É impossível fazer cover de Jorge Ben. A natureza que ele tanto canta e evoca em suas canções (de diferentes maneiras) não permite concorrentes, aspirantes ou possíveis substitutos de seu canto e de seus trejeitos.
Jorge Ben é figura tão intacta de nossa música, que nem o próprio mais conseguiria rememorá-lo nesses dias. Vai ver isso tenha influenciado na hora de mudar de vez para Jorge Ben Jor nos anos 1990 também. Quem sabe não?

01 Vou Andando 02 A Jovem Samba 03 Quero Esquecer Você 04 Cinco Minutos 05 Descalço No Parque 06 O Telefone Tocou Novamente 07 Lalari-Olala 08 O Homem Da Gravata Florida 09 Os Alquimistas Estão Chegando 10 A Tamba 11 Frases 12 Toda Colorida 13 Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar
14 Rosa, Menina Rosa
Quando se fala em algum projeto que envolve a obra de Jorge Ben entre as décadas de 1960-70, uma coisa deve ser bem colocada: não tente imitá-lo, não tente puxar os vocais com sua típica meninice, não tente cantar com a mesma dinâmica do homem, não tente incorporar o Babulina… Não tente ser igual a ele.
Os membros do Los Sebosos Postizos certamente tinham isso em mente quando, há cerca de dez anos atrás, criaram um baile dedicado à fase de ouro desse grande mestre da nossa música.
Formado por alguns dos principais membros do Nação Zumbi (Jorge Du Peixe nos vocais, Lúcio Maia na guitarra, Dengue no baixo e Pupillo na bateria), o álbum Los Sebosos Postizos Interpretam Jorge Ben Jor traz participações especiais de Guizado no trompete, Bactéria nos teclados, Da Lua na percussão e Bárbara Eugênia nos backing vocals. (Inclusive, o título pode ser alvo de equívocos, já que não há nenhuma canção da fase Jorge Ben Jor, que se iniciou a partir dos anos 1990.)
A produção é do renomado Mário Caldato Jr., conhecido por já ter trabalhado com Marisa Monte, Planet Hemp, Beastie Boys, entre outros.
“Vou Andando” abre o disco, buscando encaixe num dub ensolarado, ao invés da sessão jazzística da canção do experimental O Bidu: Silêncio no Brooklyn (1967). Du Peixe estabelece uma ponte entre os gêneros, o que caiu muito bem com seu vocal firme e rígido, e Guizado aproveitou o campo que domina bem para enfeitar com um solo visceral em seu trompete.
“A Jovem Samba”, também do disco de 1967, tem uma fidelidade maior ao gênero samba-rock popularizado por Babulina, proporcionando uma jam dançante que, a meu ver, poderia ceder espaço maior para o solo de teclados.
Com o gelo já quebrado, aos poucos o ouvinte nem percebe a diferença entre os vocais. Du Peixe não força malemolência nenhuma em suas cordas, ou o projeto inteiro poderia ir por água abaixo. Ele, que mostra firmeza em versos curtos e impactantes com o NZ, não deixou sua marca para entrar na onda de Jorge Ben. Isso seria uma decisão bem arriscada, não fosse o contorno rítmico adequado criado pelos instrumentistas que, por mais que recriem as melodias e os tempos das músicas originais, se mostram comprometidos com as estéticas e os gêneros acostumados a explorar.
Assim, canções como “Cinco Minutos” e “Os Alquimistas Estão Chegando” (ambos do emblemático A Tábua de Esmeralda, 1974), na interpretação dos Los Sebosos, dão espaço para loopings e experimentações: enquanto a primeira mergulha num dub subaquático com riffs embaçados de Lúcio, a segunda traz programações interestelares que combinam com a mítica composição que distingue os alquimistas dos demais homens – ‘…Evitam qualquer relação com pessoas/De temperamento sórdido/De temperamento sórdido’.
Devido à ousadia de Los Sebosos Postizos Interpretam…, as comparações com as versões originais são inevitáveis. Por exemplo, em “Descalço no Parque” uma lacuna é perceptível com a ausência dos metais orquestrados que invadem as linhas melódicas da faixa que abre Ben é Samba Bom (1964). No entanto, o débito é quitado com a estupenda bateria de Pupillo.
“O Homem da Gravata Florida” exibe uma guitarra aberta que a eleva, mas os backings de Du Peixe e o excesso de overdubs acabam com a espontaneidade da canção.
Alguns dos maiores hits ganharam versões respeitosas, como é o caso de “Quero Esquecer Você”, “O Telefone Tocou Novamente” e “Rosa, Menina Rosa” (que também ganhou outra versão em parceria com Céu no disco Vagarosa, de 2009).
E, graças à boa repercussão em torno do lançamento do disco, alguns ouvintes não tão aproximados com a obra de Jorge Ben terão a oportunidade de passear por alguns clássicos desconhecidos, como “Larari-Olalá” (de Big Ben, 1970), “Toda Colorida” e “Frases” (ambas de O Bidú), para citar algumas.
O grande mérito do primeiro álbum do Los Sebosos Postizos é provar que a influência e atemporalidade da obra de Jorge Ben transcendem gerações, escolas e estilos musicais. Os anos se passam, e nós ainda queremos ouvir o Babulina.
No disco, o Los Sebosos oferece novas alternativas musicais ao importante legado de Jorge – alternativas repletas de criatividade e originalidade, justamente porque as interpretações fogem das tentativas de pasteurizar esses clássicos impagáveis da música brasileira.
