Agosto é considerado um mês longo. Nossa demora pra postar os lançamentos mais relevantes do jazz daquele mês deixa isso bem claro.
Na verdade… Na verdade… Sim, o Na Mira não costuma ser muito ligeiro ao comentar sobre esses discos. Mas pode ter certeza de uma coisa: mantemos firmemente o propósito de falar apenas de álbuns lançados dentro desse período. (Com exceção de um, devidamente justificado.)
A seleta tá bem variada: da exportação do maxixe brasileiro para a Áustria à filosofia oriental dedicada a entender as catástrofes do tsunami no Oriente, o jazz continua mostrando relevância quando o assunto é multiculturalismo.
As intérpretes Kiki Manders e Kristen Lee Sergeant podem pregar uma nos ouvintes desavisados. Quem acredita que elas mantêm a mesma tradição Diana Krall e Norah Jones de fazer cool-jazz engana-se; uma é atenta ao minimalismo e sugere algo mais exploratório ao que defende como ‘purista’; já a outra usa os acordes de 6 diferentes pianistas a seu favor, cantando como se fosse uma extensão instrumental das composições.
Tem disco patrocinado pela Unesco gravado na Jordânia, fusion-jazz canadense, free-jazz espacial australiano, disco inspirado numa cultura astrônoma do chifre africano… Ah, e pra quem gosta de jazz antigo, lá da era do swing, vai adorar ouvir uma novidade listada aqui.
Se tem uma coisa que estes 10 discos de agosto provaram é que o jazz tem mais a dizer sobre o que acontece no mundo todo que qualquer outro gênero.
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Confira:

Stars Across The Ocean
Akira Tana & Otonowa
Gravadora: Sons of Sound
Data de Lançamento: 15 de agosto de 2016
Apesar de estar disponível no BandCamp desde maio, o álbum só ganhou lançamento ocidental em agosto (ok, desculpa para corrigir falha de não falar do disco no mês em que saiu). Stars Across The Ocean é um trabalho que valoriza a abordagem que os japoneses dão ao jazz. Sua origem tem um pouco da filosofia oriental: “quando uma pessoa morre, ela se torna uma estrela”. Inspirado nas comunidades que se originaram após a catástrofe do tsunami, em 2011, o álbum insere a paz da flauta shakuhachi, na mesma medida em que traz solos inspiradores dos saxofones alto, tenor e soprano. O grande instrumentista por trás desses instrumentos de sopro é Masaru Koga, que mora em São Francisco (EUA) há mais de 15 anos. A percussão de Akira Tana respeita a pontualidade em sons como “Temujin” e “Hamachidori”, mas perceba como ele sabe impor trovoadas em “Hope For Now” – para, depois, deixar tudo naquela calma serena.
Ouça: disco na íntegra

New Focus On Song
Euan Stevenson
Gravadora: Whirlwind
Data de Lançamento: 19 de agosto de 2016
New Focus On Song compreende a inovação jazzística a partir de duas premissas: o olhar europeu, em que a herança do folk escocês e do impressionismo francês de Ravel e Debussy entram em conta; e o estilismo requintado. Se por um lado o projeto de Euan Stevenson que envolve a harpista Alina Bzhezhinska e o Quarteto de Cordas de Glasgow (com dois violinistas, um violista e um violoncelista) carece de ginga e swing, por outro sabe criar um enredo como pouco se vê no jazz. De cara, dá pra pensar que canções como “Green Park” e “Braeside” formam um avant-garde esplendoroso, mas outros takes, como “Little Allegory” e “Corea Change”, ajudam o ouvinte a expandir o universo aqui tratado. Este é o segundo álbum do pianista Stevenson focado na amplitude das texturas do jazz (o primeiro, New Focus, também trazia mesma estrutura: quarteto jazzista, quarteto de cordas e harpista). A experiência aqui, porém, é mais desenvolta: os solos e ostinatos do bandleader ultrapassam fronteiras classificatórias, enquanto os sopros de Konrad Wiszniewski, seja no sax tenor, soprano ou no clarinete, se adequam às diversas climatizações percorridas nas 13 canções.
Ouça: “Sophia’s Song”

Love is Yours is Mine
Kiki Manders
Gravadora: Unit Records
Data de Lançamento: 26 de agosto de 2016
“Gostaria de viver a vida como água ou vento”, diz a cantora holandesa Kiki Manders, que estreia com álbum que supõe um jazz naturalístico. Love is Yours is Mine agrada inicialmente fãs de Esperanza Spalding, mas onde se encaixaria o groove do contrabaixo Kiki opta por ondulações, ora arrematadas pelas guitarras de Attila Mühl, ou pelo baixo elétrico de Jonathan Ihlenfeld Cuniado. Sua técnica de scats é tão dissolvida, que é como se ela dominasse o silêncio – vide “Words and Sands”. “De Storm” e “Broken Stone” ensaiam um lado cristalino da cantora, que também tem proximidade com o minimalismo. O pop também é um caminho permeado por ela, como pode-se ouvir em “Particles”, mas de uma forma mais exploratória e dinâmica. Numa entrevista, Kiki Manders disse que o disco é “para pessoas que querem desfrutar da pura música”. Para ela, purismo não tem nada de sectário. O puro é o todo, é o que está ao ar livre e pode ser artisticamente captado – como ela fez aqui.
Ouça: trechos do disco

