Esta seção está ótima para fãs de guitarra. E, se tiver que começar por um disco, vá direto em Mary Halvorson. Code Girl… Gente, que disco! Pra parear com ele, somente a canadense Renee Rosnes, com o esplêndido Beloved of the Sky.
O ‘disco perdido’ do Honorável Harakiri e o novo de John Zorn complementam a seara em diferentes aspectos de estranheza. E, falando em ‘disco perdido’, tem um álbum de 1998 de Keith Jarrett que diz muito sobre a sua nova fase acústica.
Tem álbuns imperdíveis de Caroline Davis, um álbum solo de Matthew Shipp e uma pedrada do Sons of Kemet.
Confira playlist com as novidades e, em seguida, os 10 melhores discos de jazz de março a começo de maio:

Heart Tonic
Caroline Davis
Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 23 de março de 2018
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O terceiro disco da saxofonista Caroline Davis foi motivada por um estudo técnico. PhD em Cognição Musical pela Universidade de Northwestern desde 2010, não foi bem a linha acadêmica o motivo de suas pesquisas para o 3º disco, Heart Tonic. Ela viu o pai morrer por arritmia cardíaca, e decidiu se aprofundar nos aspectos físicos do coração humano. O resultado é mais pragmático do que se imaginaria: Caroline modula emoções com a rigidez de quem faz o possível para manter o controle. Enquanto seu grupo opera como as forças externas, Caroline foca num tipo de execução representativa que dá enredo próprio ao que seria meramente funcional.
Em “Constructs”, ela obedece e é interferida por essa externalidade, mas nem sempre a dinâmica se dá dessa forma. “Penelope”, por exemplo, é sustentada pelos arcos sonoros do trompete de Marquis Hill. “Loss” cria simbiose entre o blues melancólico, o modal e a música latina, expressando um tipo de sabedoria, ou pelo menos de maturidade emocional, que dá ainda mais peso estético aos estudos. Coisas do empirismo.

Lenho
Honorável Harakiri
Gravadora: Mansarda
Data de Lançamento: 2 de abril de 2018
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Honorável Harakiri é um trio de jazz-rock tortaço, um dos melhores projetos abrigados pela Mansarda Records, selo de Porto Alegre (RS) dedicado à improvisação livre. Lenho é o 3º álbum do grupo formado por Diego Dias (sopros), Marcio Moraes (guitarra) e Michel Munhoz (bateria). Gravado em 2016, foi considerado ‘perdido’ pela banda, por conta de alguns problemas técnicos com o registro. “Mas o tempo passou, e decidimos ouví-lo novamente”, disse o grupo em comunicado. “Fizemos o que podíamos e sabíamos com os arquivos crus, e agora apresentamos 40 minutos de densa energia”.
Dias assume na maior parte do tempo o sax-soprano, com notas irradiantes. A guitarra de Moraes acompanha a agilidade, com um tipo de afinação crua que remete a um tempo ainda mais antigo que as origens do blues norte-americano. A bateria de Munhoz, por outro lado, soa como o aspecto mais moderno de Lenho: em “Entalhe”, ele propõe dinamismo na agilidade brutal do tema; já em “Tora”, desempenha um estilo à lá Sunny Murray para se integrar à força do sax-alto de Diego e à guitarra turbulenta de Moraes.

Scandal
Joe Lovano & Dave Douglas Sound Prints
Gravadora: Greenleaf
Data de Lançamento: 6 de abril de 2018
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O álbum que une o saxofonista Joe Lovano e o trompetista Dave Douglas tem pulsação. Mais importante que isso é como existe um senso de união e de integralismo em Scandal. Mestres em atualizar o bop aos tempos atuais, Lovano e Douglas fazem questão de ceder espaço à excelente baixista Linda May Han Oh e ao pianista Lawrence Fields, em transições que acontecem a todo momento. Se a intenção é manter o ouvinte em estado de elevação constante, Scandal faz isso muito bem, mas não é aí que está o segredo.
O que faz de Scandal um disco grandioso é sua macroconsistência. Entre os espaços dos instrumentistas, baladas, temas ágeis e a efetividade de sempre conseguir surpreender, Scandal revela-se, como um todo, uma obra moderna propositalmente conectada ao passado. Do blues melancólico com efeitos controlados, da faixa-título, às modulações harmônicas de “Ups and Downs”, Scandal não distingue estética. Isso porque trata-se de um disco de expressão sentimental, munido da filosofia do ‘unidos, venceremos’. Vitória garantida.

