Uma pesquisa da empresa Cisco revelou que, até o final de 2019, 80% do tráfego na internet será totalmente em vídeo, número que tende a aumentar com o decorrer dos anos.

Ou seja, quem produz conteúdo já precisa se adaptar a uma realidade inevitável.

Ok, se vou começar a fazer vídeos, qual a melhor plataforma a utilizar?

Quem pretende monetizar, certamente vai optar pelo YouTube, que tem a vantagem de vincular sua conta ao AdSense.

Ou seja, se você já tem site, ao vincular seu canal, pode dar mais um gás e faturar uma graninha produzindo conteúdo.

Ganhar dinheiro no YouTube: dificuldades

À medida que muitos jornalistas e blogueiros têm se adaptado para essa nova realidade, o YouTube tem dificultado para esses pequenos produtores.

Tudo começou no ano passado, quando a plataforma exigiu um mínimo de 10 mil visualizações em todos os vídeos do canal para começar a entrar no programa de monetização.

A partir de 20 de fevereiro de 2018, as coisas ficarão mais rígidas. Para entrar no programa de monetização, o proprietário do canal terá que ter, no mínimo, 1.000 inscritos e total de 4.000 horas de vídeos assistidos no período de um ano.

No texto de anúncio dessa mudança, o YouTube não esconde que os mais afetados serão os pequenos produtores: “Embora essas mudanças venham a afetar um número significante de canais, 99% dos afetados ganham menos que $100 por ano, com 90% deles faturando menos que $2.50 no último mês. Após reflexivas considerações, nós acreditamos que esses compromissos são necessários para proteger a nossa comunidade”.

Essa notícia pode representar um balde de água fria numa lenta transição que tem acontecido na blogosfera musical brasileira.

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Blogs, críticos e youtubers

Se, por volta de 2007 a 2010, muitos produtores de conteúdo se aventuraram a criar um blog e transformá-lo em um site com conteúdo musical – como é o caso do Na Mira do Groove – parte desses produtores têm investido em plataformas de vídeo, em busca de expandir a audiência.

Um bom exemplo disso é o jornalista Marcelo Costa. No ar com o site Scream & Yell desde 2000 (que, antes disso, era um fanzine), Mac, como é conhecido, fechou parceria com a produtora de vídeos Casa Inflamável e semanalmente tem lançado vídeos pelo YouTube.

Atualmente, ele conta com mais de 1.700 inscritos, número tímido, porém crescente, devido à popularidade do site e da regularidade com que Mac posta por lá, somando mais de 30 vídeos.

O crítico musical Regis Tadeu, famoso por seus textos ácidos na coluna do Yahoo!, entrou no YouTube há pouco mais de 3 meses. Ele tem apenas quatro vídeos postados, mas já soma mais de 16 mil inscritos.

Postos lado a lado, Regis é bem mais popular que Mac, por uma lógica simples: as redes sociais (e o YouTube é uma rede social, sim!) favorecem os produtores que detêm maior capital social, ou seja, maior popularidade na rede.

Importância do capital social

Dentro da crítica musical, esse é um assunto complicado, pois o capital social de muitos jornalistas está atrelado ao veículo para o qual trabalham.

Como assim?

Um artigo postado no jornal O Globo, por exemplo, tende a ser mais popular que de um site independente.

O especialista em Comunicação Bruno Nogueira explicou isso em sua tese de doutorado para a Universidade Federal da Bahia (UFBA): “Se observamos a cadeia produtiva da música a partir da lógica das redes sociais e inserirmos o crítico nesse ambiente, o jornal ou a revista dispensa qualquer negociação de capital social. Por isso, dispensa também a possibilidade de regulamentação a partir dos demais agentes, devido sua imposição enquanto veículo de massa”.

Seria muito comum, por exemplo, se o experiente crítico musical Sergio Martins (Revista VEJA), ao entrar agora na plataforma, ultrapassasse rapidamente um canal como Nó na Orelha, que posta regularmente críticas musicais em vídeo, atualmente com mais de 1.300 inscritos.

É um cenário cada vez mais disputado, visto que tem crescido o número de produtores de conteúdo que se dizem especializados em música. Tanto que, mesmo para o jornalista já inserido na mídia tradicional, há um caminho a percorrer.

“Isso significa que uma determinada pessoa que faça esse perfil de um novo crítico até pode vir da mídia tradicional, mas desde que seja adequado a esse processo de feedback e reconhecimento de prestígio dentro de uma rede específica”, complementa Nogueira.

Facebook x YouTube

De certa forma, a mudança na política de privacidade do YouTube representa um desestímulo a quem pretende comunicar-se por vídeo.

De uns três anos pra cá, o Facebook tem investido maciçamente no poder do vídeo – tanto que até um termo novo surgiu: video-first.

Mas, dentro da rede social de Mark Zuckerberg, ainda há entraves complicados. Primeiro de tudo: é muito difícil conseguir subir um vídeo com trechos musicais. Diferentemente do YouTube, que, mesmo com o Content ID, permite que o produtor compartilhe os ganhos com as empresas proprietárias de royalties ao detectar algum excerto de música ou clipe, o Facebook não tem pudor de tirar seu vídeo do ar sem nenhuma notificação, caso detecte algum som desprotegido por direitos autorais.

E essas penalidades podem se agravar com a insistência, bom dizer.

Quem produz vídeos para falar sobre música na internet comumente recorre a alguns trechos, para exemplificar o assunto em questão. O YouTube permite usar esses fragmentos, embora isso incorra em riscos de compartilhar os dividendos.

Já o Facebook costuma pegar bem no pé. Por mais que seja comum visualizar clipes musicais dentro da rede social, tais vídeos aparecem numa frequência bem menor, se comparados ao YouTube.

E, o maior entrave do Facebook: a impossibilidade de remunerar com seus vídeos.

A rede social prioriza o engajamento por meio dos vídeos, tanto que o alcance deles é múltiplas vezes maior se comparado a links e fotos compartilhados pelas fan pages. Essa característica, de fato, resulta em um teor mais viralizante dos vídeos. Não raro, é comum que produtores de conteúdo somem mais visualizações via Facebook, que via YouTube.

Ainda assim, o YouTube é a maior biblioteca de vídeos, porque dá sobrevida aos conteúdos. Não podemos esquecer que, tirando o Google, o segundo site mais utilizado para pesquisas é o YouTube.

Prejuízo aos pequenos produtores

Ao dificultar a monetização, a plataforma de vídeos também dificulta o ingresso de mais produtores de conteúdo, principalmente os que não possuem capital social suficiente para cumprir as exigências da nova política.

Essa é uma preocupação que vai muito além dos produtores que escrevem sobre música.

Youtubers transgênero também têm criticado essa alteração na política de remuneração. Erin Armstrong, que possui canal desde 2006, disse que tem mais de 12 mil inscritos, mas seus vídeos, anualmente, têm média de 3.400 horas.

“Estou cansada de produzir conteúdo que precisa se encaixar nessas diretrizes”, disse Erin ao jornal britânico The Guardian. “Eles realmente atendem as pessoas que têm o dinheiro, os pontos de vista e a atratividade. É menos sobre criar e apoiar as pequenas comunidades que se juntam e compartilham suas experiências”.

Ainda são poucos os canais dedicados a falar sobre música dentro do YouTube, no Brasil. Tirando os conteúdos de appeal viralizante – como “primeira reação a algum tipo de coisa” ou as inúmeras abordagens sensacionalistas – a tendência é que diminua ainda mais o ingresso de novos produtores de conteúdo que podem ajudar a escrever novas páginas nessa reconfiguração de críticos musicais.