Cidade natal: Recife (PE)

Gênero: Dub/Ragga

Membros: Eric Gabino (baixo), PI-R (teclados e programações), Marcus Antonio (guitarra), Bruno Pedrosa (programações, samples e efeitos), Mércio Marley (bateria) e Cannibal (voz).

Agrada quem gosta de: Edson Gomes nas mãos de Mad Professor ou Bad Brains versão dub

Links: cafepreto.mus.br/, soundcloud.com/cafepreto

Adoram disparar críticas para versões dub de músicas de rock tidas como clássicas. Mas, se até os pioneiros do hard-core do Bad Brains brincaram de fazer dub com o clássico I Against I (1986), que problema haveria em ouvir uma voz gritante como a de Cannibal entrar num eixo mais cantarolante para se entregar ao reggae?

Epa, peraí: os caras do Devotos, antigo Devotos do Ódio, deixaram a raiva e a devoção de lado para suavizar o discurso num projeto paralelo?

Tudo se explica. Antes de achar que baixou o Snoop Lion no Cannibal, vale dizer que ele é o único membro da banda a dar andamento ao Café Preto. Para tanto, ele conta com o suporte de PI-R e DJ Bruno Pedrosa (eles também assinam a produção), além da colaboração de diversos outros amigos, músicos e companheiros em instrumentos como baixo, bandolim, escaleta e cavaquinho (este último de Fred Zero Quatro, líder do Mundo Livre S/A).

Segundo Cannibal, “o reggae tem uma parada que eu sempre quis cantar”. E o que seria? “Não me peçam para explicar, pois não vou conseguir. Só sei que é uma energia muito boa”.

Isso é bem perceptível. O cenário de periferia, perrengues e exclusão social ainda permeia o contexto das composições de Cannibal, mas ele nos entrega outra perspectiva desse cenário. “Compre?”, por exemplo, revela um músico entregue ao sentimentalismo, mas sem fugir de quem sempre foi: ‘Eu tenho um amor revolucionário/Com um coração de operário’.

Na verdade, não pense que o Café Preto se entrega à tradição do reggae-pop brasileiro. Com exceção de “Dandara” ou “Dos Que Se Encontram e Se Encantam…”, as seis demais faixas do disco homônimo resgatam a lírica social que havia se perdido há tempos no gênero em terras tropicais.

“Inimigo do Inimigo” narra com crueza o cotidiano de muitas favelas que ainda são reféns de ‘balas perdidas’, com efeitos que me lembraram dos melhores momentos de Lado B Lado A (1999), d’O Rappa.

Permeado por efeitos futurísticos e uma bela passagem na escaleta de Berna Vieira, “Oferenda” tem o amor que sempre esteve presente no reggae, mas sem deixar de situar o ouvinte em linhas como essa: ‘Lixo na favela/Cada esquina uma pedra’.

A paisagem periférica é permanente. E aí lembramos o quanto o som que Lee ‘Scratch’ Perry e Mad Professor desenvolveram manteve-se firme durante todos esses anos, nesse cenário virulento e esquecido. (O problema foi o que fizeram com o gênero, isso sim.)

Demorou bastante tempo para que o primeiro disco do Café Preto ficasse pronto. As gravações começaram entre março e agosto de 2007 no Estúdio do Poço, em Recife. Eles mandaram o trabalho para Victor Rice iniciar a mixagem, etapa concluída pelo paulistano Mau no estúdio COPAN, em 2010. A masterização ficou a cargo de Fernando Sanches, do renomado El Rocha. A capa do disco, oficialmente lançado no ano passado, é creditada a Jorge DuPeixe, vocalista do Nação Zumbi.

Streaming: ouça todos os sons do Café Preto no SoundCloud da banda e assista ao clipe de “Dandara”: