inteiro. Acho que, para o crítico ou jornalista, isso é interessante, pra saber o que está acontecendo.
Mas pro cara que vai compor é interessante até certo ponto. Tem que saber a hora de parar isso. Tipo: ‘agora sei o que está rolando, vou pegar algumas coisas do que ouvi para compor o meu trabalho’. Senão entra como ruído, entope a personalidade da música dele.
Falando de influências, quais são as suas? O que você tem escutado ultimamente?
Tenho ouvido Lou Reed (bastante Transformer), voltei a ouvir Morphine… Gosto muito de Eliott Smith. Tenho ouvindo Metronomy (The English Riviera), adoro Justice. O primeiro CD gostei mais, mas o segundo eu entendi.
Você pensa em compor em português?
Ainda não parei pra pensar. Tenho vontade sim, mas sem pressa. Até porque compor em inglês, pra mim, sempre foi uma coisa natural, mesmo nas outras bandas que toquei. Agora é aproveitar o que o Silence está proporcionando à minha carreira e ir atrás disso, com essa linguagem e com o público que ele atingir.
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Créditos da Imagem: Monkeybuzz
