10. Kitsch Pop Cult

Felipe Cordeiro

Gravadora: Independente
Gênero: Música Nortista
Texto: Felipe Cordeiro e a transfiguração de brega em cult

Trilhas de cinema clássico em meio a uma lambada; carimbó com salsa; forró e cuba libre com limão. Um dos grandes nomes da música brasileira, só com este disco, é Felipe Cordeiro. Uma cozinha do popular com o ‘cult’ é igual farinha com o créme-de-la-créme do melhor da culinária mundial. Como isso é trazido para a música? Mais ou menos isso: ‘Felicidade não passa de uma maneira bem sofisticada de ser distraído‘.

Kitsch Pop Cult pode ser entendido como reprocessamento estético de todos os elementos da música nortista, do Pará ao Amazonas. Onde há guitarrada (bem experimentada pelo pai Manoel Cordeiro), também pode haver um baixo solapado e um chameguinho, como faz em “Café Pequeno”. O pouco que era entendido por todo o Brasil de música nortista foi elevado a outros patamares depois desse disco arriscado, divertido e rico, muito rico em musicalidade.

Ouça: “Legal e Ilegal”

9. Arrocha

Curumin

Gravadora: Independente
Gênero: Experimental
Texto: Crítica do Na Mira do Groove

Considerado pelo Na Mira o melhor disco nacional dos anos 2000, Japan Pop Show é o trabalho que faz a assimilação mais bem-sucedida dos novos tempos que passamos. Diferentemente do trabalho anterior, Arrocha é direcionado aos problemas que envolvem a natureza.

Nele, o baterista optou por fazer um trabalho de produção mais caseira. Para falar sobre o tema, Curumin continua divertido como sempre (‘a lua atiça a cachorrada’, como canta em “Selvage”) e sabe falar bonito de natureza em uma de suas canções mais bonitas: “Passarinho” (‘não tem gaiola que possa me segurar’). E o reggae de “Doce”, então? (É de fazer chorar ao olhar pela janela do trem a situação da Marginal Pinheiros.) Coisa linda também é a releitura de “Vestido de Prata”, de Paulinho Boca de Cantor: um belo dum presente pro ouvinte!

Ouça: “Afoxoque”

8. O Deus Que Devasta Mas Também Cura

Lucas Santtana

Gravadora: Diginois
Gênero: MPB
Texto: Crítica do Na Mira do Groove

Nos trabalhos anteriores, Lucas Santtana de alguma forma remexeu com a estética brasileira – algo levado mais a fundo no anterior Sem Nostalgia (2009). Em seu quinto disco, o compositor baiano quis externar seus sentimentalismos, provavelmente após a separação de sua ex-mulher que parece deteriorar o cenário da faixa-título, já mostrada anteriormente em Memórias Luso-Africanas, de Gui Amabis.

É por conta dessa ‘devastação’ que Lucas recorre pela primeira vez a um familiar: o filho Moisés, que contribui e muito bem na sambista “Dia de Furar Onda no Mar”. Mas, calma, não vá achar que o disco é extremamente melancólico. Mais uma vez Lucas exerce seu dom de um dos melhores compositores de nossa geração na irrequieta “Jogos Madrugais” e descreve de forma inteligente a maior de nossas megalópoles em “Se Pá Ska S.P.”: ‘É só sair na rua e ter a sensação/De que estamos sós desde a barriga até o caixão’.

Ouça: “Se Pá Ska S.P.”

7. Tudo Tanto

Tulipa Ruiz

Gravadora: Independente
Gênero: MPB/Pop-Rock
Texto: Tulipa Ruiz – pode ser ou é? – a maior das cantoras atuais

Como uma das cantoras mais singelas da nova música se transformou numa possível estrela do pop-rock? Não é só porque Lulu Santos canta junto no belo dueto de “Dois Cafés”; no segundo disco, a cantora se arriscou e desgastou e muito sua voz em canções que pareciam inimagináveis para a autora de Efêmera (2010), como “Víbora” e “Like This”, as mais letárgicas do disco.

Apesar dos novos ares, Tulipa Ruiz não fez mudança radical em relação ao trabalho anterior. É fato que as composições estão melhores – e até mais grudentas, como “É” e a bela produção ventosa de “Quando Eu Achar”. Com Tudo Tanto, o que era aposta em 2010 firmou-se como axioma: Tulipa Ruiz é uma das maiores cantoras da atualidade e ponto final.

