Muitos dos artistas que aparecem nesta seção do Groovin’ Jazz já apareceram aqui anteriormente. Quando criei esta seção, no começo de 2016, um dos objetivos era passar a acompanhá-los com mais afinco, para compreender não só quem faz parte da cena, mas como ela se movimenta.
Alguns, claro, costumam ser mais recorrentes – como é o caso do trompetista Christian Scott, que dá continuidade à sua procura estética ancestral, ou o brasileiro Ivo Perelman, radicado em Nova York, que chega a lançar uma dezena de discos em um mesmo ano.
Vale destacar também o projeto mais interestelar do saxofonista britânico Shabaka Hutchings, a excelência vanguardista de Anna Webber e, claro, a renovada sofisticação de Branford Marsalis, que tem lançado trabalhos mais relevantes que os do incensado irmão mais novo (Wynton Marsalis).
Ah, e tem um disco novinho de Joshua Redman, que só confirma sua habilidade em ser um dos saxofonistas mais relevantes da cena contemporânea.
Confira, a seguir, os 10 melhores discos de jazz das últimas semanas. Antes, claro, a nossa playlist Groovin’ Jazz atualizada no nosso perfil do Spotify:
Solar
Alfredo Dias Gomes
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 15 de janeiro de 2019
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“Minha mãe me pediu uma música para uma personagem de uma novela”, diz o baterista Alfredo Dias Gomes. Não era só por causa do parentesco. Nos anos 1980, um pedido de Janete Clair a qualquer pessoa seria priorizado, afinal, estamos falando de uma das maiores autoras de novela do Brasil, que encantou o público nas telinhas com Selva de Pedra, O Astro, entre outras. O tema em questão era “Viajante”, musicada por Dominguinhos e tema de Coração Alado. No 11° disco de Alfredo, Solar, “Viajante” ganha uma nova versão, apimentada pela flauta de Widor Santiago, seu principal parceiro nessa nova jornada musical.
Alfredo é fã inveterado do fusion, mas o estilo mais bop de Widor cria um pêndulo ali entre o bop. É um disco registrado em duo por ter todo o direcionamento criativo nas condições do baterista e do saxofonista e flautista.
Em “Corais”, Widor valoriza a melodia firme do sax-alto, sem se preocupar em preencher espaços. Contribui bastante a mixagem de Thiago Kropf, essencial para que a confluência de Alfredo e Widor, mais matemática do que virtuosa, não dê brechas para momentos silenciosos – algo que tende a acontecer em duos de sax e bateria.
Clockwise
Anna Webber
Gravadora: Pi Recordings
Data de Lançamento: 22 de fevereiro de 2019
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Pense em forças que são interdependentes, mas que atuam de forma própria. Nosso cérebro não para, mesmo quando estamos em um momento quieto e reflexivo. Da mesma forma que os segundos continuam passando, enquanto a luz do dia desvanece lá fora. Um fenômeno influência o outro, mais ou menos como a sequência de Fibonacci.
É assim que compreendo a música de Anna Webber. Nada rompe a conexão de seu septeto. Mesmo que cada membro siga uma linha harmônica diferente ou que as coisas pareçam entrar num Big Bang musical, tudo faz parte de um sistema próprio. Nessa lógica, Clockwise é a criação de uma natureza própria em que linguagem e técnica são parte de um coletivo. Um solo arrebatador de Matt Mitchell no piano não é só um solo arrebatador; assim como as pontuações do baixista Chris Tordini e as interposições do cellista Christopher Hoffman, o que se tem é uma preposição rítmica inovadora.
Dentro desse universo, mal se distinguem os metais. Isso porque Anna, que domina muito bem sax-tenor e todos os tipos de flauta, é a responsável por todo esse elo de inventividade. Não se trata apenas de um bom disco de avant-garde. Clockwise é o exemplo perfeito de que melhor que criar uma nova linguagem é desenvolvê-la a ponto de não mais ter controle de suas arestas.
The Secret Between the Shadow and the Soul
Branford Marsalis
Gravadora: Okeh/Sony
Data de Lançamento: 1º de março de 2019
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Existe uma diferença entre tocar jazz só com instrumentistas e fazer uma turnê com um cantor. Talentos contemporâneos como Roy Hargrove (que faleceu em 2018) e até Kamasi Washington passaram por essa experiência, mas poucos foram tão assertivos quanto Branford Marsalis após o disco Upward Spiral (2016), com seu quarteto e o cantor Kurt Ellis. “Trabalhar com um cantor te muda de forma que você nem percebe. Me ensinou a focar mais nas melodias, ir direto ao ponto”, disse o saxofonista, que também já excursionou com Sting.
A objetividade é um elemento importante de The Secret Between the Shadow and the Soul, seu novo disco em que mais uma vez reúne seu azeitado grupo: o pianista Joey Calderazzo, o baixista Eric Revis (ambos tocam há mais de 20 anos com Branford) e o baterista Justin Faulkner, que entrou em 2009.
