Lodger

Data de Lançamento: 18 de maio de 1979
Gravadora: RCA
Avaliação: 7/10

O disco que encerra a trilogia de Berlim é o menos falado dos três – e também o que mais destoa da obra como um todo. Não há mais aquela obsessiva divisão entre faixas antológicas de um lado e atmosferas híbridas no lado B. Sem falar que boa parte das canções foi concluída e masterizada fora da Alemanha. David Bowie está menos sufocado com a conturbação de sua vida pessoal e se sente mais livre para explorar uma musicalidade mais aberta, exigindo maior aceleração vocal em “African Night Flight”, que soa como se tivéssemos apertado o botão avante x8 em um dos membros do Kraftwerk. Além de fazer menção à África, Bowie viaja para referências orientais em “Yassassin”, que estaria bem alocada num quadro de paródia a Bruce Lee. Disco menos pessimista de Bowie desde Pin Ups, Lodger abriu um leque ainda maior de possibilidades musicais para o cantor depois de um oportuno hibridismo criativo. É besteira querer colocar o álbum à altura de Low ou ‘Heroes’. Porque Lodger é a prova de que Bowie já estava renascido das trevas para se interessar em novas abordagens musicais – algo que ele intensificou a partir daí, alçando a genialidade sem deixar de escorregar em (muita!) casca de banana.

Ouça: “Yassassin”

Scary Monsters (and Super Creeps)

Data de Lançamento: 12 de setembro de 1980
Gravadora: RCA
Avaliação: 9/10

Lembra da referência oriental do disco anterior? Logo na primeira faixa do disco, “It’s No Game (Part 1)”, conversas em japonês surgem repentinamente em um rock que não precisa de muitas audições para se mostrar potente. Além disso, tem uma faixa especialmente preparada para a edição japonesa: “Crystal Japan”, que parece ter vindo direto dos escombros de Low. Citado como o disco que carrega o último lampejo de excelência no currículo de Bowie (não é), Scary Monsters é a grande evidência de que o artista não tinha se perdido nas caminhadas obscuras desde Young Americans. Com impressionante sinergia entre as guitarras de Carlos Alomar e do gênio Robert Fripp e do baterista Dennis Dave, a faixa-título é uma das maiores provas de que Bowie é, antes de ser um Camaleão e andrógino, um verdadeiro rock star. E já que estamos falando de participações, vale citar o dueto espacial com Pete Townshend (The Who) em “Because You’re Young”. Ao contrário dos trabalhos anteriores, que não foram bem um sucesso de vendas tanto quanto um sucesso de crítica, Scary Monsters é o primeiro suspiro de reencontro com o hype. Isso ele conseguiu, e com muito louvor. Tanto com o appeal de “Fashion”, como com a melancolia funky de “Ashes to Ashes” que, três anos depois, ganhou um clipe soberbo que mostrava Bowie em cenários sci-fi conversando com uma velhinha, pousando para uma foto, empunhando um retrato falante e juntando uma sucessão de elementos e cenários que, de forma triunfal, conquistaram a juventude que começava a abraçar a MTV.

Ouça: “Ashes To Ashes”

