Intensidade não é brincadeira não. Para tê-la, não é preciso tanto tempo assim: alguns acreditam que estamos fadados a ser intensos em alguma coisa num momento X da vida, por mais estranha que ela seja.

Em uma conversa rápida com os membros da banda fluminense Amplexos, você percebe essa intensidade que vem da música.

São todos jovens: os integrantes têm entre 23 e 26 anos, sem vergonha nenhuma de admitir que conseguem entrar em transe em suas próprias apresentações. “Quando entro no palco, não me preocupo em passar alguma coisa”, diz o guitarrista Leandro Vilela. “Já sei que aquilo está dentro de mim. Várias vezes vi os próprios membros da Amplexos chorando em ensaios. Eu já chorei em vários!”.

Neste ano, a banda de Volta Redonda está dando um passo importante: soltou nas ruas o EP Manifesta, com um total de três faixas, e deve lançar ainda neste ano o disco A Música da Alma, que tem produção de Buguinha Dub (Nação Zumbi, Lucas Santtana) e já ganhou um documentário de 20 minutos que mostra o envolvimento de toda a banda na produção do disco. Atualmente, ele está sendo masterizado pelo renomado engenheiro sonoro Gustavo Lenza (Rodrigo Campos, CéU).

Além de Leandro Vilela, integram a Amplexos: Guga (voz e guitarra), Martché (teclados e vocais), Leandro Tolentino (percussão), Flávio Polito (baixo) e Mestre André (bateria).

Numa tarde de correria na metrópole, a banda veio a São Paulo para uma gravação numa emissora de TV e trocou uma ideia com exclusividade com o Na Mira, no melhor clima botequeiro e brincalhão. A seguir, coloco os principais pontos da conversa.

A trajetória até o primeiro disco
“Estamos na ativa desde 2005, 2006. Em 2008, lançamos um álbum que era uma espécie de coletânea destes anos iniciais. Registramos nove músicas, mas quando você ouvir, verá que é uma parada diferente, outro som”, conta Guga.

Em relação ao som, calma aí que explico: a Amplexos faz um rock com muitas nuances do dub, funk, ragga, música cubana, jamaicana, negra em geral. Na verdade, o caldeirão é tão intenso, que nem sei se podemos chamar de rock. É um tipo de som que agrada os fãs de BiD, Nação Zumbi e O Rappa – principalmente pela intensidade que se vê quando eles tocam ao vivo.

Quando se fala do disco A Música da Alma, os integrantes não garantem nenhum gênero específico. “Nele, você vai escutar faixas para serem cantadas, pop mesmo, e outras em que enveredamos em ondas diferentes. Ele vai te dar uma bagunçada”, sintetiza Vilela. “É um disco de calor, muito calor!”.

A alma da música – ou a música da alma
De 2006 pra cá, houve um grande desenvolvimento da Amplexos enquanto coletivo. E, para tanto, houve um ponto de partida em comum: “Uma hora veio a reflexão: será que o que estamos fazendo nos emociona do mesmo jeito que as músicas que nós gostamos?”, conta Vilela. “Além da amizade, existe um comprometimento, uma intratensão, valorizamos a música pra cacete!”.

Martché complementa a viagem: “Isso é uma coisa tão forte, que às vezes nem a gente controla”.

Por ser uma banda do interior do Rio de Janeiro (Volta Redonda tem cerca de 400 mil habitantes), a Amplexos sabe o quanto a correria de uma metrópole pode ser nociva, a ponto de deixar possíveis ouvintes afastados do que eles vêm fazendo. “Em São Paulo e no Rio, as pessoas estão automáticas e não prestam atenção em certas coisas. Ao ouvir uma música, você consegue prestar atenção, vira para dentro de si próprio para devolver aquilo de alguma forma, seja com a sua música ou com um trampo que você goste de fazer”, teoriza Guga.

“Por mais que tenhamos ideia de que tem gente em algum lugar que possa entender o nosso som, geralmente obtemos uma resposta bem melhor do que esperávamos” – Leandro Vilela, guitarrista

Influências musicais
“Putz, James Brown, Bob Marley, Fela Kuti, Gilberto Gil, Jorge Ben, Sabotage”, define Valiante.

“Um cara que me fez cair pra trás foi o Miles Davis“, confessa Vilela. “Quando ouvi o Bitches Brew cara… eu caí, surtei, não entendi nada! Pura doideira”.

“E tem os caras do rap daqui de São Paulo que estão arrebentando e a gente gosta muito”, diz o guitarrista que, hora ou outra, evoca algumas rimas dos Racionais MCs ou do Criolo durante a conversa.

Tocar com o guitarrista Oghene Kologbo, do Afrika’ 70
Antes do guitarrista da lendária banda de afro-beat Afrika’ 70 tocar com a banda Amplexos em Volta Redonda, ele veio para apresentações junto com Tony Allen (o lendário baterista de afro-beat que praticamente criou um estilo único de tocar no grupo de Fela Kuti) na Virada Cultural (São Paulo) e para um show no Circo Voador (Rio de Janeiro).

No Brasil, Oghene se mostrou interessado em realizar workshops para ensinar jovens talentos do Rio a tocar afro-beat e marcou uma apresentação com a orquestra brasileira de música nigeriana Abayomy Afrobeat Orquestra.

Esse foi o ponto de partida para que um parceiro da banda, Iky Castilho (envolvido no documentário L.A.P.A., que fala sobre o rap carioca), entrasse em contato com o lendário guitarrista.

No momento da conversa, a Amplexos ainda não tinha tocado junto com Oghene, mas a expectativa era enorme. “A ideia não é fazer exatamente afro-beat com ele”, disse Guga. “Queremos desconstruir tudo”.

Uma parte da apresentação você pode conferir no player abaixo:

Ideias dos shows
“Queremos, de alguma forma, devolver esse som da música negra que nos influencia”, diz Tolentino. Para tanto, a banda pretende fazer uma ‘tour’ na própria cidade em bairros periféricos, “pra galera que não tem acesso à internet”.

“Cara, você chega na periferia, tromba um negão e o cara é cheio de suingue”, diz Guga. “Parece brincadeira, mas às vezes ele não conhece a essência do som negro, tipo James Brown. E é viagem! Ele pode ser um cara muito inteligente, mas [pela falta de acesso] não conhece. A identificação com o som vai bater, porque é pura pulsação”.

“Certa vez, estávamos numa espécie de transe num show nosso, e vimos um cara estático, paradão. E aí perguntamos depois pra ele o que achou do nosso show e ele disse [imitando uma espécie de Tropeço da Família Adams]: ‘putz, corrosivo…’”, conta Tolentino.

E isso faz todo o sentido. “Por mais que tenhamos ideia de que tem gente em algum lugar que possa entender o nosso som, geralmente obtemos uma resposta bem melhor do que esperávamos”, conclui Vilela.

A seguir, você confere o documentário A Música da Alma (direção de Jorge Luiz Almeida), que deve sair em setembro:

Confira o tracklist provisório de A Música da Alma que a Amplexos cedeu com exclusividade ao Na Mira:

01 Falsa Salsa 02 Boladão 03 Making Love 04 Sim 05 Afrobeat (nome provisório) 06 Filho 07 O Homem 08 Mistério (nome provisório) 09 Festa

10 Leão