Se você ainda não conhece o trabalho da incrível Nicole Mitchell, vá direto em Maroon Cloud. A flautista exauriu de vez as percussões e trilhou um novo caminho rítmico e melódico rumo ao afrofuturismo.

O Brasil também não fica atrás em novidades. O grupo Alabê KetuJazz inovou ao abordar os terreiros de candomblé numa perspectiva jazzística em seu álbum de estreia. E o veterano Itiberê Zwarg, parceiro das antigas de Hermeto Pascoal, renovou seu grupo e lançou o ótimo Intuitivo.

Tem mais lançamentos da pianista Shamie Royston, do power-trio sueco The Thing (maravilhosamente barulhento, como se espera), o projeto espacial de Elliott Sharp e muito mais.

Antes, tem a playlist atualizada do Groovin’ Jazz com as novidades mais recentes (siga o Na Mira no Spotify).

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E, agora sim, a lista dos 10 melhores álbuns de jazz das últimas semanas: ​

Alabê KetuJazz

Alabê KetuJazz

Gravadora: Tratore
Data de Lançamento: 10 de agosto de 2018

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A música do candomblé é essencialmente rítmica. Sua pulsação é contínua e atinge picos, influenciando o andamento do ritual. Quando ouviu e testemunhou tudo isso, o percussionista francês Antoine Olivier pirou. Com a nação Ketu, decidiu unir seus conhecimentos de jazz e world-music. O saxofonista Glaucus Linx (que trabalhou com Elza Soares, Isaac Hayes etc) ajudou a encontrar uma espécie de linguagem que se adequasse à essência percussiva do candomblé, e surgiu o Alabê KetuJazz, que se mostra preocupado com a execução de todo o ritual.

“Em 2006, me mudei para o Rio de Janeiro, onde procurei as fontes dos ritmos e da espiritualidade afrobrasileira. E assim encontrei o mestre Dofono de Omulú, que me aceitou como aprendiz e me ensinou a arte dos atabaques, além de me introduzir em muitos dos terreiros do Rio de Janeiro, onde aprendi a tocar para os Orixás durante 10 anos”, disse Antoine ao Na Mira sobre o período que antecede ao Alabê KetuJazz.

Por isso, ao ouvir o álbum, a ideia é transportar o ouvinte para os terreiros. Neles, o saxofone desempenha o papel do ‘dançador’, ou seja, o protagonista de uma narrativa que amarra os 10 temas do disco. Em “Agueré: A Caça de Odé”, ele conta com auxílio do sax-barítono de Henrique Band, num toque dedicado a Oxóssi. “Bravum Sete Cores” explora diversos ciclos, com “certa inspiração de Ravel”, segundo Antoine. Para construir tudo isso, o bandleader desenvolveu uma técnica de gravação específica, em que dezenas de nomes do candomblé também participam, “com muito cuidado para manter os sons mais próximos dos toques sagrados”, de acordo com o texto de divulgação.

Alive in the East?

Binker and Moses

Gravadora: Gearbox
Data de Lançamento: 22 de junho de 2018

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O saxofonista Binker Golding e o baterista Moses Boyd formaram um duo de free-jazz que deu tão certo, que acabou rendendo a eles a importante premiação do Mobo, em 2015. Três anos depois, os britânicos renovam essa parceria em Alive in the East?, que mira na influência de John Coltrane mais em seu aspecto estrutural, como se fosse um caminho a perseguir.

Por mais que a dupla traga um solista de peso como Evan Parker, a ideia é de total desconstrução harmônica, como se ouve em “How Fire Was Made” ou em “The Discovery of Human Flesh”, que estimula uma fuzarca harmônica coletiva dos demais integrantes – Yussef Dayes (bateria), Tori Handsley (harpa) e Byron Wallen (trompete).

Na curta “How Air Learn to Move”, Binker suga todo o ritmo e a harmonia num solo estarrecedor e, se alguém duvida que Moses é um dos grandes bateristas de jazz da geração atual, observe seu trabalho de construção rítmica em “The Birth of Light”, que abre o disco. Ali tem afrorreligião, soul, hip hop e uma vontade de estourar num som vibrante.