Let’s Dance

Data de Lançamento: 14 de abril de 1983
Gravadora: EMI
Avaliação: 6/10

Com a chegada dos anos 1980 e a praga da reticência criativa após uma década regada a fama, drogas e dívidas com a MainMan, David Bowie percebeu que os tempos já não eram mais os mesmos. A chegada da MTV provou que a juventude abraçava cada vez mais as canções dançantes, na esteira do que propagava a new-wave. Ainda que tenha conquistado relevância no mercado musical, o punk-rock logo voltou àquilo que sempre lhe pertenceu: o underground. E Bowie não queria saber de underground. Afinal, ele já foi a maior estrela do mundo e queria seu trono de volta. Limpo das drogas e passada a fase obscurantista de sua carreira, o Camaleão decidiu que era hora de ser positivista, de incitar à dança e encarar os novos tempos com otimismo. Para tanto, contratou o guitarrista do Chic, Nile Rodgers, e injetou tecladinhos e sintetizadores em batidas funky, flertando diretamente com a disco music feita para as pistas. “Modern Love”, a primeira faixa, entrega logo as novas influências do cantor. Há uma versão oriental que não soa mais que engraçadinha de “China Girl”, que ele ajudou a escrever para Iggy Pop no antológico The Idiot (1977). A faixa-título é um convite forçado à dança, apesar da instrumentação que inclui uma bela performance no sax tenor de Robert Aaron. Se Bowie queria o sucesso, bom, ele o obteve: até hoje Let’s Dance é o álbum mais vendido do britânico. Com o êxito comercial, também veio a praga: depois desse disco, Bowie não mais conseguiria se restabelecer no mainstream com tanto estrondo por um longo período de tempo. O que era estratégia criativa para angariar crítica e público aos poucos se tornou um tiro na culatra para Bowie – vide seu nome quase apagado na década de 1980. Os tempos eram outros e não hesitavam em ser cruéis com aqueles que não o entendiam. Nem David Bowie passou impune.

Ouça: “Cat People (Putting Out Fire)”

Tonight

Data de Lançamento: 1º de setembro de 1984
Gravadora: EMI
Avaliação: 3/10

A década já tinha se mostrado uma praga à boa parte da pecha criativa do final dos anos 1970. Era tempo de new-wave, e isso não necessariamente queria dizer que a música ia bem. Após se render ao otimismo das pistas, Bowie queria trazer novo frescor artístico ao seu trabalho. Bom, esse é o lado mais otimista para analisar a bizarrice que é Tonight. “Loving the Alien” é uma péssima tentativa de saldar os dividendos com sua fase espacial. O reggae de “Don’t Look Down” é fake, sem gingado e joga a influência jamaicana no nicho da vergonha. O cover de “God Only Knows”, dos Beach Boys, deveria manter-se trancafiado nos estúdios de tão horripilante. E “Tonight”, que já tava bem registrada por Iggy Pop em Lust For Life (1977), foi sumariamente piorada por ganhar uma versão preguiçosa. Qualquer ser vivente que ouvisse isso antes de sair de casa permaneceria desolado embaixo das cobertas pra não perder o mingau.

Ouça: “Neighbourhood Treat”

Labyrinth

Data de Lançamento: 23 de junho de 1986
Gravadora: EMI
Avaliação: 8/10

Se pensarmos Scary Monsters como uma transição do período obscuro de Berlim para a sua fase mais new wave que seria selada com Let’s Dance, Labyrinth vem para atestar uma afirmativa nesta década tão obscura para David Bowie: é o seu álbum mais criativo neste período. Nele, temos pinceladas de Tonight mais os dois discos supracitados dentro de uma sonoridade muito usual em toda a década. Pense em Michael Jackson e Prince como artifícios pop desta era, e você vai entender que Bowie, com o toque magistral africano do compositor Trevor Jones, estabeleceu uma trilha que evocava desejos juvenis (“Magic Dance”) e mostrava caminhos interessantes para enigmas misteriosos – coisa da clarividente e ótima “Hallucination”. Se pensarmos no soundtrack perfeito para um thriller aventureiro, Labyrinth não apenas cumpriu seu papel como pano de fundo do ambicioso filme produzido por George Lucas e dirigido por Jim Henson (e estrelado pelo próprio Bowie). Fez muito mais: encapsulou o que mais de interessante foi produzido na música pop dos anos 1980 (em termos criativos), com o toque de mestre de Trevor Jones nos arranjos. Baita parceria!

