January 28th, 8:43am January 28th, 8:59am Tiago FerreiraEditor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).
La La Land é um ótimo filme. Suas cores são exuberantes, a atuação de Emma Stone dá brilho a uma personagem rodeada de vazio e os números musicais impressionam pela transição de eras.
Há muitos motivos para chamar o filme de Damien Chazelle de maravilhoso. Mas não por conta da abordagem do jazz.
Assim como em Whiplash, La La Land tem o jazz como sinônimo de perfeição a ser alcançado. No filme de 2014, um garoto baterista queria ser tão bom quanto Buddy Rich; no longa que já tem 14 indicações ao Oscar, o jazz é a perfeição de um tempo que o personagem de Ryan Gosling não viveu.
A real é que os dois filmes entenderam o jazz de forma errada. Num dos momentos mais equivocados de La La Land, Mia (Emma Stone) diz a Sebastian (Ryan Gosling) que não deveria abandonar o sonho de fazer com que o jazz continue vivo.

Desde quando o jazz morreu?
A ideia de que o gênero está pincelado por playlists de John Coltrane e Thelonious Monk, ou de incontáveis relançamentos de Miles Davis, que mais servem para fomentar a prateleira de colecionadores do que puxar novas audiências para a música, faz com que o jazz seja uma ideia distanciada, uma miragem.
Sebastian parece viver nessa bolha de nostalgia, porque acredita que Count Basie e Louis Armstrong estão num plano superior ao que acontece na realidade. (Fato curioso: se ele soubesse de histórias em que Armstrong simplesmente dava a produtores como Tommy Rockwell e Joe Glaser o poder de demitir qualquer membro da banda, sem nunca bater de frente com eles, provavelmente Seb não narraria de forma tão romantizada as recusas do trompetista em tocar em bandas de marchinha, mesmo porque ele era bem remunerado para um jazzista na época.)
Um diálogo com Keith (John Legend), em La La Land, poderia ter levado essa discussão a um patamar realmente interessante do ponto de vista musical. “Você é tão obcecado por Kenny Clarke e Thelonious Monk. Esses caras foram revolucionários. Mas como você pode ser revolucionário sendo tão tradicionalista?”, questiona Keith.
O efeito desse puxão de orelha fez com que Sebastian não só assumisse de vez o teclado em uma banda considerada comercial de ‘novo jazz’ (The Messengers), como inspirou o personagem a empunhar o instrumento tal qual um rockstar, forçando efeitos eletrônicos em busca do som mais alto e explosivo possível.
O grupo em que Sebastian toca me lembrou como seria se o The Roots tivesse um cara tipo o tecladista do Deep Purple ali no meio. Seria um contexto bem parecido: um músico desajustado, sem entender nada, com uma noção exibicionista como performer, embora talentoso.
Seb, assim como o personagem Andrew, de Whiplash, têm visões individualistas do que torna alguém um grande jazzista.
Exemplos atuais mostram claramente que o que alguns chamariam de ‘salvação’ (enquanto eu prefiro chamar de renovação) do jazz se baseiam explicitamente na força coletiva. Kamasi Washington demorou quatro anos e contou com mais de 30 músicos para finalizar The Epic (2015), considerada a grande força motora do gênero na atualidade.
Mesmo a pianista japonesa Hiromi, que toca num combo power-trio, não soaria tão interessante se não contasse com o apoio de Anthony Jackson (baixo/guitarra) e Simon Philips (bateria) em seu excelente Spark (2016) (te convido a ouvir a faixa-título, um exemplo de integralismo avant-garde espetacular).
A perspectiva individualista do jazz é um legado negativo que já vem de muitos anos. Devemos atribuir isso aos prêmios de instrumentistas do ano da Downbeat, ou a tendência a isolar um saxofonista, um trompetista ou um pianista de um combo?
Charlie Parker é um exemplo clássico de como o individualismo lhe pregou algumas. O filme de Clint Eastwood, em que Forest Whitaker pincela um Bird meio sombrio, dá uma vaga ideia de como o sax-altista se prendeu às amarras do virtuosismo do bebop. Seus solos de “Koko” e “Anthropology” valem mais que muitas aulas da Universidade de Berkeley, mas ele mesmo sabia que precisava se integrar.
O bebop foi uma revolução, mas ele por si só não foi o bastante para que Bird evitasse uma vida de durezas, tocando em bares cada vez mais vazios e menos entusiasmados com toda a virtuosidade dos músicos que tocavam com ele.
O trompetista Dizzy Gillespie, também um dos principais nomes do bebop, sempre despertou inveja no amigo Parker por se sair bem-sucedido com big bands na maioria de suas jornadas. Dizzy experimentou com cuban-jazz, música africana e até flertou com o samba – chegando a gravar uns takes com o Trio Mocotó, que ficaram engavetados por décadas.
Cecil Bridgewater, trompetista de hard-bop, explicou o que fez de Dizzy um mestre. “Ele estava lá com as big bands dos anos 1930. Estava nos anos 1940, com os grupos pequenos, e muitas das coisas que ele fez com aqueles grupos foram fonte de desenvolvimento para as big bands. Tudo vem da tradição das big bands. Mas ele mudou o foco e os tipos de notas, ritmos e tempos musicais que elas tocavam. Dizzy evoluiu essa linguagem nos anos 1950, 60, 70, 80 e 90. Ele poderia tocar qualquer coisa”.
O crítico Stanley Crouch, biógrafo de Charlie Parker, disse que era intenção dele ser ‘deus’, e essa megalomania parece ter afetado os novos aficionados por jazz que surgiram de 1955, ano de sua morte, pra cá. (O próprio Miles Davis, que havia tocado com Bird, mesmo depois de seus trabalhos inovadores com Gil Evans, com o lançamento de Kind of Blue, com o segundo grande quinteto e com o flerte com o hip hop no fim da vida, disse que Charlie Parker sempre permaneceu seu ídolo.)
Será, então, que a culpa dos personagens de Whiplash e La La Land deve ser creditada ao excesso de personalismo dedicado à Charlie Parker? Creio que não. Essa conta, claro, vai para o diretor Damien Chazelle.
Os personagens de seus dois últimos filmes têm uma devoção estética em prol de um virtuosismo individual. La La Land mostra Seb tocando com um quarteto de jazz nos minutos finais, mas o clímax da cena é quando ele emenda um solo arrebatador, sem acompanhamento algum, gerando uma espiral de acontecimentos com Mia.
Tratava-se de uma realidade em busca de um sonho, no qual a verdadeira essência do jazz foi ignorada. Mesmo assim, assistam ao filme. Ele é muito bom.
