A semelhança entre café e jazz é que ambos são maravilhosos. Costumam nos manter agitados – um por conta da substância da cafeína; o outro, pelo swing musical.
O que ocorre é que, pelo menos em cidades cosmopolitas como São Paulo e Rio de Janeiro, o café tornou-se algo associável ao relaxamento. O que fazer depois de um almoço farto? Ora, tomar uma xícara de café. Se tiver jazz então, hmmm, delicioso.
Essa rotina pode funcionar como xaveco pra pegar mulher ou rapaz. Mas, quando se pensa que nem sempre jazz é relativo à tranquilidade, e nem o café ao relaxo, como se justifica a coerência ou a tentativa de unir um e outro? Tentar tornar isso um hábito saudável tem lá sua jogada de marketing mas, pensando no significado que o jazz (e o próprio café) tem, esse hábito pode ser mais pernicioso do que se pensa.
[pullquote]O problema quando se associa o jazz ao relaxamento é a criação de um estigma que desvaloriza a real proposta do que foi musicalmente concebido[/pullquote]
Primeiramente, o jazz não é pautado pela tranquilidade. Mesmo suas vertentes menos intensas, como cool-jazz e modal, prezam pelo mínimo que seja de atenção por parte do ouvinte. As sutilezas e pausas que músicos como Stan Kenton ou Miles Davis interpõem em suas obras perdem e muito quando se tornam secundárias.
Não que o jazz exija atenção redobrada toda a vez que for reproduzido. O problema quando se associa o gênero ao relaxamento é a criação de um estigma que desvaloriza a real proposta do que foi musicalmente concebido.
Mais que respeito às decisões que levam a escolhas como inserção entre uma nota e outra, o jazz tem, em sua essência, uma química de trabalho colaborativo que pode parecer impossível de perceber em algumas ocasiões. Sim, você está errado se acha que a economia de acordes de um saxofonista como Lester Young e Oscar Peterson em “I’m Confessin’” representam falta de criatividade.
Errado, também, é sugerir uma dedicação cirúrgica ao se deparar com o jazz. Como disse Nina Simone em certa ocasião, “it’s just a feeling“, ou seja, é sentindo que você percebe as nuances, as belezas ou mesmo o incômodo da música no ar.
Deveriam, então, ser proibidos os cafés que reproduzem jazz? É heresia afirmar isso, afinal, cada um faz o que quer. Até vender pipoca com jazz tá valendo. É a associação com a tranquilidade que soa herege. E, sendo assim, vale lembrar ao desavisado: e se acontece de rolar um free-jazz à lá Unit Structures (1966)? O que explicar pro cliente quando, sem querer, estiver rolando Cosmos (1976) de Sun Ra uma altura um pouco acima do normal? Ou Free Jazz (1961)? Ou os discos mais distorcidos do Weather Report?
As grandes cidades têm a mania de ‘elitizar’ o que considera sofisticado. E, de sofisticado, o jazz só tem a sonoridade. Seu universo e sua dinâmica entendem que sofisticação tem a ver com emoção como um diálogo acessível com o ‘receptor’. Qualquer pessoa, mesmo os bebês, têm a ganhar ao propor um tipo de exercício em relação ao jazz, que vai além da mera secundarização ou música de elevador. Seja o jazz de big-band ou o jazz em seu formato mais cru – solo, dupla ou trio: o diálogo é estabelecido com o ouvinte. E esse diálogo ganha outros contornos quando se para pra ouvir um disco, coloca no fone de ouvido no caminho de trabalho ou é contemplado nos palcos.
Reservá-lo para o ‘momento do café’, no entanto, é quando menos se aproveita de seus benefícios.
Das muitas classificações relegadas ao jazz em mais de um século, acompanhamento com café não cai nada bem. Reserve sua atenção – ou o mínimo dela – a uma das grandes maravilhas sônicas que a humanidade nos concebeu.