Insurrection
John Zorn
Gravadora: Tzadik
Data de Lançamento: 20 de abril de 2018
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Como é um disco de John Zorn em que ele não precisa tocar? Mais ou menos como Insurrection, embora seja preciso ir além das subclassificações para compreendê-lo. Os guitarristas Julian Lage (que recentemente lançou Modern Lore) e Matt Hollenberg brincam com solos e melodias flamejantes, passando por blues, grind, noise-jazz, fusion e free, com pequenas folgas. Iniciam no melhor estilo Mahavishnu Orchestra, com “The Recognitions”, que exibe um Kenny Grohowski inspirado nas baquetas. O baixo de Trevor Dunn em “A Void” tem herança no free-funk da Prime Time – e a ausência de metais nem chega a ser sentida, já que Lage e Hollenberg se superam num duelo repleto de fuzz, wha-whas e notas dissonantes.
Como, então, captamos a presença de Zorn em Insurrection? No todo. Todas as composições são de sua autoria, além de arranjos, produção e direção artística. Nenhum dos instrumentistas, em seus respectivos projetos, chegaria ao resultado deste disco. Volumoso em sua essência, esteticamente distorcido e sequenciado por ‘surpresas sônicas’, Insurrection traz o potencial elevado de cada instrumentista. Porque a inovação não está na performance, mas nos direcionamentos musicais que surgem – todos imprevisíveis, claro, como se esperaria de John Zorn.

After the Fall
Keith Jarrett Standard Trio
Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 16 de março de 2018
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Por volta de 1995, Keith Jarrett teve que se afastar dos palcos por conta de uma síndrome de fadiga crônica. Quando voltou, em 1998, passou a não se preocupar mais com o formato de álbum: desde então, suas melhores produções seriam registros ao vivo (incluindo o ótimo Rio, de 2011, gravado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro). Para o tão esperado retorno, ele contou com o influente grupo Standards Trio, complementado por dois instrumentistas tão experientes quanto ele: o baixista Gary Peacock e o baterista Jack DeJohnette. Naquela época, ele lançou o álbum The Melody At Night, With You (1999), gravado em sua própria casa. Neste registro, After the Fall, gravado no Centro de Artes Performáticas de New Jersey, vemos Keith mais empolgado com a turnê.
Para isso, ele decidiu voltar-se um pouco mais ao bebop. “Quando voltei a tocar piano pela primeira vez, não queria tocar de forma tão intensa. Não queria me aprofundar tanto assim no piano. Bebop era a coisa certa a se fazer, porque tem algo iluminado nele”, disse Jarrett, que ficou famoso por integrar o segundo grande quinteto de Miles Davis, na era fusion. O também pianista pioneiro do bebop Bud Powell entra nesse campo de referências (“Bouncin’ With Bud”), mas o Standard Trio prova que tem capacidade de sobra para dar um novo panorama para “Scrapple From the Apple” (Charlie Parker) e para “Santa Claus Is Coming To Town”, de John Coltrane, de onde tirou toda a seriedade do tema, sem perder a aura gospel-bop do original. Vinte anos depois, After the Fall documenta a renovação estilística de Jarrett. Sua nova fase tem mais a ver com o sentimental do que com a técnica, um caminho natural para quem não precisa provar mais nada pra ninguém.

