Em janeiro, vem ao Brasil um dos principais expoentes do soul moderno, junto com a badalada Amy Winehouse e a mais nova estrela do R&B, Janelle Monáe. A julgar pela aparência, Mayer Hawthorne tem tudo aquilo que caracteriza um músico indie: usa trajes modernos, é discreto, parece ser meio retraído, tem uma cara de nerd… estereótipos que associariam o artista a uma dessas bandas de rock alternativo que estampam as capas do NME.

Aos 31 anos, Hawthorne acabou no soul por acaso. Ele sempre foi fã de hip hop e cresceu apreciando a arte de clássicos como The Supremes, Marvin Gaye e Otis Redding. Recebeu o convite de gravar um primeiro álbum totalmente soul, A Strange Arrangement, em 2008 (mas concluído em 2009), emplacando canções que se destacavam pela sentimentalidade, o compromisso com o purismo e uma voz memorável e sincera, como pode-se ver em “Just Ain’t Gonna Work Out” e “Make Her Mine”.

Por mais que o soul esteja em vigor nos dias de hoje nas vozes de John Legend e Cee Lo Green, por exemplo, Hawthorne propõe um revival dos anos 50 e 60, como se toda essa turbulência que caracteriza as canções de hoje tivessem congelado no tempo. Ainda assim, ele não gosta de se sentir um saudosista. Acredita que oferece um relativo conforto por meio da suavidade lírica, o que não deixa de ser verdade.

Suas canções bebem diretamente da fonte dos grandes clássicos e os arranjos modernos realçam uma potência vocal que não deposita forças na estridência ou mesmo no virtuosismo – mas em um estilo único, que distingue Hawthorne de outros cantores.

“The Ills” é um grande exemplo: as batucadas afro e os metais efervescentes típicos de um Curtis Mayfield poderiam ter uma conotação diferente na voz de um John Legend. A canção também fala de sentimento, mas em Hawthorne ela parece adquirir um ar mais ingênuo, como se realmente um nerd estivesse se aventurando por essas bandas e se dando muito bem ao se libertar das rotulações musicais que o seu estilo sugere.

Diferente de outros contemporâneos, Mayer Hawthorne faz um som a sua maneira, e ainda assim obtém excelentes resultados mercadológicos. Em outubro de 2009, com menos de um mês de lançamento de A Strange Arrangement, o cantor conseguiu vender cerca de 150 mil a 200 mil cópias de discos, número considerável se analisarmos a dificuldade de vendagem que a indústria fonográfica passa no momento.

Enquanto os dias 8, 11, 13 e 15 de janeiro não chegam, aprecie algumas de suas canções mais inspiradas (vide também “Maybe So, Maybe No”, “Your Easy Lovin’ Ain’t Please Nothing” e “I Wish It Would Rain”) e, se possível, reflita: Mayer Hawthorne está mais para um momento revivalista ou sugere novas possibilidades para a soul music pós-anos 2000?