
O caos reinava poucos dias depois do terremoto – e permanece até hoje (Crédito: Gorka Lejarcegi)
Hoje, completa-se um ano desde a catástrofe no Haiti, que deixou mais de 230 mil mortos e deu margem para o alastramento de doenças como a cólera. Apesar dos investimentos de mais de US$ 4 bilhões pelo mundo, menos de 25% desse dinheiro chegou ao local, como informa o Estadão de hoje.
Para o país se reerguer, são necessários pelo menos US$ 11,5 bilhões, ajuda que não virá nem tão cedo. Apesar de toda a demagogia existente nessas doações, muito ainda precisa ser feito pela comunidade internacional.
Peter Hallward, colunista do jornal britânico The Guardian, lembrou em artigo do ano passado que grandes catástrofes naturais, como terremotos, já aconteceram anteriormente no Haiti. Mas ele atenta ao fato de que o maior problema do país é a pobreza; e a pobreza, a consequência brutal da colonização.
No século XVIII, o Haiti já chegou a ser a colônia francesa mais prolífica em termos de produtividade de açúcar, cacau e café, apesar do sistema opressivo dos europeus. Mesmo assim, em 1794 foi o primeiro país do mundo a abolir a escravidão após uma grande revolta popular.
O país tentou estabelecer uma política independente, mas o ex-escravo Toussaint Louverture, que liderava a população haitiana, foi capturado e morto pelos franceses, que incitaram a proclamação da independência e bloquearam comercialmente o país por mais de seis décadas. Para sair da reclusão, os haitianos tiveram que pagar uma absurda quantia para os franceses, abalando imensamente sua economia.
Em 1915, os norte-americanos ocuparam o Haiti com a premissa de organizarem politicamente o país. Na tentativa de prevenir o cargo de presidência aos mais pobres e evitar manifestações populares, eles apoiaram em 1957 o político François Duvalier, o Papa Doc, para administrar o país. Papa Doc instaurou uma ditadura que não permitia articulações políticas oposicionistas e espalhou a política do medo, perseguindo a Igreja Católica e disseminando a exploração vodu. Essa perseguição perpetuou-se até a década de 1980, com seu filho Baby Doc no cargo.
Tempos depois, em 1990, o padre católico Jean-Bertrand Aristide assumiu o poder com 75% dos votos da população haitiana em eleições diretas, mas foi deposto pelos generais e obrigado a se exilar nos Estados Unidos. Como retaliação, a comunidade internacional decidiu bloquear as relações comerciais com o país, desestabilizando de vez sua economia. Em 1994, Aristide voltou ao poder, mas assumiu um Haiti mergulhado na miséria e no caos da violência.
A partir de então, a situação só piorou. Sem articulação política sólida e com uma economia estagnada, o país não tinha condições de oferecer estabilidade a uma população de mais de 8 milhões de pessoas.
Portanto, a dívida das grandes nações com o Haiti é imensa. Séculos de colonização e exploração culminaram em um desastre civil que o tornou um dos piores países para se viver. Sem dinheiro, sem força política, sem aliados, sobrevivendo sob o espectro da cólera e em meio a um caos na organização das doações e na política, o Haiti passou a ser um fardo para as nações mais ricas. Quando deveria ser levado mais a sério.
Este texto tem trechos do artigo “Haiti entre a demagogia, o caos nas doações e um crédito histórico que provavelmente não será debitado“, que publiquei no meu antigo blog.
