Gravadora: Brainfeeder
Data de Lançamento: 5 de maio de 2015
Avaliação: 7.5/10
Um disco com mais de 3h, 10 músicos na banda, participação de uma orquestra com 32 instrumentistas e título The Epic.
A estreia do sax-tenorista Kamasi Washington na gravadora Brainfeeder é portentosa, e com credenciais que jazzistas mais antigos considerariam reflexo dos nossos tempos. Com boa rodagem no universo hip hop, Washington fez tour com Snoop Dogg e Chaka Khan, mas cravou atenção ao participar de To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar. Ele é amigo do produtor e exímio baixista Thundercat (que participa, ao lado do irmão e baterista Ronald Bruner Jr., no disco) e está lançando o álbum por um selo cofundado por Flying Lotus – dois nomes que, por mais que façam uso de elementos jazzísticos, são mais vinculados à eletrônica.
Quando se fala em sax-tenor, inevitável que a influência venha de John Coltrane. Mas, além do estilo de tocar, a ambientação sonora revolve à espiritualidade que também vem de sua mulher, Alice Coltrane. Em suma, The Epic é Giant Steps (1959) e Universal Consciousness (1971): enquanto o estilo do tenor de 34 anos é baseado em notas pungentes e destreza ágil, o pathos sonoro do disco deve muito à tia de Flying Lotus (ora, está tudo relacionado). Isso não ocorre por Kamasi ter bebido paulatinamente dessas fontes – acontece mais por conta da atualização dessas obras no imaginário pop, onde a contribuição do jazz é mais sentida por meio de notas impactantes, numa sonoridade que não receia ambições.
O que sobressai bastante neste registro de Kamasi é o dinamismo. “Change of the Guard” inicia espiritualmente cósmico como um disco straight-ahead de Sun Ra, enquanto “Re Run Rome” remete ao Prime Time da era free-funk de Ornette Coleman. Cameron Graves (do Graves Brothers) delineia a construção das notas numa escola próxima ao contemporâneo Orrin Evans (do Captain Big Black Band), algo que o ouvinte nota de cara logo na primeira canção.
O contrabaixo de Miles Mosley traz a elasticidade funky que permite a Kamasi elaborar um fraseado simples e efetivo em “Askim”, mas o ponto alto fica no solo de Thundercat no baixo elétrico.
Ainda que seja interessante a dedicação a 17 faixas – muitas delas com mais de 10 minutos – o desgaste por parte do ouvinte é inevitável. Não demora para que as notas de Kamasi Washington percam o frescor e caiam para trechos que – parece – já ouvimos anteriormente. Este é o mal que acomete, por exemplo, os 5 minutos iniciais de “Isabelle”, muito dependente do baixo de Mosley como mantenedor. “The Next Step” é um tema em que a veia Sonny Rollins poderia pulsar mais forte; Kamasi demora mais de três minutos para encontrar o ponto melódico em que desenvolve notas construtivistas, e deve isso ao suporte no teclado de Brandon Coleman.
As muitas transições rítmicas de The Epic são sagazes. O saxofonista tem habilidade de adaptar-se a diferentes gêneros. Em “Final Thought”, joga muito bem com o swing latino – veia que parece pulsar no veterano percussionista Leon Mobley, que tocou do folk ao reggae com caras como Quincy Jones e Damian Marley. “The Rhythm Changes” segue mais a linha Robert Glasper, com a voz neo-soul sensualmente serena de Patrice Quinn, adornada por um coro de mais de 20 músicos. Ainda que seja uma boa faixa, o potencial de Patrice é mais bem percebido em “Henrietta Our Hero”, um jazz vocal orquestrado que ganha um contorno meio Lester Young no sax e bateria inteligentemente apimentada, no melhor estilo Elvin Jones.
“Leroy and Lanisha” é a faixa onde vemos finalmente o trompete de Igmar Thomas e o trombone de Ryan Porter adentrarem um cool-jazz de quentura. Kamasi ainda precisa desenvolver o aspecto simbiótico dos metais, que não possuem tanto corpo quanto teclados/piano e baixo/percussão no seu trabalho. Ao apostar no individualismo de seus solos, faz com que o impacto de seus fraseados diminua quando decide fortalecer os momentos rítmicos. Ou seja, para cada fraseado instigante de “Leroy and Lanisha” e “Re Run” nos metais, surge falta de inspiração melódica em lamentos como “Seven Prayers” e a mencionada “Isabelle”.
Cobrar meta-habilidade de um músico que tem muito a desenvolver pode soar complexo de Fletcher, mas é o que estimula um trabalho com propostas tão abrangentes e com um título tão superlativo como The Epic.
Errata
• Na verdade, este é o 4º disco de Kamasi Washington, não o álbum de estreia, como estava anteriormente. Os outros discos do saxofonista são: Live At 5th Street Dick’s (2005); The Proclamation (2007); e Light Of The World (2008).
