
30. Underneath the Pine
Toro Y Moi
Gravadora: Carpark
Gênero: Chillwave
Chillwave não é um termo muito amigável para apresentar uma nova cena musical. Digamos que o Toro Y Moi (junto ao Washed Out e Neon Indian) faz colagens com canções mais dançantes – marcadamente a disco music dos anos 1980 – junto a referências indie. “New Beat” sintetiza essa renovação por meio de vocais que se esparramam aos efeitos espaçosos de sintetizadores e guitarras esfuziantes. Em uma entrevista ao jornal The Guardian, ele disse que queria soar como um My Bloody Valentine do hip hop. Talvez ele tenha se aproximado mais disso com o EP Freaking Out!, também lançado neste ano. Mas o produtor Chaz Bundick está mais abstrato e experimental neste álbum, talvez a melhor obra da chillwave até agora.
Faixa: “New Beat”

29. The Less You Know, the Better
DJ Shadow
Gravadora: Island
Gênero: Breakbeat
Quando o novo disco do DJ Shadow foi lançado, comparações com o revolucionário …Endtroducing foram inevitáveis. Se for levar por esse caminho, então teríamos que criticar todos os discos do Radiohead pós-Kid A, ou todos do Beck pós-Odelay, ou qualquer tentativa do Panda Bear pós-Person Pitch, certo? Deixando isso de lado, é muito fácil cair nas batidas estarrecedoras de um hip hop de salão pesado, repleto de energia e pungência. “I Gotta Rokk”, que não é pra qualquer pé acompanhar, foi lançada em um EP antes do disco oficial chegar às lojas. Shadow também abraçou de vez as novas possibilidades da música eletrônica ao chamar Yukimi Nagano, do Little Dragon, para cantar em “Scale It Back”. Em “Stay the Course”, faz um rap ágil junto aos vocais de Talib Kweli e Posdnuos (De La Soul), pontuado pelo drum’n bass e com uma escaleta de fundo. A única pena é que, nas 19 faixas do disco, não tenha sobrado espaço para entrar a parceria do DJ com Afrikan Boy em “I’m Excited”, que cairia muito bem por aqui.
Faixa: “Stay the Course” (ft. Talib Kweli & Posdnuos)

28. Rise Again
Lee ‘Scratch’ Perry
Gravadora: M.O.D. Technologies
Gênero: Dub
Aos 75 anos, Lee ‘Scratch’ Perry prova que o avançar de sua idade jamais irá atrofiar sua criatividade. Com muitas simbologias a explosões e viagens espaciais, o inventor do dub pode não ter mais a mesma voz dos anos 1970, mas a contorna com sonoridades imagéticas, seja na ida ao espaço em “Higher Level” ou na possibilidade de um primata dar golpes de kung-fu em “Dancehall Kung Fu”. Tunde Adebimpe, vocalista do TV On the Radio, contribui nos backing vocals de diversas faixas e o trompete de Steve Bernstein soa explosivo como uma câmara de gás que vai ser incendiada em “Wake the Dead”, onde Lee Perry grita um ‘FIRE!’ bem inspirado. O dub não morreu e, pelo jeito, parece que não se vai nem tão cedo. Só temos a agradecer!
Faixa: “Wake the Dead”

27. Blood Pressures
The Kills
Gravadora: Domino
Gênero: Rock
Você deve morrer de inveja de James Hince porque ele namora a lindíssima modelo Kate Moss mas, depois que ouvir o quarto disco do The Kills, pode ter mais um motivo para admirá-lo: ele divide palco com Alisson Mosshart, talvez uma das melhores performers femininas no rock atual. O punk sombrio e garageiro do duo está ainda mais frenético: “Future Starts Slow”, que inicia o disco, é um dueto de trilha de terror, borrado por guitarras sujas. Esse clima vai tomando o disco inteiro, até atingir um folk tomado pela impaciência com as baterias pulsantes de “Pots and Pans”. Quando Hince e Alisson anunciaram o disco, disseram que haviam assistido diversos filmes do Vietnã, se arrebentaram de tomar vinho tinto e quebraram bicicletas nos bairros de Key Club, em Michigan. É a pulsação disso tudo que é sentida com fervor em Blood Pressures.
Faixa: “Heart is a Beating Drum”

26. 21
Adele
Gravadora: XL Records
Gênero: Soul
O disco mais vendido do ano tem todos os motivos para permanecer no topo: é tomado por uma voz bela, que atinge diversas tonalidades com uma naturalidade incrível; é tomado por diferentes sentimentos, por conta do toque pessoal da cantora; é pop e cantarolável; é bonito; é palatável; e é muito mais. Apesar de o rádio e a televisão terem nos forçado a ouvir os singles “Rolling in the Deep” e “Someone Like You” exaustivamente, não jogue a culpa em Adele ou no disco 21. Ela sabe soar têmpera e madura em “Rumour Has It” e cai muito bem no rhytm’n blues em “I’ll Be Waiting”, que tem um lindo acompanhamento rítmico do piano. Outro bom destaque é “Set Fire to the Rain”, onde a voz da cantora é elevada a um clima neoclássico de uma trovadora que pode ser ouvida a quilômetros de distância. Que bom que uma artista como ela é quem está no topo.
Faixa: “Rumour Has It”

