Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 27 de maio de 2016

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Em pouco tempo, o Metá Metá tornou-se um dos grupos mais idôneos da música brasileira por melhor compreender a extensão de influências que compõem nossa ‘raiz’. Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França nunca declararam ter compromisso com nada que não fosse muita atividade, muitos projetos, muitas direções. A diferença está justamente num dos pontos que Juçara exemplifica bem como um verso: ‘Toque certeiro, pra onde apontar’.

Quando o primeiro disco do Metá Metá foi lançado, em 2011, houve uma lapidação cuidadosa ao mostrar o peso da influência afro-brasileira. O seguinte, MetaL MetaL (2012), quebrou todas as possíveis rupturas que prendiam o antecessor: o projeto de free-jazz MarginalS (de França), as desconstruções de cordas do Passo Torto (de Kiko) e, principalmente, os rasgos vocais de Juçara foram somados aos elementos já ‘impostos’ pelo grupo. Surgiu, então, a classificação afro-punk.

MM3 reflete mais uma vez o intenso acúmulo de experiências musicais do trio – quer dizer, quinteto quase, já que o baixista Marcelo Cabral e o baterista Sérgio Machado trazem contribuições valiosas em seus instrumentos.

Crítica do EP homônimo do Metá Metá, lançado em 2015

Um dos pontos que mais chamam a atenção no disco é a interpretação dada à fé. A primeira canção, “Três Amigos”, composta por França, Machado e Rodrigo Campos, subverte o que algumas tribos encarariam como devoção a um ritual. Juçara vê o ‘carnaval onírico’ como uma junção fragmentada de ‘esperança morta’ e ‘ferida aberta’. É pura matança, justamente por conta da busca de um ‘amor pra sodomizar’.

É um início deveras antropofágico, algo que a seguinte, “Angoulême”, não alivia. Em riffs interpolados de sax e guitarras com distorções valvuladas, Juçara canta: ‘Pele tatuada, carne mutilada, o seu dente sangra/Chora enquanto ri sozinha, faz careta, grita um verso a quem passar’.

MM3 é praticamente um disco feito em chamas. As imagens evocadas chegam a consternar – parece que o lado obscuro de Juçara, que se materializou no álbum de estreia, Encarnado (2014), com interpretações de músicas focadas no tema ‘morte’, não encontrou seu lado pacifista. Quando se espera um certo alívio, em “Imagem do Amor”, tem-se a evocação de ‘uma beleza disforme, sem rosto, sem nome, sem moderação’.

Isso não quer dizer que o Metá Metá esteja do lado negro da força. Essa ebulição de imagens obscuras jogadas no início do disco começa a fazer mais sentido com o avançar de MM3: quando Juçara diz, em “Corpo Vão”, que ‘o passo segue a trilha/É circular dentro de si’, compreende-se a existência de uma busca interior. E essa busca nem sempre nos leva à pureza: é como se algo dentro de um indivíduo fosse tão surpreendente a ponto de contradizer o que esse indivíduo julgaria ser parte de sua característica.

“Toque Certeiro”, com toda a serenidade que lembra Siba (ele é um dos compositores), ajuda a clarificar as coisas: ‘Eu acho que se a gente for pensar/De repente/Nem dá tempo de se imaginar’.

A apropriação dos simbolismos afrorreligiosos, traço indissociável de Juçara, tem um contorno mais espiritual, mas de forma que reflete mais como uma busca pessoal do que uma tentativa de passar uma mensagem. Claro que a sonoridade, o canto e a atmosfera evocados em MM3 levam o ouvinte a uma reflexão própria.

Isso nem sempre pode resultar numa experiência positiva: como defendia o filósofo Schopenhauer, conhecer a si mesmo é um saber crítico, “aceitando com coragem as desvantagens e os inconvenientes que daí possam surgir”. Nessa parte, o Metá Metá se exime de culpa; é com você.

Outros lançamentos relevantes:

The Monkees: Good Times! (Rhino/Warner Bros)
Maquinas: Lado Turvo, Lugares Inquietos (Transtorninho)
Dâm-Funk: DJ-Kicks (!K7)
Melanie De Biasio: Blackened Cities (PIAS)
Mark Kozelek: Sings Favorites (Caldo Verde Records)
The Pop Group: The Boys Whose Head Exploded (Freaks R Us)

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