Code Girl
Mary Halvorson
Gravadora: Firehouse 12 Records
Data de Lançamento: 30 de março de 2018
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Pode não parecer, mas o jazz guarda com carinho as grandes guitarristas. Foram transformadores os solos de Mary Osborne e Emily Remler, para citar duas das mais grandiosas. Além disso, nos primeiros anos de carreira, a compositora/arranjadora Maria Schneider revigorou o protagonismo da guitarra (vide Evanescence, de 1994, e Coming About, de 2000). Todas essas histórias, de certa forma, contribuem para explicar a grandiosidade de Mary Halvorson, guitarrista de Boston criada no Brooklyn que tem acrescentado cada vez mais elementos em seus discos.
Começou como power-trio, em Dragon’s Head (2008). Passou por momentos solo, chegou a um octeto e podemos dizer que aterrissa com ambição como um forte quinteto, em Code Girl. Halvorson dinamiza técnicas de slide, com influências que se esticam do folk ao flamenco em distintas sublevações estéticas. Nesse caso, o baixista Michael Formanek surge como um complemento, ou uma espécie de quinto braço para Halvorson (porque, é sério, parece que essa mulher faz uso de uns 20 dedos para atingir extrema variação de solos).
Code Girl é, sim, um disco ambicioso, e faz por onde por confrontar tradições e experimentalismos sem interlúdios. A cantora Amirtha Kidambi encaixa sua técnica holística em temas como “My Mind and I Find in Time” e “The Beast”, que servem de abertura para cada um dos dois discos. O trompetista Ambrose Akinmusire, um dos melhores de nossos tempos, também integra o quinteto. Seus solos em temas como “Off the Record” e “And” fazem valer a força do blues dentro dos intensos experimentos jazzísticos do disco. Quanto a Halvorson, provou mais uma vez que está longe de quaisquer classificações. Ela poderia domar um trio de fusion-jazz, adequar a guitarra a um projeto de spiritual-jazz, contorcer as notas a ponto de transfigurar qualquer estilo musical… Sim, com apenas 10 anos de carreira de bandleader, Mary Halvorson já é uma das maiores – e Code Girl, seu melhor registro até agora.

Rummage Out
Matt Piet & His Disorganization
Gravadora: Clean Feed
Data de Lançamento: 16 de março de 2018
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Chicago, já conhecido por ser um berço experimental, tem mais um novo expoente. Do local que nos brindou com instrumentistas do calibre de Roscoe Mitchell e Rob Mazurek, surge o pianista Matt Piet, formado em Berklee, que revela grande apreço pela interligação do melódico com as quebradas do avant-garde. Essas melodias são sustentadas enquanto os metais surgem destroçando tudo à sua volta – impressão já posta pela dupla Josh Berman (corneta) e Nick Mazzarella (sax-alto) na primeira parte do tema “Lost & Found”, que abre o disco. São 15 minutos de um vaivém rítmico em que Piet aparece como modulador. Ao contrário de Berman-Mazzarella, o pianista precisa de mais tempo para carregar seu aparato de destruição sonora, algo que vai se destilando aos poucos na (des)construção do tema.
A segunda faixa do álbum, “The Last Place You Look”, parece um tema de teatro de vanguarda. Os metais soam mais minimalistas de começo – assim como a bateria de Tim Daisy – até que Mazzarella e Piet formam uma cortina sonora intensa, como se musicassem dois personagens antagônicos. É Mazzarella quem puxa a intensidade sônica, e Piet vai pegando as brechas que ficam pra trás, num tipo de complementaridade sonora que bons fãs de free-jazz não vão demorar para captar. É um tipo de criatividade de se esperar em um berço tão prolífico quanto Chicago. Certamente, Piet deve ter orgulho de vir de lá.