Ouça: “Expectativa”

6. Mental Surf

Psilosamples

Gravadora: Desmonta
Gênero: Eletrônica
Texto: Crítica da + Soma

Zé Rolê é o nome dele. O mineiro de Pouso Alegre criou uma música eletrônica própria unindo synths a sanfonas de forró (“Ovelha Negra”), sem medo de ali jogar um prog ou uma batida eletro que, por incrível que pareça, estão em velocidades equiparadas. Além de sintetizar elementos distintos entre si, o Psilosamples se destaca pelo humor incontido em diálogos e barulhos corriqueiros (nada mais natural para um produtor que fez música a partir de falas do Chaves).

Uma vez que o ritmo tradicional brasileiro trabalhado por Zé Rolê tem características dançantes, em Mental Surf o que se vê são intersecções que se chocam. Assim, um corte brusco que soaria amador na mão de outro, na música do Psilosamples surge como parte de um entrelaçamento musical (perceba isso em “O Príncipe da Roça”). Quer dizer então que programação de computador tem a ver com a música naturalista de Hermeto Pascoal? Em Mental Surf, capaz que sim.

Ouça: “Bom Dia Menina Pelada!”

5. Sintoniza Lá

BNegão & os Seletores de Frequência

Gravadora: Coqueiro Verde
Gênero: Funk/Soul Brasileiro
Texto: Crítica do Na Mira do Groove

Foram 9 anos para que Bernardo Santos lançasse o sucessor de Enxugando Gelo (2003) com os Seletores de Frequência. Com o imaginário alerta do público do Planet Hemp com a eterna volta, naquele ano alguns entenderam o disco como um ‘projeto paralelo’. Bom, o segundo disco, por si só, desmonta essa ideia – e prova que BNegão está mais sedento do que nunca por musicalidade.

Os metais fervem do começo ao fim em Sintoniza Lá. Da poderosa “Alteração (Éa)!”, passando pelo funk contagiante de “Proceder/Caminhar”, a dançante “Essa é Pra Tocar no Baile” até o encerramento com a faixa-título, os Seletores de Frequência tocam com propriedade inúmeras ramificações da música negra, do soul ao brazilian funk, sem esquecer o ‘hard-core dos Bad Brains‘ no petardo instrumental “Subconsciente”, bate-cabeça que lembra as mais enérgicas músicas do Planet Hemp.

Ouça: “Essa é Pra Tocar no Baile”

4. Aurora

Miranda Kassin

Gravadora: Independente
Gênero: MPB
Texto: Matéria da Folha sobre o disco

Conhecida por interpretar canções de Amy Winehouse e dar uma nova roupagem para clássicos não tão conhecidos assim com o louvável Hits do Underground (2010), Miranda Kassin há muito era repudiada por não ter um trabalho autoral. Como resposta, Aurora é um dedo do meio bem dado para quem achava que o talento da cantora estava eriçado em músicas alheias.

O melhor de Aurora é que Miranda não tem pretensão nenhuma de ser melhor que as outras e, o mais importante, como as outras. Músicas como “Para Pensa” e “Prisão” vão além da MPB; a primeira tem uma dinâmica country-folk de pegada, enquanto a segunda une o baixo sombrio a um clima retrô bem interposto. O que para algumas seria ‘vale prestar atenção naquela música’, no caso de Miranda ganha tônica maior: “Escarcéu” e “Driving Alone” provam que todo esse tempo sem composições abrilhantou uma técnica que estava guardada há anos. Sorte nossa, e azar de quem duvidou.

Ouça: “Prisão”

3. Avante

Siba

Gravadora: Independente
Gênero: Música Nordestina
Texto: Crítica do Na Mira do Groove

Download pelo site oficial

Avante é um título sugestivo e definidor desse novo salto na carreira de Siba. Depois de tocar muito frevo e reprocessar diversos estilos nordestinos com as bandas Mestre Ambrósio e a Fuloresta, o cantor pernambucano assumiu a guitarra de vez e trabalhou sua rica poesia de outra forma, com ajuda de Fernando Catatau na produção.

Essa nova empreitada de Siba não só tornou sua sonoridade mais acessível a um público mais amplo, como é reflexo de um estalar poético que não poderia ser documentado de outra forma. Ele chama a brisa de ‘carinhosa’ e punidora, diz gostar do ‘amor sonolento’ em “Ariana” e revela, em “A Bagaceira”: ‘Eu não fico legal/Com água mineral/Pode acabar-se o mundo/Vou brincar no Carnaval’.

Avante, mais que um belo disco, é a busca bem-sucedida de um artista que já conhece muito de música e entende muito de poesia – seja ela complexa, como em “Qasida”, ou seja a poesia de forte apreço popular de “Canoa Furada”.

