A onda do afro-beat e free-jazz vem invadindo a música brasileira como talvez nunca antes visto. Exemplos recentes podem ser vistos nos trabalhos recentes de Criolo, Anelis Assumpção e no disco Metá Metá, de Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França.

E por falar em Thiago, pode-se dizer que ele é um integrante linha de frente responsável por trazer todo esse gingado em instrumentos de sopro como sax tenor e flauta transversal. Sem falar também, importante frisar, no empenho do baixista Marcelo Cabral, um dos músicos que deram um requinte afro nos instrumentos do disco Nó na Orelha.

Introdução feita, eis que os dois grandes instrumentistas se uniram ao baterista Tony Gordin e formaram recentemente o que já pode se chamar de um power trio emergente da música brasileira, o MarginalS.

Muito além do groove que se busca, o MarginalS tem uma aura reflexiva. Por isso, o trabalho pende mais para algo abstrato do que dançante

Aqui, eles decidiram se libertar de qualquer amarra para fazer aquilo que denominam música livre. Tem um pouco de Mulatu Astatke, Fela Kuti, John Coltrane… Em “Mulatagem”, Thiago inicia com um solo no tenor que poderia sugerir uma linda balada, não fosse Marcelo esquentando as rédeas com um contrabaixo grooveado que já dá indícios de que algo pesado está por vir. E aí vem todos aqueles efeitos oníricos meio Archie Shepp, meio Ornette Coleman que certamente entrariam em algum álbum insano de Miles Davis dos anos 1970.

É interessante observar que, muito além do groove que se busca, há um tom reflexivo nas faixas disponibilizadas pelo grupo. Eles se saem bem-sucedidos ao observar o tempo entre as performances solistas, sem soar barulhentos demais. Por isso, o trabalho pende mais para algo abstrato do que dançante.

O free-jazz é muito bem explorado em “Traffic” graças à simbiose dos músicos e também pelas viradas excepcionais de Tony, que inverte a dinâmica no final da canção deixando aquele gostinho de quero mais. Já em “Trilha”, Thiago França fica em segundo plano com o EWI, um instrumento de sopro elétrico que recria sons do vento, enquanto as baquetas de Tony Gordin partem para algo psicodélico e abstrato.

Até o momento, o MarginalS disponibilizou quatro faixas para audição. Ouça todas elas: