O vídeo acima é registro do último show oficial de Miles Davis, gravado em Viena no dia 12 de julho de 1991. Poucos meses depois, mais precisamente 28 de setembro daquele mesmo ano, o trompetista viria a falecer devido a problemas respiratórios.

Ao assistir essa apresentação, já dá pra perceber que a idade estava pesando no ritmo musical de Miles. Os períodos áureos para um músico de jazz são efêmeros, principalmente para os que tocam instrumento de sopro. Com o avanço dos anos, aquele vigor dos solos em longo espaço de tempo vão dando lugar a sopros mais ligeiros e esvoaçantes.

Outra grande contribuição de Miles Davis era sua percepção aguda para encontrar músicos grandiosos. Sem ele, provavelmente não teríamos John Coltrane, Sonny Rollins, Herbie Hancock…

Logo no começo, quando Miles está com o trompete em uma bela simbiose com Foley e seu baixo funky, vemos que o jazzista se esforça o quanto pode para vangloriar a privilegiada plateia que estava contemplando seu show. O saxofonista que está tocando neste vídeo é Kenny Garrett que, depois de tocar com Miles, chegou a ganhar Grammys e ser convidado para alguns dos maiores grupos de jazz no momento.

E aí vemos uma das maiores contribuições de Miles: a percepção aguda de encontrar músicos grandiosos. Só para saber: ele revelou John Coltrane, o que, por si só, já dá uma amostra. Antes de se tornar o principal expoente do hard bop, Coltrane era um músico tímido que veio da Carolina do Norte. Ele tinha o mesmo apreço por Charlie Parker, assim como Miles. Juntou-se ao primeiro grande quinteto de Miles em 1955 e foi aprimorando suas habilidades com o lançamento dos discos Cookin’, Relaxin’, Workin’ e Steamin’, tocando no quinteto do trompetista.

Depois de alguns problemas com drogas (Miles, naquele momento, não admitia quem usasse drogas em seu grupo, justamente porque passara maus bocados após superar um vício de heroína que, décadas depois, novamente iria afetar sua carreira), Coltrane retornou em 1958 ao quinteto de Miles para gravar o disco mais emblemático de jazz de que se tem notícia: Kind of Blue.

Voltando às revelações de Miles Davis: se não fosse o trompetista, talvez os ouvintes passassem despercebidos por Sonny Rollins (sax), Dave Holland (baixo), Chick Corea (pianos), Herbie Hancock (pianos), Bill Evans (piano), Keith Jarrett (piano), Ron Carter (baixo), Cannonball Adderley (sax), Wayne Shorter (sax), Tony Williams (bateria)… nossa, a lista é infindável!

Por isso, não seria exagero conspirar: como seria o jazz de hoje se Miles Davis ainda estivesse entre nós? Por mais que suas habilidades musicais estivessem sucumbindo com a idade, será que ele ainda se dedicaria em dar novos panoramas ao gênero?

A julgar pelas tentativas musicais de seu álbum de estúdio, Doo-Bop, provavelmente sim. Nele, Miles faz uma ponte do jazz com o hip hop a partir das experimentações que já vinha fazendo com o funk (que resultaram no ótimo Tutu, de 1986).

Tais pontes com outros gêneros musicais são apenas uma pequena porcentagem da genialidade musical do trompetista: ele já fez trabalhos orquestrais (Sketches in Spain, Porgy and Bess), inventou o cool jazz (The Complete Birth of the Cool), o modal (Kind of Blue), o fusion jazz com as primeiras nuances de blues (In a Silent Way) e rock (A Tribute to Jack Johnson). Sem falar no flerte com músicas orientais (Bitches Brew) e toda a fuzarca do funk (On the Corner).

É muita coisa para deixar batido os 20 anos de morte de um dos maiores músicos de todos os tempos. Rest in Peace, Miles Davis.