Branford marca uma impressão positiva já nas primeiras notas de “Dance of the Evil Toys”, que adquire um tom ritualístico num groove experimental. Talentoso tanto na construção de melodias blueseiras como nos solos arrebatadores, Branford enaltece essas características no disco, porque o grupo compreende, colabora e eleva cada tema em seus próprios termos.
Quando assume o sax-soprano, em “Snake Hip Waltz”, Joey faz questão de entregar uma performance straight-ahead, tirando o tema de qualquer probabilidade. Em “Nilaste”, o grupo soa ainda mais coeso. Já “Life Filtering from the Water Flowers” busca um novo senso estético de beleza, com Joey delineando notas de emocionar, enquanto Branford não receia buscar novos ares, como se estivesse em fase de processar um sentimento que ainda não sabe como descrever. Para quem já tem mais de 30 anos de carreira, trazer esse senso aventureiro só mostra que Branford Marsalis tem muito ainda a descobrir e nos maravilhar com seu quarteto.
Ancestral Recall
Christian Scott
Gravadora: Stretch Music
Data de Lançamento: 22 de março de 2019
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Desde que passou a levar a sério a conexão com músicas e histórias de seus antepassados, Christian Scott apurou sua técnica para que tivesse uma força expressiva tão marcante quanto as chants e percussões. Suas entradas não são apenas marcantes; elas são o foco de uma narrativa que capta o passado como fator determinante para mudar o futuro.
O que seria, então, este passado? Pense na sistematização do regime escravocrata nas Américas e nas milhões de histórias interrompidas que impactam até hoje a nossa sociedade. Todo povo tem uma história, e é preciso conhecer e respeitar as especificidades de cada uma delas para se construir um mínimo de esperança de união.
Parece utópico, mas é justamente essa proposição que faz de Ancestral Recall um disco tão impactante. Com a polifonia já bem assimilada desde o manifesto estético de Stretch Music (2015) e a intensa contextualização do passado na trilogia The Centennial (2017), Christian Scott entrega seu melhor disco com o refrescar de uma mensagem esperançosa. Isso reflete em um som que funciona como vívida “memória incorporada” (pegando emprestado o termo do antropólogo Didier Fassin) das muitas histórias que formaram o nosso continente e impactaram o mundo todo.
Leia também: Na música de Christian Scott, o passado é agente transformador
Move On: A Sondheim Adventure
Cyrille Aimée
Gravadora: Mack Avenue
Data de Lançamento: 22 de fevereiro de 2019
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Já consagrada como uma das grandes cantoras francesas de jazz, Cyrille Aimée optou por uma nova investida em Move On: ela coletou alguns dos maiores clássicos do songbook de Stephen Sondheim, compositor da Broadway famoso por Sweeney Todd e West Side Story. Cyrille disse que essas canções foram importantes em uma fase dura da vida, então o disco soa como uma espécie de agradecimento e uma nova direção em seu trabalho. Aqui, o jazz é suavizado, e seu canto é imbuído de maior cautela. Até os músicos de seu grupo mudaram; com exceção do violonista Adrien Moignard, todos são instrumentistas norte-americanos, o que revela uma preocupação de saber como evocar construção de arranjos.
Porém, a grande marca do disco está na dramaticidade de Cyrille. Em “Love, I Hear”, vemos a conexão de sua música com o revival em Hollywood de resgatar os anos 1950 nos cinemas. “Marry Me a Litte”, outra que vai na linha acústica-sofisticada, cria uma bolha protecionista, em que a cantora não precisa de esforço algum para soar comovente.
Mesmo que o disco traga alguns takes mais alegres, como “Take Me To the World” e “They Ask Why I Believe in You”, Move On convence mais pela devoção sentimental da cantora que por qualquer tipo de contextualização. Ainda assim, um disco que tem tudo para agradar fãs do jazz em seu formato mais clássico de canção.
Trust in the Lifeforce of the Deep Mystery
The Comet Is Coming
Gravadora: Impulse!
Data de Lançamento: 15 de março de 2019
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O saxofonista Shabaka Hutchings já consolidou um estilo reconhecido à distância. Natural linha de frente de uma forte cena de jazz em Londres, com The Comet is Coming a ficção científica ganha um som para chamar de seu. Em Trust in the Lifeforce of the Deep Mystery, os corpos celestes são mais expressivos, mas sempre envoltos daquela liberdade espacial.
De certa forma, The Comet is Coming apresenta um novo senso estético ao jazz interestelar. Os temas têm enredos próprios e parecem verdadeiras incursões a outros planetas: ele pode ser caótico, como dá a entender “Summon the Fire”, ou subaquático e cheio de mistérios (“Astral Flying”).
Em “Blood of the Past”, imagina-se uma comunicação entre dois mundos diferentes – quando, na verdade, Shabaka aproxima histórias de povos diferentes, com estilos de vida diferentes. Se antes Sun Ra e Alice Coltrane eram as grandes referências, em Trust o som progressivo à lá King Crimson garante saudável abrangência, com poder de ampliar ainda mais a já extensa base de admiradores de Shabaka e seus projetos.
