Duke Ellington (em pé, sem instrumento) com sua big band. Áureos períodos do jazz

Há quem diga que o jazz, de alguma forma, está atrelado à música erudita. A sinergia das big bands dos anos 40 ou o extremo virtuosismo de músicos como Charlie Parker e Louis Armstrong tem um quê de classicismo que podem muito bem rememorar Debussy – músico classicista francês que até mesmo o pianista Duke Ellington disse que já o teve como uma referência longínqua, mas que estava em sua música.

Outros exemplos de músicos eruditos são citados aos montes quando se fala de jazz, mas é justamente para separar tudo isso que Eric Hobsbawm, considerado o maior historiador ainda vivo (aos 93), escreveu a obra História Social do Jazz, em 1962.

A primeira edição brasileira, de 1989, trouxe o nome ‘Social’ logo na capa porque é justamente essa a abordagem do autor: mostrar que o jazz é um movimento popular negro, que nasceu como um refúgio dos trabalhadores no início do século XX e teve sua semente germinada nas regiões de New Orleans (a mais prolífica), Mississipi e até mesmo o Texas, com diferentes ramificações.

Jazz e Blues
Hobsbawm não dissocia o jazz do blues: argumenta que a essência do ritmo mais melódico e triste está ali no jazz de alguma forma, principalmente nos vocais das grandes divas do jazz como Ella Fittzgerald e Billie Holiday. São gêneros que nasceram mais ou menos no mesmo período e cresceram de mãos dadas, por mais que se separassem no meio do caminho.

O autor também mostra as características do ritmo, pelo menos as que estavam firmadas até aquele período. Hoje em dia, provavelmente ele teria que reescrever os trechos em que afirma que as cordas não eram muito profícuas para um gênero como o jazz – a partir do movimento fusion, impulsionado por Miles Davis no início dos anos 70, músicos como John McLaughlin e mesmo Frank Zappa priorizaram a guitarra como poucos, graças ao evidente virtuosismo de cada um deles e também graças à influência do rock’n roll.

Brancos e Negros
Em muitos trechos do livro, Hobsbawm faz uma clara separação entre brancos e negros, sempre enfatizando a importância deste último para a evolução do gênero.

Segundo ele, os negros incorporaram a discriminação secular na forma de fazer música e tinham um contato quase espiritual com o instrumento. Não à toa, os maiores músicos de jazz são negros: Louis Armstrong, Count Basie, Duke Ellington, Charlie Parker, Dizzy Gillespie…

Para o autor, eram raros os músicos brancos que acompanhavam a vívida energia dos negros. Isso porque o jazz vem das classes mais baixas e, pelo menos até os anos 60, estava em um período de transição para a música erudita – algo que nunca fui nem nunca será.

‘Sofisticação’
O jazz começou a ser percebido como música ‘sofisticada’ somente após o movimento revivalista, durante o pós-II Guerra Mundial. O público começou a perceber o ritmo como uma profusão de instrumentos que só podia ser entendido através do fator emocional.

Ao contrário da música clássica, que cria uma ambientação complexa para fazer com que os sentidos floresçam, com o jazz fica perceptível o sentimentalismo dos músicos. Por isso, em muitas vezes, não é preciso voz. Hobsbawm mesmo disse que são poucos músicos homens que se destacariam nos vocais (o que se percebe até hoje, mesmo com o impacto da bossa nova).

O livro é tão bom – ainda que seja recheado de opiniões pessoais perante músicos e em alguns momentos abuse ao citar muitos nomes – que soa reticente por ser terminado em uma era tão crucial para o jazz como os anos 60. Se pudesse completar a obra, Hobsbawm teria muito trabalho em citar novos gêneros criados a partir da verve jazzística, como soul, bossa nova, R&B, afro-beat e funk – só para citar alguns poucos. Muita coisa aconteceu nesse período até hoje, o necessário para encher pelo menos mais umas 400 páginas.

Porém, sentimos falta de alguém com uma bagagem tão elevada para compilar tudo isso, para se fazer entender a essência do jazz. Principalmente em uma era tão produtiva para o gênero, por mais que ainda falte originalidade. O jazz é um ritmo secular e jamais morreu ou morrerá.

Obs: sempre que ler algum livro interessante sobre música, farei o possível para postar aqui. Não esperem periodicidade dessa mini-seção. Leio tão devagar quanto uma lesma. Mas irei me esforçar.