Zero
Matthew Shipp
Gravadora: ESP Disk
Data de Lançamento: 9 de fevereiro de 2018
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Quando o pianista Matthew Shipp anunciou que Piano Song (2017) seria seu último disco, bom, eu já sabia que era conto de vigário. O principal parceiro do brazuca Ivo Perelman (tema de um vídeo especial em nosso canal) parece ter um HD de milhares de terabytes só com possibilidades de subverter o piano. Staccatos, quebras rítmicas e clusters, muitos clusters em seu novo disco.
Zero parece um ensaio bem acabado, mas revela-se uma primorosa obra de desafiar técnicas rítmicas e, principalmente, melódicas. Matthew desenvolveu um tipo de linguagem que não dá brechas para diferenciação entre blues, música clássica e avant-garde. Geralmente seus discos solos reforçam um aspecto de unicidade, mas Zero parece envolto de um tipo diferente de ambição. Sim, o disco tem lá seu quê de recomeço, a julgar pelo título, mas busca um tipo de consagração individual, um diálogo com ele mesmo. Se o piano já é um instrumento solitário, em Zero torna-se a expressão de algo que faz mais sentido que ele próprio compreenda do que o ouvinte. Há um jorrar de emoções em “Pole After Zero” e uma contemplação misteriosa em “Cosmic Sea”, mas o ouvinte não saberá do que se trata. Porque, uma coisa que aprendemos com a trajetória dos gênios, é que eles se tornam mais misteriosos com o passar dos anos.

Beloved of the Sky
Renee Rosnes
Gravadora: Smoke Sessions
Data de Lançamento: 6 de abril de 2018
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A pianista Renee Rosnes tem a façanha de instigar o melhor de seu quinteto, ao mesmo tempo em que entrega o seu melhor enquanto instrumentista e bandleader. Dois anos depois do sensacional Written On the Rocks, esta canadense de 56 anos redefine o conceito de fluidez no jazz pós-moderno (por falar em conceitos, a capa do álbum é da artista plástica canadense Emily Carr, de 1935, momento em que ela estava em seu auge).
O saxofonista Chris Potter é um aliado importante – e, quando se trata de Potter, ‘aliado’ é algo incomum, tamanha a versatilidade e unicidade dele. Num ritmo de alternância com o vibrafonista Steve Nelson, Renee garante um tipo de jovialidade ao bop que marca o ouvinte em pouco tempo. Em “Rosie”, há ecos de melancolia, construídos a partir de notas intensas de tudo quanto é lado.
“Elephant Dust” abre o disco com tonalidade épica, num tipo de som que conecta as distintas sofisticações da Lincoln Orchestra ao quinteto de Ornette Coleman. “Scorned as Timber, Beloved of the Sky” é tipo uma valsa-jazz, com arcos de tensão que bloqueiam qualquer associação piegas. “Rhythms of the River” tem um balanço rítmico típico do samba brasileiro – prova de que, no jazz interconectado de Renee, também tem frescor latino.

Your Queen is a Reptile
Sons of Kemet
Gravadora: Impulse!
Data de Lançamento: 30 de março de 2018
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O título e o nome dos temas já deixa bem claro: o 3º disco do Sons of Kemet é um protesto contra as raízes britânicas que enaltecem a monarquia. As homenageadas têm histórias de luta bem mais significativas que a linhagem de Windsor: começa com Ada Eastman, bisavó do líder da banda, o saxofonista Shabaka Hutchings, que uniu a comunidade de onde sua família nasceu, nos Barbados, através do trabalho.
Há nomes conhecidos nas homenagens, como Harriet Tubman, a espiã que ajudou milhares de escravos negros durante a Guerra Civil Americana (1861-65), e Angela Davis, militante dos Panteras Negras nos EUA que se tornou uma das maiores fugitivas do país após ser erroneamente acusada de matar um juiz. Assim como os nomes apresentados, os temas são suficientemente pretensiosos para enaltecer a grandiosidade de cada uma das ‘rainhas’. O duo entre o sax de Shabaka e a tuba de Theon Cross se casam a ponto de formar enredos épicos: enquanto Shabaka trabalha a linha dramática com seus solos, acompanhamentos e viradas, Theon relembra insistentemente a tensão de todas essas biografias. No meio dessas transições, as baterias e percussões de Eddie Hick e Tom Skinner fortalecem as altas temperaturas dessas histórias.
