Miles Davis tocando o seu famoso trompete ‘harmon mute’

Kind of Blue pode ser uma ótima porta de entrada para conhecer Miles Davis, já que é bastante conhecido por ser o disco de jazz mais vendido de todos os tempos. O motivo? Por ser o primeiro álbum jazzístico gravado em escalas modal sem uma partitura definida para as notas. Havia apenas alguns ‘rascunhos’ que serviriam como base para uma de suas muitas obras-primas.

Nos estúdios de gravação, tocava o primeiro grande sexteto de Miles Davis: Miles (trompete), John Coltrane (sax tenor), Cannonball Adderley (sax alto), Jimmy Cobb (bateria), Paul Chambers (baixo) e o grande pianista Bill Evans, talvez um dos principais destaques do disco.

Junto com Gil Evans, Miles Davis firmou uma de suas parcerias mais prolíficas, chegando a gravar Porgy and Bess, o mais difícil de sua carreira segundo o trompetista

Mas Kind of Blue passa apenas como uma nota na intensa produção artística de Miles Davis. Que o disco é um dos maiores do jazz, todo mundo sabe. Só que o autor Ian Carr preocupou-se mais em mostrar as diferentes gêneses de um gênio que muitas vezes foi subestimado em sua biografia definitiva Miles Davis, The Definitive Biography.

Por exemplo, em mais de 500 páginas, o autor explora bastante a relação do trompetista com o jazzista Gil Evans – que rendeu alguns de seus trabalhos mais orquestrais, como Miles Ahead e Sketches in Spain, entre muitos outros. Desta fase com Evans, Miles declara que “gravar o álbum Porgy and Bess (também em cima de partituras de Gil) foi a coisa mais difícil que já fiz”.

O início no bebop
Por vir de uma família mais abastada (seu pai era dentista em Illinois), de início, Miles Davis não sofria tanto com o preconceito por ser negro quando adolescente. Tentou estudar música, mas preferia tocar em clubes. Foi por essas andanças que conheceu os lendários Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Charles Mingus e Thelonious Monk.

Miles chegou a tocar com Charlie Parker, e narra a dificuldade de acompanhar suas difíceis notas do bebop, o grande movimento jazzístico dos anos 40. Até o fim de sua carreira (que se encerrou em 28 de setembro de 1991), o trompetista cita Parker como uma de suas maiores influências. Ele já chegou a declarar para um crítico de música, em entrevista: “quando você for falar de Parker, dê todas as estrelas que você tem. O que ele faz é descomunal”.

Depois da metade da década de 40, Miles viu que era hora de seguir seus próprios passos. Após um difícil período financeiro (ele não gostava de ser sustentado pelos pais), o músico formou seu próprio grupo e ganhou imensa notoriedade com o lançamento de The Birth of the Cool, contrapondo toda a estética do bebop com um som mais ameno e dinâmico.

Períodos áureos
Ian Carr cita três grandes períodos de imensa criatividade na obra de Miles Davis: entre 1956-1961, a partir do álbum Miles Ahead, que sela sua grande parceria com Gil Evans; entre 1967-1972, quando o trompetista começou a formar seu segundo grande sexteto, com Wayne Shorter (sax), Chick Corea (piano elétrico), Dave Holland (baixo), John McLaughlin (guitarra) e Jack DeJohnette (bateria) (e revelando outros gigantes como Herbie Hancock e Tony Williams), marcando sua fase elétrica que seria alvo de críticas por boa parte da imprensa.

E tem também a última fase, entre 1985-1990, talvez a mais incompreendida de todas. Depois de passar por um período de limbo artístico após sucumbir às drogas e bebidas novamente (ele já foi viciado em heroína no início dos anos 50, uma das fases mais difíceis de sua carreira), Miles ficou inativo entre os anos de 1976 e 1980. Tentou inúmeras vezes gravar alguma coisa: Gil Evans se esforçou como pode para revitalizá-lo, inclusive chegaram a ensaiar algumas notas. Mas Miles Davis retornava ao relento solitário de sua imensa casa, promovendo festas hedonistas e travando relações com gente pouco amigável. Seus amigos mais queridos chegaram a telefonar para a sua irmã nesse período, mas foi a atriz Cicely Tyson quem o socorreu.

Charlie Parker foi uma de suas grandes influências. Miles chegou a dizer a um jornalista: “quando você for falar de Parker, dê todas as estrelas que você tem. O que ele faz é descomunal”

“Cicely veio a minha casa e comecei a parar de ver aquelas mulheres (…), ela meio que me protegia e comecei a me alimentar melhor, não bebia tanto. Ela me ajudou a parar com a cocaína. Ela me fez entrar na acupuntura para ajudar meu quadril [que ele sofria com dores] a ficar no lugar novamente”, declarou Miles Davis.

Depois dessa difícil fase, Miles Davis gravou uma de suas grandes obra-primas, Tutu (1986), que mostra sua proximidade com a música pop ao renovar temas de Michael Jackson (“Human Nature”) e Cindy Lauper (“Time After Time”) com uma sutileza no trompete em ‘mute harmon’ que, apesar da insurgência sonora, cria uma dinâmica surpreendente. Esse recomeço muito se deve ao baixista Marcus Miller, que mostrou ao jazzista outras possibilidades de gravação com arranjos eletrônicos.

Conflito com Wynton Marsalis e saída da Columbia
O autor defende o biografado com o afinco de um fã que despendeu longo tempo em pesquisas e audições para ajudar a entender uma das maiores mentes musicais do século XX: “Ele estava expandindo firmemente seus conhecimentos em formatos e performances já explorados no jazz”.

Ian Carr firma bem sua posição quando fala sobre o conflito que existia entre os trompetistas Miles Davis e Wynton Marsalis, chegando a chamar o então novato Marsalis de imaturo por não perceber as inovações do primeiro. Marsalis dizia que todas as explorações de Miles soavam estapafúrdias e não condiziam com o grande momento do jazz revivalista.

De fato, Miles não estava interessado em muitas ladainhas, mas teve que recuar quando a Columbia, gravadora a qual pertenceu por mais de três décadas, recusou a lançar seu LP Aura em 1985 (mas foi comercializado posteriormente em 1989) e sugeriu uma parceria com Marsalis. Daí, ele pulou para a Warner, onde iniciou sua terceira grande fase.

Mesmo com mais de 60 anos, Miles ainda mostrava vigor para continuar produzindo. Ele também estava bastante focado nas artes plásticas, tendo como grande referência o artista pop Jean-Michel Basquiat. O baterista Jack DeJohnette resume bem a experiência que teve com o trompetista: “Acho que a melhor coisa que Miles nos ensinou, não apenas musicalmente mas na vida, é que nós devemos aprender a aceitar as mudanças, abraçá-las ao invés de temê-las”.