Primeiro entra Thiago França, que já manda um solo devastador no sax. Em seguida, Tony Gordin, que vai acompanhando com uma bateria roqueira de pequenas variações. E, por fim, Marcelo Cabral assume o contrabaixo, mexendo aos poucos uma visível pedaleira e emendando curtos slaps.

Essa foi uma das pouquíssimas vezes que o trio MarginalS seguiu uma cartilha.

A pequena entrada ensaiada tinha suas boas justificativas: o grupo estava em sua 100ª apresentação, mostrando a climatização do recém-lançado segundo disco – pois reproduzir algo na íntegra é algo que está fora dos preceitos do trio.

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Aliás, o que haveria de mudar de um disco sem nome (caso do primeiro), para um segundo, também sem nome, lançado exatamente um ano depois?

Apesar das esquivas de questões como ‘qual o gênero’, ‘como é erigido’ e ‘inspirações’, mesmo o MarginalS sabe que as coisas mudaram, sim.

O som está muito mais viajeira. A busca pela imprevisibilidade é tamanha, que são raros os momentos em que o trio se entrega a determinado ritmo por um longo espaço de tempo. Mesmo porque a intenção é mais provocar e confundir. Ou, como disse Tony, “é um equilíbrio, muito amor e muito ódio. Muito sentimental”. E sentimento, ninguém prevê não é mesmo?

Fora dos padrões até para o MarginalS, boa parte da plateia deve ter começado esta semana com algum tuim no cérebro depois da apresentação no projeto Música Instrumental do Sesc Consolação, realizado em 17 de setembro, às 19h.

Thiago, que ultimamente andou explorando novos efeitos em seus instrumentos de sopro, nos levou ao inferno, chamou pra um rolê no paraíso e nos enfiou em um cyberespaço criptografado por ondas sonoras nunca dantes cifradas. Eram tantas as experimentações, que em alguns momentos ele teve que se retirar do palco para recuperar o fôlego dos sopros – ora intercalados com ruídos vocais.

Já Tony Gordin carregava uma fúria ali. Na execução de um tema que lembra o “V” do segundo disco, suas batidas nervosas nos pratos tinham alguma coisa de Keith Moon (“acho que o que fazemos está mais próximo do punk”, disse ele em bate-papo após o show). Tony, que é bem dinâmico nas baquetas, parecia estar com vontade de destruí-la. Se danificasse o kit, era capaz de tocar com as sobras de tão compenetrado que estava.

Cabral estava na dele. Aos poucos ele ia modulando o som do contrabaixo, escapando de qualquer possível encontro rítmico com os demais integrantes. Suas pontuações estavam justamente pendendo para o contraponto. Para onde iam aquelas notas? Talvez para o córtex, ou para os poros, ou para onde você quiser.

Foi um show de emoções. Emoções exacerbadas, à flor da pele, elétricas, tensas, rudes, viris. Essa é a natureza do MarginalS: um som feito por pessoas que se conhecem e que, apesar de conectadas musicalmente, também querem se desligar, se desconectar, desfazer quando alguém pensa que tem algo feito, ir por lugares que fogem de rotulações.

E, se nada disso do que foi escrito se aplica ao trio, então estou ainda mais ciente de que, o que vi na segunda-feira na Consolação, é puro MarginalS.

Confira o vídeo exclusivo da apresentação:

Créditos da imagem e do vídeo: Ogilsilva