Audacity

Buster Williams

Gravadora: Smoke Sessions
Data de Lançamento: 15 de junho de 2018

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Se tem uma coisa que o baixista Buster Williams faz muito bem é eclipsar nomes de peso como Herbie Hancock, Betty Carter e Dexter Gordon, muitas vezes servindo como complemento ao pianista ou apontando direções de um grave obtuso – como faz sabiamente na melodia de “Sisko”, um dos destaques de seu novo álbum, Audacity, o primeiro desde Griot Liberte (2004) como bandleader.

Neste novo trabalho, o saxofonista Steve Wilson é beneficiado pelas muitas dinâmicas rítmicas impulsionadas por Buster. Se na primeira faixa do disco, “Where Giants Dwell”, Buster instiga um arroubo melódico por parte de Wilson, em “Stumblin’” melodia e harmonia se fundem em performances estonteantes de Steve e do próprio Buster.

O pianista George Colligan é a ponte que pavimenta o grave das cordas e os muitos agudos do sax de Steve. O resultado é um som original e cheio de energia, que catalisa as mais ágeis composições de uma Renee Rosnes com toda a malemolência dos The Messengers. Buster é daqueles músicos que sabe como extrair o melhor de uma melodia, por isso tem paciência para construir o mood sentimental de uma “Triumph” ou dar o start na engrenagem inventiva que é a faixa-título, que reúne diversos insights de solos e harmonias que se agigantam para o ouvinte. Não é preciso ser conhecedor de jazz para perceber a vibração de Audacity; a falsa ‘simplicidade’ de suas melodias encantam do começo ao fim do disco.

Transmigration at the Solar Max

Elliott Sharp Carbon

Gravadora: Intakt
Data de Lançamento: 15 de junho de 2018

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É preciso imaginar o som da movimentação solar observada pelo local mais próximo que o ser humano poderia chegar. Não precisa ser na Terra. Imagine só testemunhar a desintegração de todos os seus elementos, como se você fosse uma espécie de deus indestrutível desprovido do poder de mudar as coisas. Provavelmente a música de Transmigration at the Solar Max serviria como roteiro: começaria com tudo ruminando em destroços, na vulcânica “Analemma”, passando por renovações estranhas, em “Orrery”, e terminando em um som mais plano, tal qual a conclusão de um novo ciclo astronômico na calma “Anthelion”.

O multi-instrumentista Elliott Sharp reativou o projeto Carbon com o objetivo de simular atividades solares. Resultado: “sonhos febris, danças em êxtase, movimentos inquietos de populações e transferências de almas”, como diz o texto de divulgação.

Eliott conta com a harpista elétrica Zeena Parkins e o baterista Bobby Previte num free-jazz em que energia soa como um tema muito mais complexo do que usualmente nos deparamos. São 5 temas que extrapolam a saturação do calor, com efeitos extremados que nos dão a entender que o apocalipse é aqui, agora, já.

Intuitivo

Itiberê Zwarg & Grupo

Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 10 de agosto de 2018

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O multi-instrumentista Itiberê Zwarg é um dos parceiros mais antigos de Hermeto Pascoal (toca baixo com ele desde 1977), mas se aventura em trabalhos como bandleader desde 1999. De lá pra cá, ele soube como criar um estilo próprio como compositor e arranjador dentro da proposta de ‘música universal’ tão bem alardeada por Hermeto. Em Intuitivo, ele vem acompanhado dos filhos Ajunirã (baterista/saxofonista) e Mariana Zwarg (flautista/saxofonista), garantindo um novo frescor musical – complementado por Cacá Guifer (flauta, sax tenor e triângulo), Sá Reston (baixo, piano e caixa), Carol d’Avila (flauta, flautim, flauta baixo, sax alto e cavaquinho), Raphael dos Santos (piano elétrico/violão) e Janaína Lugon (percussão/voz).