Strings 3
Ivo Perelman
Gravadora: Leo Records
Data de Lançamento: 25 de março de 2019
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O saxofonista brasileiro continua em pleno ritmo ativo. Ao lado de Mat Maneri (violino) e Nate Wooley (trompete), ele encaixa notas agudas num formato em que as cordas se sobressaem. Aqui, mantém-se a característica de Ivo Perelman em funcionar a todo momento como um laboratório de ideias. Sem esticar demais as notas, com quase nada de acordes, tem-se um som repleto de ranhuras. Ao longo do tempo, percebe-se um tom de dramaticidade, pela associação que se faz ao ouvir violino e trompete.
Ivo Perelman, porém, opta por contínuos solavancos de notas, que ganham efeitos multidimensionais. Trata-se de uma música que se fortalece enquanto ambiente fantástico, adquirindo ares lúdicos em “Pt. 2”, passando por um espectro blueseiro em “Pt 6” até concluir em um esforço assíncrono de todos os músicos, com os elementos perceptíveis, para que o ouvinte mantenha bem claro a característica particular de cada instrumentista.
Come What May
Joshua Redman
Gravadora: Nonesuch
Data de Lançamento: 29 de março de 2019
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Joshua Redman mantém-se um dos saxofonistas mais ouvidos da contemporaneidade por ser assertivo. Suas notas são marcantes e integram-se à proposta rítmica dos combos em que trabalha.
Dezoito anos depois de registrar Passage of Time (2001), com Aaron Goldberg (piano), Reuben Rogers (baixo) e Gregory Hutchinson (bateria), o quarteto que costuma excursionar com Redman tem notável protagonismo. A faixa-título, por exemplo, tem um longo período com Reuben solando enquanto os demais instrumentistas operam como se formassem uma proteção. É o intercâmbio harmônico que faz de “DGAF” uma brincadeira pra lá de instigante, num estilo call-and-response influenciado pela música caribenha.
Não é preciso roteiro para adentrar na música de Joshua. Na verdade, nunca foi. O ouvinte é facilmente captado pelo belo delinear de notas em “Circle of Life” e se vê em uma espiral deliciosamente viciante, deixando-se hipnotizar pelas notas de Aaron em “I’ll Go Mine”, compreendendo o som intrincado de “How We Do” e maravilhando-se com a blueseira “Vast”.
Conclusão: precisamos de mais discos de Joshua Redman com este combo!
Sure
Logan Strosahl & Spec Ops
Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 29 de março de 2019
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Desde que passou a estudar a história da música do século XVII em diante, o saxofonista Logan Strosahl desenvolveu um estilo mais meticuloso com as notas. Isso permitiu não só maior distinção de algumas escolas da música clássica e do jazz, mas trouxe novo frescor criativo. E nada melhor para testar isso do que pequenos combos – no caso, o trio Spec Ops, com o notável baixista Henry Fraser e o baterista Allan Mednard.
Com a flauta, Strosahl busca inspiração na música campestre, como mostra em “Three”, num exercício laboratorial que remonta às peças tensas de Stockhausen. “Chacarera” tem suas raízes na música argentina, puxando o instrumento para um esquete rítmico que antecipa uma pegada bop na bateria de Mednard.
É com o sax-alto, porém, que captamos melhor a expressividade de Logan: a primeira faixa, “Bark”, pode não apresentar muita coisa em termos de inovação, mas agrada pela confluência do trio. Em “Isfahan”, é o sax-tenor que toma a dianteira naquele estilo marcante de Lester Young de construir baladas.
Immigrance
Snarky Puppy
Gravadora: Ground Up Records
Data de Lançamento: 15 de março de 2019
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Quem escuta a musica do Snarky Puppy já espera algo abrasivo. Embora tenha seus momentos de catarse, Immigrance vem com o intuito de ser mais reflexivo. Como o próprio título já deixa claro, o álbum cria empatia sonora com a questão da imigração, tema cada vez mais frágil com a ascensão de políticos ultraconservadores na Europa e na América. Assim, os temas remetem mais a trabalho (com diversos ciclos harmônicos), rejeição e tentativas, exemplificadas em erros e acertos rítmicos propositais, vide “Bling Bling”.
Após lançar Culcha Vulcha (2016), que rendeu um Grammy ao grupo, o Snarky Puppy conquistou fãs de progressivo, fusion e funk, por seu caldo musical flamejante. Tal essência ainda permeia Immigrance, com a diferença de que a técnica do grupo busca maior conexão com as dores e conquistas de pessoas vulneráveis.
Mas, se você está afim de contemplar a banda com o que ela tem de melhor a oferecer nas pistas, vá direto em “Xavi”, que mantém intacta a força do Snarky Puppy enquanto coletivo que doma o groove como poucos.