25. Computers and Blues
The Streets
Gravadora: 679
Gênero: Hip Hop
Mike Skinner deu adeus ao projeto com o The Streets para sair dos holofotes e desenvolver mais seu lado produtor. Mas não sem antes entregar um de seus melhores trabalhos. Ele é bem intricado e pode assustar em uma primeira audição: é que ele balanceia a crueza de Original Pirate Material com a consistência de A Grand Don’t Come For Free. Sem falar que é todo cibernético, talvez entregando a irônica mensagem de uma possível ‘automatização’ do rapper com o Streets. As batidas não induzem bem a breaks fabulosos, mas são repletas de uma introspecção recuada, que te faz prestar mais atenção nas composições – como em “Puzzled by People”. Mas, em “Soldiers”, por exemplo, Skinner evoca o jungle e arrebenta com profusões eletrônicas gélidas, que quebram ritmos. Uma pena que um grupo tão inventivo como os Streets tenha realmente acabado. “Estou recolhendo as coisas da minha mesa/Colocando em caixas/E desligando as luzes”, despede Skinner em “Lock the Locks”.
Faixa: “Soldiers”

24. w h o k i l l
tUnE-yArDs
Gravadora: 4AD
Gênero: Experimental
O lado tribal de Merrill Garbus é quase uma chicotada na veia. Ela criou praticamente uma nação onde a diversão e a estranheza caminham lado a lado. Para tanto, não haveria nome mais propício que a faixa “My Country” para abrir o disco, onde ela afirma estar num ‘doce lar de liberdade’. Ela cria esse novo espaço porque está cansada das rebeliões e adversidades de um mundo que parece um turbilhão. “Gangsta” é uma marcha tripulante que chama os habitantes deste novo país a expelirem seus instintos animais ‘porque o perigo chama no meio do caminho’. Apesar do nome, w h o k i l l é um disco de sobrevivência que tenta passar o discurso nefasto da violência através da violência, para o ouvinte sentir na pele as rajadas. Em “Riotriot” há um resumo confuso disso tudo: ‘Há uma liberdade intrínseca à violência que não consigo entender’, canta Merrill.
Faixa: “My Country”

23. Go Tell Fire to the Mountain
WU LYF
Gravadora: LYF
Gênero: Heavy Pop
Tem muita gente chamando o som do WU LYF de heavy pop só por causa de uma canção de mesmo nome gravada pelo grupo. Também por conta das declarações pesadas do frontman Ellery Roberts ao dizer que a “imprensa musical britânica utiliza a linguagem mais ridícula sempre que tem oportunidade”. O peso aqui se refere mais a uma balança do que concentração de massa. É como se uma voz do além estivesse ponderando o que há de humanamente executável com as interferências divinas, não importa de que lado seja. O que impera aqui é o caos, em diferentes doses de intensidade. Se por um lado “We Bros” é acessível e até te faz tentar aprender a letra, “Spitting Blood” é quase insípida, um thrash cult. Ah, e pra quem não sabe, WU LYF significa World Unite! Lucifer Youth Foundation.
Faixa: “Spitting Blood”

22. Rapping With Paul White
Paul White
Gravadora: One-Handed Music
Gênero: Hip Hop/Experimental
O produtor londrino deve ter acordado de um sonho perturbador e registrou todos os principais momentos em uma caderneta assim que acordou. Então, chamou alguns rappers promissores, como Danny Brown e Guilty Simpson, e colocou bases perversas, que não têm nem tanto a ver com os ensejos psicodélicos de seus trabalhos anteriores, nem tanta proximidade com o pop. São novas possibilidades, novos barulhos, novas abordagens. Se “Run Shit” é a exacerbação do cronicamente comerciável, “The Doldrums” é perturbadora, como aqueles momentos ininteligíveis de nossos sonhos que não sabemos como explicar. “Rotten Apples”, barulhenta que quase ensurdece, é incômoda e remete aos momentos de tontura que chegam a dar náuseas.
Faixa: “The Doldrums”

21. Bongos for Beatniks
The Bongolian
Gravadora: Blow Up
Gênero: Funk/Experimental
O início de “The Riviera Affair” é tão chocante como o funk carioca. Mas, calma, entram guitarras e efeitos eletrônicos tão pungentes, que você agradece. A zona de estranhamento diante do som do The Bongolian é algo que só vai se esvair a partir de uma segunda audição. ‘Enquanto isso, o que faço?’, você se pergunta, com razão. Deixe-se levar pelos órgãos hammond e caia na dança árabe de “Hamlet’s Playground”, que imagina o harém como uma estação espacial futurística que está pronta para devastar o que vier à frente, a qualquer momento. Sci-fi é outra referência bastante explorada: para comprovar, basta ouvir “V.C.O.” (que é meio Delicate Steve). As raízes da música funk são mantidas, com forte propensão para o gingado latino (“Lauren’s The Clock Maker”) e até mesmo o afro-beat é acelerado e levado ao absurdo em “Give it to Me (On the Left Side)”. Nunca mais você vai achar que o funk ficou preso à carreira de James Brown.
Faixa: “The Riviera Affair”