Na música de Itiberê, os ritmos brasileiros são mais aquecidos, fruto de um vigor que remete à juventude. Há espaço para brincadeiras, como em “No Galinheiro do Garga”, mas Itiberê gosta mesmo é da carga flamejante que acompanha a intensidade, vide “Pro Visa Haarala” e “Sítio das Bananeiras”. A faceta multi-instrumentista é bem exemplificada pelos diferentes instrumentos domados por cada integrante, permitindo a criação e tradução de ideias que se alternam rapidamente.

Mesmo porque o termo ‘intuição’, segundo Itiberê, tem a ver com ‘sensação’. No disco, isso se materializa com sucessivas misturas que formam um caldo híbrido único. Em temas como “Partiu”, existe um paralelismo entre fusion-jazz e carimbó, até que a intersecção deságua num ritmo vibrante. “Bom Dia” é outra prova desse caldo: inicia como se fosse um ensaio da Banda de Pífanos de Caruaru e vai se metamorfoseando à medida que os metais traçam novos ritmos – algo que acontece de maneira ágil, como se fosse a linha de raciocínio de alguém elétrico, cheio de energia. Nessa simbiose, as desconstruções e manutenções rítmicas contam mais que os curtos solos dedicados a cada músico. É o andar coletivo do conceito de ‘música universal’ que fortalece a música do grupo de Itiberê.

Sonic Paragon

Jay Lawrence

Gravadora: Jazz Hang
Data de Lançamento: 1º de agosto de 2018

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Professor desde 1998 de música na Universidade de Utah (EUA), o baterista Jay Lawrence tem um vasto currículo como sideman, de Dionne Warwick a Milt Jackson, passando por dezenas de músicos.

Em seu novo álbum como bandleader, Sonic Paragon, fez questão de se cercar de músicos talentosos do porte de Renee Rosnes (piano), John Patitucci (baixo) e o brasileiro Romero Lubambo (violão), entre outros músicos, em busca de uma linguagem abrangente para o jazz, onde o cool se mistura com o hard hop, onde o latin-jazz vai de encontro à música de New Orleans e tudo vai se encaixando em prol de um som mais agradável que provocador, virtuoso ou algo do tipo.

Mas, vale mencionar alguns destaques: em “Tchoupitoulas”, o septeto subverte tempos musicais, com boa performance do trompetista Terell Stafford, que busca o arrojo após usar o ritmo a seu favor. Em “What’ll I Do”, Lawrence é o único elemento provocador com suas baquetas, no que soa como ensaio de um blues. Já em “Dayspring”, ele deixa o violão de Lubambo e o sax de Harry Allen transportarem o ouvinte em uma beleza de pacifismo melódico.

Maroon Cloud

Nicole Mitchell

Gravadora: FPE Records
Data de Lançamento: 10 de agosto de 2018

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Graças a Nicole Mitchell a flauta passou a ganhar protagonismo novamente no jazz atual. E olha que ela trouxe uma nova perspectiva para o instrumento: suas notas se confundem com efeitos, às vezes parecem scats vocais, quando não elevam os temas a campos inimagináveis com sua distinta característica psicodélica, dodecafônica e futurista.

Seu novo álbum, Maroon Cloud, é repleto de pontilismos. Essa é a forma que ela investe para substituir as percussões e baterias, totalmente ausentes por aqui.

O pianista Aruan Ortiz é um importante aliado na interessante arquitetura sônica do álbum. Em “Vodou Spacetime Kettle”, suas notas são um contraste aos solos de Nicole. Enquanto a bandleader provoca um groove que remete aos spirituals, em “A Sound”, Aruan impõe uma melodia contínua. Essa ambiguidade das cordas forma um ambiente estranho, mas totalmente aproveitado por Fay Victor, uma das grandes cantoras de improviso de nossos tempos.

Leia também: Um mundo distópico precisa de criatividade, resistência e Nicole Mitchell

Untitled (AITAOA #2)

Portico Quartet

Gravadora: Gondwana
Data de Lançamento: 27 de abril de 2018

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A sigla AITAOA diz respeito ao último disco do Portico QuartetArt in the Age of Automation, lançado no ano passado. As sessões deste Untitled vieram da gravação do antecessor, assim como a climatização: mais etérea, filosófica, um tipo de ambient-jazz que mostra o presente que insistimos em associar a um futuro longínquo.