Inside Out
Kristen Lee Sergeant
Gravadora: Whaling City Sound
Data de Lançamento: 12 de agosto de 2016
Inside Out, álbum de estreia da nova-iorquina Kristen Lee Sergeant, é um típico álbum jazz entertainer. Seu jazz vocal mistura a busca pelo swing e o requinte límpido e agrada justamente por sua acessibilidade. Suas versões de “Everybody Wants to Rule the World” (Tears For Fears) e “Every Breath You Take” (The Police) são ancoradas pelo piano escalado, ora soando como Carmen McRae, ora como uma experiente cantora de cabaré. O clássico “Old Devil Moon”, de Burton Lane, famoso na interpretação de Sarah Vaughan e Billy Eckstine, é acompanhado de forma tempestiva pelo baixo de Neal Caine, com viradas triunfais no piano. Muito mais que a voz, por sinal, o piano é forte protagonista em Inside Out. Não à toa, Kristen vem acompanhada de pelo menos 6 grandes pianistas: David Budway, Valery Ponomarev (Art Blakey & The Jazz Messengers), Jeb Patton (The Heath Brothers), Jon Davis (Stan Getz), Jon Weber e Spencer Day.
Ouça: “Everybody Wants to Rule the World”

Petra
Luca Aquino & Jordanian National Orchestra
Gravadora: Talal Abu-Ghazaleh International Records
Data de Lançamento: 23 de agosto de 2016
O trompetista italiano Luca Aquino é habilidoso o suficiente para conectar a melancolia do trompete inspirado por Chet Baker com variadas expressões da música do mundo. Mas, de world-music, vamos parar por aqui. O que ele extrai com a Jordanian National Orchestra é um jazz sedimentado em arranjos sublimes, antes de qualquer fusão de expressões populares. O resultado, Petra, é inspirado no enclave arqueológico situado na Jordânia, uma das 7 novas maravilhas do mundo. O disco foi patrocinado pela Unesco e serve como intercâmbio do ocidente com o oriente de uma forma exploratória, gerando um encontro tão amigável quanto o do nativo que recebe o turista com hospitalidade. A flauta de Sergio Casale e o acordeom de Natalino Marchetti são outros grandes destaques: em “Bedouin Blues”, por exemplo, os instrumentos parecem conversar como se fossem melhores amigos. A proposta humanitária por trás de Petra tem sua importância, mas valioso mesmo é se entregar e perceber como o Oriente ainda tem muito a complementar ao jazz tipicamente europeu. A verdade é que inspirar-se numa maravilha, no caso de Petra, deu origem a uma outra maravilha.
Ouça: “Petra”
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The Forbidden Dance
Mereneu Project
Gravadora: Sessionwork
Data de Lançamento: 12 de agosto de 2016
Transitando entre a guitarra e o trombone, o paulista Emiliano Sampaio fez do Meretrio uma big band chamada Mereneu Project depois de fixar residência em Graz (na Áustria). The Forbidden Dance é a terceira investida do projeto em apenas dois anos. Os arranjos favorecem as entradas do flugelhorn de Marko Solman e Pol Omedes em “Sax Off” e “Die Posaune”, que parecem trilhas de um drama marcado pela passagem do tempo. No disco, o bandleader brasileiro assume as guitarras. Raras vezes ela é protagonista, porém. Em “Mereneu Sings in the Rain”, ela parece viajar num continente de influências, ‘cumprimentando’ sax, trombone e trompete em ligeiros diálogos. “Maxixe” remonta o gênero que mais aproxima o Brasil da Argentina, impondo volume em momentos em que sugere uma dança mais, digamos, picante. Dos tempos de Meretrio, o baterista Luis André Gigante continua firme e forte como um dos mantenedores do caldo brasileiro: de tão importante que é para o grupo, a primeira e última faixas têm a bateria como epicentro, exercendo a função de aglutinar e bagunçar as muitas ideias de ritmo e arranjos apresentadas e exploradas ao longo de 50 minutos.
Ouça: trailer do disco

Twenty
Metalwood
Gravadora: Cellar Live
Data de Lançamento: 5 de agosto de 2016
O Canadá pode não ser muito conhecido por seu jazz, mas muitos fãs do fusion devem ter ficado reticentes com os 14 anos de silêncio do Metalwood, um dos quartetos mais instigantes do país. (Claro, existe um motivo pra isso: boa parte deles se formou em Nova York.) Considerado o primeiro grupo de ‘jazz elétrico’ canadense, o Metalwood atravessa fronteiras geracionais, indo de Wayne Shorter a Enrico Rava sem firmar compromisso temporal com nenhum deles. “Gargantua”, por exemplo, é recheado do fraseado gélido de Rava – aqui, tocado por Brad Turner. Fãs de Ash Ra Tempel vão se maravilhar com “Rooftops”, com o sax-soprano efervescente de Mike Murley, que remonta à psicodelia do krautrock. “Good Things (For Good People)” é temperado pela relativização dos instrumentos de sopro. A opção pela agudez estética mantém a canção eletrificada mesmo em momentos em que a velocidade diminui. Neste caso, o baixo de Chris Tarry e a bateria de Ian Froman são os delineadores estilísticos de uma vertente que não precisa recorrer ao alto virtuosismo para se mostrar referencial. É mais ou menos como se o fusion-jazz fosse encarado pelo modus operandi do hard-bop.
Ouça: prévia do disco