Ouça: “Canoa Furada”

2. MetaL MetaL

Metá Metá

Gravadora: Independente
Gênero: Afro-Punk
Texto: Crítica do Na Mira do Groove

Download gratuito pelo site de Kiko Dinucci

Incrível perceber como a parceria entre Kiko Dinucci e Juçara Marçal explorou novos rumos musicais em pouco tempo: do cancioneiro afro de Padê (2008), passando pelo gênero quase amazônico de Metá Metá (2011, com adição de Thiago França) até a fúria expelida de MetaL MetaL, os músicos descobriram novas formas de cantar, tocar e experimentar em pouco mais de quatro anos.

Já catalogado como afro-punk, em MetaL MetaL a cantora Juçara Marçal já começa jogando um fuzz em “Exu”. Logo, a guitarra de Kiko Dinucci flerta com o rock em “Oya”, que deixa bem perceptível o baixo de Marcelo Cabral (que também participa do disco). “Man Feriman”, de domínio popular, é uma elegia roqueira tomada por metais e pela bateria incandescente de Sérgio Machado, contribuição valiosa desde o disco anterior.

Para provar que o Metá Metá vai a fundo em suas experimentações, em “Cobra Rasteira” (composição de Kiko Dinucci) os músicos trafegam numa via mais latinizada e dançante, pra não ficar apenas na agressividade.

Ouça: “Oya”

1. Bahia Fantástica

Rodrigo Campos

Gravadora: Independente
Gênero: Música Soul
Texto: Entrevista com Rodrigo Campos sobre o disco

Pense em um lugar e o visite. E se, nesse lugar pensado, você fosse surpreendido com imagens que distorcessem aquilo que havia idealizado, não de forma que seja melhor ou pior, mas de forma que vá lhe trazer um ensinamento, novas formas de ver as coisas, uma entropia? Mais ou menos isso que Rodrigo Campos deve ter passado ao conceber Bahia Fantástica, depois de visitar o estado retratado numa fase de questionamentos pessoais.

Ali tem a morte, mas uma morte cheia de vida: em “Princesa do Mar”, uma garotinha é afogada, mas ‘vira na maré mansa’; o medo de morrer é a pedra no sapato de um assaltante em “Sete Vela”; o personagem de “Elias” ‘vai nascer de novo’.

Em tempos onde o apocalipse toma conta do noticiário – e invade o imaginário testando fés e convicções com o ‘fim do mundo’ – a morte é sempre vista como um fim carente de análise. Tudo vale se não morrermos. Bahia Fantástica está aí para provar que, além de ser consequência natural da vida, a morte pode ser carregada de beleza (justificada pela esplêndida sonoridade do disco). A todo momento convivemos com ela e, sem saber, com ela flertamos. Não adianta encarar, uma hora acontece; o estado fúnebre é inevitável, difícil – e isso também tem sua beleza, que poucos conseguiram enxergar com maestria como Rodrigo Campos fez em Bahia Fantástica.

Ouça: “Aninha”

Numa lista, fica assim:

1. Rodrigo Campos: Bahia Fantástica
2. Metá Metá: MetaL MetaL
3. Siba: Avante
4. Miranda Kassin: Aurora
5. BNegão & os Seletores de Frequência: Sintoniza Lá
6. Psilosamples: Mental Surf
7. Tulipa Ruiz: Tudo Tanto
8. Lucas Santtana: O Deus Que Devasta Mas Também Cura
9. Curumin: Arrocha
10. Felipe Cordeiro: Kitsch Pop Cult
11. Céu: Caravana Sereia Bloom
12. Jair Naves: E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas
13. Caetano Veloso: Abraçaço
14. Sambanzo: Sambanzo, Etiópia
15. Cascadura: Aleluia
16. Orquestra Contemporânea de Olinda: Pra Ficar
17. Dona Onete: Feitiço Caboclo
18. Sobre a Máquina: Sobre a Máquina
19. Cabruêra: Nordeste Oculto
20. SILVA: Claridão
21. Macaco Bong: This is Rolê
22. Quinteto em Branco e Preto: Quinteto
23. Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra & Toumani Diabaté: A Curva da Cintura
24. Tom Zé: Tropicália Lixo Lógico
25. Gui Amabis: Trabalhos Carnívoros
26. Los Sebosos Postizos: Los Sebosos Postizos Interpretam Jorge Ben Jor
27. Cris Braun: Fábula
28. Filipe C.: Silence
29. Orquestra Imperial: Fazendo as Pazes Com o Swing
30. Amplexos: A Música da Alma

E aí, concorda com a lista? Faça nos comentários também a sua.

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