10. “Escarcéu”

Miranda Kassin

Gênero: Pop/Rock
Álbum: Aurora

O que Miranda Kassin diz nessa música é retrato do cansaço generalizado que paira após a mesmice. Tem horas que não é bem você, pessoa, que deve mudar: o local geográfico e físico conta muito. ‘Mas quer saber?/Depois de tanto patinar/Eu aprendi/Será que sou eu?/Pode ser você/Por culpa dos astros ou desastres naturais’, solta ao ar a cantora. No entanto ela prefere recorrer a uma máxima para explicar todo esse caos interno: é apenas um dia ruim. Será?

Ouça: “Escarcéu”

9. “Terra em Trânsito”

Caê Rolfsen

Gênero: Samba/Marchinha
Álbum: Estação Sé

O samba que Caê Rolfsen faz em “Terra em Trânsito” remete a uma São Paulo de cinquenta, sessenta anos atrás. Ali tem uma marchinha carnavalesca que faz com que o ouvinte perceba que o contato com a multidão nessa metrópole não vem de hoje. ‘Na cidade/Onde a gente viveu/Uma fanfarra/Reclamando a ressurreição/Da multidão ô ô ô ô’. É como se Caê fizesse um resumo do crescimento populacional de São Paulo em retrospecto, de forma nostálgica, apontando que, por mais que haja os malefícios que tantos estão cansados de detratar, essa multidão também tem sentimentos, conquistas e motivos para sorrir. Um belo olhar otimista sobre a cidade, que tanto precisa desse acalanto.

Ouça: “Terra em Trânsito”

8. “A Bossa Nova é Foda”

Caetano Veloso

Gênero: MPB/Rock
Álbum: Abraçaço

A primeira faixa de Abraçaço é hipnótica, um liquidificador pop. Caetano Veloso conseguiu arranjar um refrão pegajoso numa ‘dança da moda’ que recicla diversas informações e personagens de nossa atualidade para arremessá-lo numa lixeira, que se mostra reaproveitável (sustentabilidade musical?). E esse reaproveitamento, consequência do ‘homem cruel e destruidor’, acaba se tornando a própria canção, a resolução pop perfeita em tempos em que as explicações se confundem cada vez mais. É tudo foda.

Ouça: “A Bossa Nova é Foda”

7. “Aleluia”

Cascadura

Gênero: Rock
Álbum: Aleluia

Download gratuito pelo site oficial

Uma das composições de rock mais bonitas dos últimos anos. Na primeira faixa de Aleluia, o Cascadura relata a crônica de um possível velho que já não enxerga mais, mas que ainda sofre com o peso da solidão: ‘A vida era o caminhar por um quarto escuro’. É a possibilidade do desejo da ‘musa que chamavam Luzia’ que surge a luz que lhe faltava para guiar por todo esse tempo. A composição passa a ideia de que tudo nasce por meio do sonho. É a possibilidade que gera o acontecer. Há uma luz para o cego que muitas pessoas com perfeita visão também não conseguem enxergar.

Ouça: “Aleluia”

6. “Dois Cafés”

Tulipa Ruiz & Lulu Santos

Gênero: Pop-rock
Álbum: Tudo Tanto

Em Tudo Tanto, Tulipa Ruiz provou ser uma potencial expoente do pop-rock. Para chegar lá, nada como um empurrãozinho de um dos maiores hitmakers nacionais: Lulu Santos (amado por uns, odiado por muitos outros). É de se questionar a qualidade da obra de Lulu Santos, mas esta canção certamente não entra nessa indagação. O dueto é bem interposto, a composição é ótima e a levada agrada qualquer ouvinte de rádio FM. A única pena é que só investindo por meio de jabá e acordos obscuros para a música atingir um grande público…

Ouça: “Dois Cafés”

5. “Passarinho”

Curumin

Gênero: MPB
Álbum: Arrocha

De todos os temas ligados à natureza que Curumin explorou em Arrocha, “Passarinho” é a mais simbolista e talvez a mais utópica de todas. Sim, ele fala de nadar em águas limpas (“Doce”), mas nesta canção o animal que melhor representa o sentido de voo e liberdade nos desperta inveja e, inevitavelmente, nos leva a pensar em nossas limitações. ‘Não tem gaiola que possa me seguraaaarrrrr’. Quem não gostaria de se livrar das amarras que nós mesmos criamos (emprego, aluguel, impostos) para aproveitar a imensidão do mundo e da natureza?

Ouça: “Passarinho”

4. “That’s My Way”

Edi Rock & Seu Jorge

Gênero: Rap
Álbum: Contra Nós Ninguém Será (lançamento em 2013)

Baixar a música pelo 4Shared

Enquanto você enxuga gelo esperando o novo disco dos Racionais MCs, Edi Rock despertou curiosidade e ansiedade após o anúncio de um novo trabalho solo, Contra Nós Ninguém Será, que deve ser lançado em fevereiro de 2013. Tudo por conta dessa improvável parceria, onde o rap se encontra com a música popular brasileira em um refrão fixador: ‘Vai clarear você/Vai iluminar você/Vai proteger/Vai inspirar/E alimentar você’, entoado por ninguém menos que Seu Jorge. Em suas rimas, Edi Rock está mais sutil e otimista com seu vozeirão hipnótico: ‘Cada degrau a gente aprende a sofrer (…)/Eu tô lá/Lado a lado/Com a fé no coração/Nem que para isso eu amanheça dormindo no chão’. Uma abertura musical necessária na carreira de Edi Rock; um milhão de pontos a mais na música brasileira.

