Calma, a coisa não tem nada a ver com dar uma de Mark Chapman ou Nathan Gale. O ato de matar um ídolo tem mais a ver com autossegurança: ter a certeza de que você ama mais a si mesmo do que a seu ídolo.
Porque fã mesmo, de verdade, daqueles que deixam a família com fome pra ver um show exorbitante no estádio do Morumbi ou num país vizinho, só interessa mercadologicamente ao artista e aos interessados que ganham dinheiro com esse artista. Se passarem longe desse fã, tanto melhor.
Matar um ídolo, por outro lado, pode ser a maior contribuição que você pode fazer a um artista. Já cansei de me deparar com pessoas que se dizem fã de Bob Marley, mas ficam de queixo caído quando menciono que ele usou de meios violentos para colocar seus singles nas rádios da Jamaica, não foi um pai presente e, inclusive, não foi 100% fiel ao Rastafarianismo que ele pregou em boa parte de sua carreira. ‘Ele deixou de amputar um membro’, é a primeira reação defensável. Sim, mas comia carne escondido e não ligava para algumas rígidas regras da religião.
Bob Marley tinha anseios grandiosos e, se você realmente for a fundo em sua biografia, provavelmente vai encontrar alguns acontecimentos que justificam seus erros. Citaria inúmeros, mas não é por isso que o reverencio como um dos maiores artistas do século passado. No conjunto da obra, incluindo aí seus vários defeitos, ele foi grandioso. É isso que importa.
Os erros foram consequência de seu lado humano – e é justamente esse lado que deve ser levado em consideração. Querer aceitar a ignorância e justificar seu gosto pelo artista com um chavão como ‘o que vale é apenas a música’ é a sã prova de que você não é capaz de aceitar seu ídolo pelo que ele é. As relações humanas são assim e, quando estamos falando de ser fã de alguma coisa, ultrapassamos o viés artístico de sua obra para agregarmos àquilo que mais temos de… humanos. Afinal, eles fazem parte de nossas vidas, nossas leituras, nossas perdas de tempo, nossas conversas no bar, nossas brigas com as(os) namoradas(os), nossos momentos mais vergonhosos… Isso é humano. Do contrário, quando você apenas diz ‘gostar’ de um músico, pode manter o afastamento e encarar tudo imparcialmente pelo lado ‘artístico’. Essa é a coisa mais sensata a se fazer muitas vezes, mas como somos lobos de nós mesmos, nem sempre a coisa se desenrola dessa maneira.
E é aí que reitero a mensagem: mate o seu ídolo! Porque este é um ato que apenas o fã tem bagagem o suficiente para cometer. Comece lendo artigos que derrubam totalmente o seu ídolo e tente não reagir negativamente. Preste atenção nos argumentos: porque, mesmo que um crítico chato encha de argumentos negativos em direção àquilo que você via como positividade, um texto achincalhador pode trazer novas perspectivas ao ser que você tanto idolatrou. Nada impede de você dar umas boas broncas em erros cometidos no calor da digitação. O importante é ser sensato, tanto com o artista ou com o redator que você pode julgar como um idiota. Então, ouça com outros ouvidos aquilo que você escutou com tanta glória. Essa é a prova dos nove para você constatar: realmente sou fã desse artista, ou sou um fanático, imbecil e mimado que não aguento ser contrariado?
Matar seu ídolo significa transcender ao que é ‘bom’ ou ‘ruim’. É simplesmente admitir que você aceita o lado humano (ou desumano?) de uma pessoa que se dedicou à arte. Alguns exemplos de como fazer isso podem ser bem polêmicos (The Beatles inventou as boy bands; David Bowie copiou escrachadamente os Rolling Stones em Diamond Dogs; Captain Beefheart pensou como um fracassado ao tentar ‘se vender’ com The Spotlight Kid; The Strokes é uma banda incompetente…), mas isso é totalmente necessário na hora de, repito, admitirmos: realmente esse artista merece a minha devoção?
Se o ídolo realmente for grandioso, passa facilmente por esse teste. Se não passar, pelo menos fez com que você conhecesse mais sobre ele e, o mais importante, conhecesse mais a si mesmo.