Se formos comparar, AITAOA #2 soa um pouco mais sereno, embora “View From a Satellite” pareça o vislumbre de um planeta prestes a explodir (com fantásticos solos de sax-soprano de Jack Wyllie) e a seguinte, “Celestial Wife”, sustente uma beleza que vem da melancolia, mostrando a habilidade do quarteto em compor trilhas sci-fi.

Em termos de composição e execução, o Portico Quartet encontra o eixo da eletrônica e do jazz, enxugando-os a seus elementos mais sensitivos. A segunda metade do disco praticamente despe todo esse encontro, resultando em um ambient que atinge extremos por seu viés minimalista. Observe “Reflected in Neon”, por exemplo: no melhor estilo Ben Frost, o quarteto relativiza synths numa peça melancólica. Mas, para quem vibra com a típica espontaneidade do grupo, vale a pena investir na primeira parte do álbum, como “Double Space”, espécie de free-jazz-tecnológico, e “Unrest”, que opera como se fosse um jazz interestelar controlado.

Beautiful Liar

Shamie Royston

Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 15 de junho de 2018

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Em seu segundo disco, a pianista Shamie Royston dá uma boa pincelada de talento ao que já convencionamos chamar de bop atual. Ela é arranjadora (trabalhou com Geri Allen, Dianne Reeves, Sean Jones entre outros) e se preocupa bastante com os detalhes. Por isso, seus temas são repletos de nuances – às vezes belamente preenchidos por suas notas de piano, como em “Precious Lullaby”, ou nas notas do saxofonista Jaleel Shaw e do trompetista Josh Evans (escritas por ela), em “Dissimulate”.

A música que abre o disco, “Sunday Nostalgia”, remete ao modalismo por destrinchar escalas, mas quem gosta de temas mais soltos tende a se surpreender mais com “Circulo Vicioso”, onde sugere um balanço tremeluzente ao lado do baixista Yasushi Nakamura. Aqui, Shaw assume o sax-soprano, mas a força da composição reside na sustentação das cordas. A seguinte, “Uplifted Heart”, é citada por Shamie como uma de suas melhores músicas, por trabalhar de forma otimista “felicidade e paz no mundo”, como afirmou no texto de divulgação.

Todas as músicas de Beautiful Liar são composições de Shamie, com exceção de “Lovely Day”, de Bill Withers, um soul fortalecido pela justaposição melódica – e pela ótima performance de Yasushi no baixo.

Again

The Thing

Gravadora: Trost
Data de Lançamento: 18 de maio de 2018

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É comum o The Thing trazer um convidado especial para seus discos. O trio formado por Mats Gustafsson (sax), Ingebrigt Håker Flaten (baixo) e Paal Nilssen-Love (bateria) já tacou fogo ao lado de Neneh Cherry, James Blood Ulmer e Thurston Moore – só pra citar alguns. Em Again, eles chamam o trompetista Joe McPhee em “Decision in Paradise”, tema do saxofonista Frank Lowe de testar as respirações dos grandes feras por trás dos metais. A dinâmica atropelada de Gustafsson e McPhee é um dos grandes momentos do free que você vai ouvir este ano, uma pancada de estremecer.

Mas, em Again, o foco é a renovação musical do trio mesmo. Não à toa, o primeiro tema, “Sur Face”, surge como se o grupo estivesse intencionalmente marcando uma assinatura, algo não tão simples assim quando se fala em free, sem escapes melódicos ou rítmicos. Quando se tem instrumentistas extremamente virtuosos, como Nilssen-Love e Gustafsson, são grandes as chances de se ‘perder’ nessa busca identitária. Essa linha é bem tênue em Again, por isso o trio se preocupa tanto em encontrar um eixo (a preocupação, entenda-se, aqui materializada em mais de 20 minutos dedicado a um tema).

Cada um segue uma linha diferente, sem atritos, forçando o ouvinte a compreender a conexão entre eles. Não há respiros, não há silêncio, não há tempo perdido. Ser meteórico, dodecafônico e extremamente criativo é a onda do The Thing.