Ouça: “That’s My Way”

3. “Víbora”

Tulipa Ruiz

Gênero: MPB
Álbum: Tudo Tanto

Isso, Tulipa Ruiz, destila seu veneno. Destila seu dissabor, suas destrezas e suas ruínas. Afinal, a cantora de “Efêmera” e “Desinibida” também deve ter motivos para se exasperar, gritar ou ao menos ter mil motivos para não ser boazinha a todo o momento. “Víbora” é o acúmulo de toda essa ira contida de Tulipa. Ela está brava, irritada, decepcionada. Por mais que sejam maus adjetivos, todos nós sabemos que é das destrezas que nascem grandes canções. Arrisco dizer que esta é a melhor dela.

Ouça: “Víbora”

2. “Oya”

Metá Metá

Gênero: Afro-Punk
Álbum: MetaL MetaL

Download gratuito pelo site de Kiko Dinucci

Tive o privilégio de ouvir esta música após uma entrevista com Juçara Marçal. Lembro que fiquei perplexo com a mudança nos metais, os múltiplos alcances vocais da cantora e a catártica explosão que justifica o nome de um dos melhores álbuns de 2012. A canção escrita por Kiko Dinucci e Douglas Germano mostra um entrelaçamento natural entre a língua iorubá e portuguesa num acesso de ira que pairou nos instrumentos de todos os músicos: ‘Beijo, clarão, labareda, pimenta/Se o vento se alastra a brasa aumenta/É lava, combustão’.

Ouça: “Oya”

1. “Jardim Japão”

Rodrigo Campos & Juçara Marçal

Gênero: MPB
Álbum: Bahia Fantástica

Demorei 30 descrições para chegar a este axioma: Juçara Marçal é a cantora do ano. 2012 representou uma mudança drástica em sua forma de interpretar as canções. E parte disso está justamente em “Jardim Japão”. Quem assistiu ao show de lançamento do álbum Bahia Fantástica, no Sesc Vila Mariana, pode comprovar que o mundo parou no momento em que Juçara, sem muito esforço, entoou uma música sentimental cheia de ira. Um momento stop-motion do mundo. Choro e aplausos.

Além do espetáculo proporcionado, “Jardim Japão” exemplifica o estado de tensão de dois moleques após um roubo. É uma atmosfera próxima a essa que cidades de São Paulo e Santa Catarina passaram com a violência generalizada entre polícia e ladrão de um mês pra cá: ‘Não quero nem saber/O bicho vai pegar/E Deus querendo ou não/Pus fogo no Jardim Japão’. Aí você vê como se acende a linha de fogo.

A ira, incendiária, é revelada pelos solos nervosos na guitarra de Guilherme Held, o acompanhamento de Rodrigo Campos e a percussão intermitente (meio tribal, ritualística) de Maurício Badé, cortinas de uma crônica urbana intensa e selvagem. São os nossos tempos.

Ouça: “Jardim Japão”

Em uma lista, ficaria assim:

1. Rodrigo Campos: “Jardim Japão” (part. Juçara Marçal) 2. Metá Metá: “Oya” 3. Tulipa Ruiz: “Víbora” 4. Edi Rock: “That’s My Way” (part. Seu Jorge) 5. Curumin: “Passarinho” 6. Tulipa Ruiz: “Dois Cafés” (part. Lulu Santos) 7. Cascadura: “Aleluia” 8. Caetano Veloso: “A Bossa Nova é Foda” 9. Caê Rolfsen: “Terra em Trânsito” 10. Miranda Kassin: “Escarcéu” 11. Sobre a Máquina: “Oito” 12. Quinteto em Branco e Preto: “Samba Pop” 13. Racionais MCs: “Mil Faces de Um Homem Leal” 14. Siba: “Qasida” 15. Lucas Santtana: “Se Pá Ska S.P.” 16. Felipe Cordeiro: “Legal e Ilegal” 17. El Efecto: “O Encontro de Lampião com Eike Batista” 18. Apanhador Só: “Paraquedas” 19. Curumin: “Doce” 20. BNegão & Seletores de Frequência: “Essa é Pra Tocar no Baile” 21. Caetano Veloso: “Um Comunista” 22. Jair Naves: “Guilhotinesco” 23. Sambanzo: “Xangô” 24. Pentágono: “Nóiz é Negô” 25. Siba: “Canoa Furada” 26. SILVA: “2012” 27. Orquestra Contemporânea de Olinda: “Falar Pra Ficar” 28. Céu: “Baile da Ilusão” 29. Filipe C.: “Crack of Love” 30. Supercordas: “O Céu Sobre as Cabeças” 31. O Terno: “Morto” 32. Psilosamples: “Ovelha Negra” 33. Fóssil: “Lençóis” 34. Gui Amabis: “Tiro” 35. Tom Zé: “A Terra, Meus Filhos” 36. Lucas Santtana: “Jogos Madrugais” 37. Rodrigo Campos: “Princesa do Mar” 38. Hurtmold: “Chavera” 39. Sexy Fi: “Loro On Loro” 40. Metá Metá: “Cobra Rasteira” 41. A Curva da Cintura: “Cara” 42. Kamau: “21|12” 43. Céu: “Retrovisor” 44. Mão de Oito: “Beats” (part. Emicida e Kamau) 45. Molho Negro: “Ela Prefere o DJ” 46. Afroelectro: “Sika Blawa” (part. Chico César) 47. Alice Caymmi: “Sangue Água e Sal” 48. Abayomy Afrobeat Orquestra: “Malunguinho” 49. Cabruêra: “Jurema”

50. Márcia Castro: “De Pés No Chão”

E aí, gostou da lista? Faça a sua também nos comentários. Assim que possível, disponibilizo uma mixtape especial com todas essas canções.

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