Child of Somebody
Ross McHenry
Gravadora: First Word Records
Data de Lançamento: 19 de agosto de 2016
O ‘futuro do jazz australiano’ já chegou. É com essas benesses que o baixista Ross McHenry, de Adelaide, apresenta o versátil Child of Somebody. Eletricamente pulsante, o álbum leva o som espacial de Sun Ra, com percussões cubanas e fragmentos do free-jazz espiritual de Ornette Coleman a um presente cheio de incertezas e mistérios. Gravado no Red Bull Station, o segundo disco do líder do The Shaolin Afronauts aglomera alguns dos gigantes jazzistas contemporâneos de Nova York, como os saxofonistas Tivon Pennicott e Marcus Strickland, além do trombonista Corey King e do trompetista Duane Eubanks. A formatação sonora é bastante densa; por isso mesmo, há um cuidado com o ritmo e com escolhas estéticas. O cha-cha-cha de “Little One” é bem suave, permanece na linha entre o hard-bop e a música latina, enquanto “Sketch” é mais presa e retraída, com dosagens de explosão bem medidas. Isso não significa que o grupo curte a ponderação: “3-Month Vortex”, por exemplo, é uma jornada solo no clarinete de Pennicott impulsionada pelo baixo protagonista de McHenry. “O álbum captura meus pensamentos e sentimentos em tempos em que o mundo transita rapidamente em direção a um futuro que não somos capazes de prever”, disse o baixista.
Ouça: disco na íntegra

The Sirius Mystery
Russell Gunn
Gravadora: Groid Music
Data de Lançamento: 12 de agosto de 2016
Pense em todos os amálgamas estéticos explorados no jazz a partir dos anos 1990: drum’n bass, hip hop, acid-house e até dubstep. O trompetista Russell Gunn desde sempre admitiu ser fã inconteste do rapper LL Cool J – ao mesmo tempo que preserva resquícios tradicionais, vide sua colaboração com Wynton Marsalis no portentoso Blood on the Fields (1994). Em seu novo álbum, The Sirius Mystery, Gunn criou uma epopeia baseada na mitologia de Dogon, povo que habita a região do Mali. As transições para o rap e eletrônica, já parte de sua forma de conectar o jazz ao pop, são parte de um enredo que dimensiona a inteligência de um povo que detém distintos conhecimentos cósmicos. “The Nummo Fish (Natatory Astronauts)”, por exemplo, é caracterizado pelo som árido norte-africano, até que permite a entrada de um neo-bop estrepitoso arrancado por notas inspiradoras de trompete e sax. São apenas quatro faixas – mas quatro faixas que complexificam ainda mais o mistério de um povo que tem a contribuir com a comunidade científica (os dogons mantêm a sete chaves suas descobertas astronômicas). A música é inspiradora, refrescante, espirituosa. Vinte anos após lançar o primeiro disco, Russell Gunn mostra que ainda há muitas coisas a se explorar no jazz, e não importa o lastro temporal de suas conexões estético-musicais.
Ouça: trechos do disco

Too Hot For Socks
The Jonathan Doyle Swingtet
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 26 de agosto de 2016
Adquirir via BandCamp
Por que um jazzista se mudaria de Chicago para Austin? No caso de Jonathan Doyle, foi para se conectar com os primórdios – tempos em que ragtime, swing e jump mandavam ver nos fonógrafos e salões. Pode parecer uma contradição, já que Chicago é uma das cidades mais tradicionais quando se fala em música (especialmente blues, claro), mas foi a ida ao estado texano, além da passagem por New Orleans (esta sim, tipicamente jazzística), que possibilitou ao clarinetista/saxofonista se transportar a um tempo longínquo, em que os Red Hot Peppers, de Jelly Roll Morton, e a big band de Earl Hines cravavam os corações e movimentavam os pés. Too Hot For Socks é pertencente a esses tempos, anos 1920 e 30. Entretanto, as composições são originais. “Strange Machinations”, por exemplo, tem traços dos primeiros grupos de Duke Ellington (ali por volta de 1925), pegando um fio da inspiração de “Take the A Train”, com inspirador diálogo entre a corneta de David Jellema e o trombone de Mark Gonzales. A faixa-título remonta ao melhor de Benny Goodman, certamente a principal inspiração de Doyle, que já declarou querer fazer parte da raiz que solidificou o jazz apenas tocando-o. É só por os sapatos de dança, aumentar o volume e se sentir parte de um baile mantido por piano, contrabaixo, metais, cigarros, pessoas bem vestidas, gente dançando. Porque ouvir Too Hot For Socks é transportar-se para tempos que jamais se repetirão.
Ouça: disco na integra