Ouça: “Hallucination”

Never Let Me Down

Data de Lançamento: 27 de abril de 1987
Gravadora: EMI
Avaliação: 5/10

Neste tempo, a imprensa estava pouco se lixando para o lado pessoal de David Bowie. Por isso, não deram muita bola à faixa-título, uma pequena homenagem à sua empresária faz-tudo Coco Schnabel. A voz em falsete com curtos slaps do baixo funky de Erdal Kizilcay e efeitos que lembram uma gaita fazem de “Never Let Me Down” uma canção razoável. No entanto, ela é a que mais se destoa do 17º disco de Bowie. Depois de muitas críticas e bastante ocupação ao trabalhar com Iggy Pop, Bowie decidiu que sua volta seria ainda mais bombástica nos palcos. Ele deixou os artifícios para as pistas de lado e tratou de empunhar novamente uma guitarra. Algumas canções são bem empolgantes, como a ágil “New York’s In Love” – onde finalmente o cantor estava se ajeitando aos anos 1980 – e “Zeroes”, uma boa canção de arena. “Glass Spider”, que seria o nome da grande turnê para promover o disco, tem uma introdução que casaria perfeitamente com a preparação das parafernálias dos shows. É uma canção relativamente empolgante, mas só por causa do solo fogoso na guitarra de Carlos Alomar. “Time Will Craw”, que o Camaleão defende como uma de suas melhores músicas em todos os tempos, realmente é uma boa canção. Mas aí você lembra de “Ashes To Ashes” – afinal, lembra de Scary Monsters inteiro. Passa pela tristeza que é “Shining Star (Making My Love)”… E bate o martelo: Bowie, este disco não convence.

Ouça: “Time Will Crawl”

Tin Machine

Data de Lançamento: 22 de maio de 1989
Gravadora: EMI
Avaliação: 8/10

Formar a Tin Machine com Reeves Gabrels (guitarra), Tony Sales (baixo) e Hunt Sales (bateria) foi o passo mais sábio de David Bowie nos anos 1980. Sem invencionices, sem figurinos especiais e sem pretensão artística, a ideia era fazer rock’n roll do jeito que ele deve ser. Este é o momento em que Bowie mais leva a sério a importância de se ter uma banda unida (tão a sério que estampa uma capa de terno e gravata com os demais integrantes). As canções são instigantes do começo ao fim: no rock de arena “Heaven’s In Here”, no industrial de “Tin Machine”, no punch cativante de “Under the God”… Até “Crack City”, com potencial para rivalizar com a popularidade do Guns’N Roses, é adequadamente rejuvenescida. As composições foram feitas para cantar com vontade – ao contrário daquelas produções forçadas que bagunçaram seus discos nos anos 1980. Com a mesma devoção de um Bruce Springsteen, Bowie ovaciona o orgulho operário em “Working Class Hero”, uma resposta concreta às incertezas de “’Heroes’” (esta canção, vale lembrar, foi escrita por John Lennon e anteriormente registrada por Marianne Faithfull em Broken English, de 1979). Apesar de ser um disco ‘volta às origens do rock’n roll’, em “Pretty Thing” percebe-se um flerte com o rock alternativo graças aos loopings criativos e vocais quase ininteligíveis. Intencional ou não, foi uma bela cartada de Bowie.

Ouça: “Working Class Hero”

Tin Machine II

Data de Lançamento: 2 de setembro de 1991
Gravadora: London
Avaliação: 5/10

Dois anos e grande imersão com a turnê de Sound + Vision (preparada para revisitar toda a sua carreira), além da participação no filme Romance Por Interesse: tudo isso culminou em um desfoque artístico em relação à Tin Machine. Como estamos falando de uma banda relativamente democrática, este tempo também marcou outros caminhares dos demais integrantes. Por exemplo, o guitarrista Reeves Gabrels estava mergulhado no industrial de Nine Inch Nails – algo notável em “Baby Universal” e “You Belong in Rock’n Roll”. Com o passar das canções, o que se percebe é que Tin Machine II nos arremessa para diferentes direções: da nostalgia era The Man Who Sold the World em “Amlapura” ao arrojo desnecessário que estragou o cover “If There Is Something” (do Roxy Music), Bowie não soube o que fazer com a imersão roqueira tão bem catalisada no primeiro trabalho com este novo grupo. As canções parecem meio arrastadas e, quando chega na sétima ou oitava faixa, nossos ouvidos já clamam pelo término do disco.

Ouça: “You Belong In Rock’n Roll”