01 Salto no Vácuo com Joelhada 02 Dançando no Escuro 03 Compacto 04 Magrela Fever 05 Kyoto 06 Japan Pop Show 07 Mistério Stereo 08 Saída Bangú 09 Mal Estar Card 10 Caixa Preta 11 Sambito 12 Esperança

13 Fumanchú

Gravadora: Urban Jungle
Data de Lançamento: 24 de junho de 2008

Um dos maiores medos dos críticos de artes em geral é perder a oportunidade de identificar um clássico. Quando isso acontece, a história pune severamente ao identificá-los como chatos de galocha antiquados de visão limitada. (Monteiro Lobato sofreu as consequências décadas depois de debulhar a arte de Anita Malfatti.) E isso pode acontecer com o público também: imagino que muitos jovens da década de 1980 e 1990 devam ter praguejado os mais velhos da década de 1960 por não darem bola a The Velvet Underground & Nico.

Hoje em dia, os jornalistas brasileiros já aceitaram que as melhores produções fonográficas são resultantes de bem-sucedidas misturas. Nem sempre foi assim, isso é verdade, mas a renovação estética de nossa música deve ser entendida como um reprocessamento eficaz de gêneros que vão do samba ao rock, do funk ao brega, do iê-iê-iê à psicodelia. Tudo misturado e não necessariamente junto.

Oh, yeah! É mais ou menos isso. O lançamento de Japan Pop Show em 2008 põe todos esses valores em xeque. O músico Luciano Nakata vai pingar lá em referências pop japonesas para enfatizar seu lado brasileiro. Há estudos antropológicos (e amigos) que dizem que nipo-brasileiros que vão para cidades, por exemplo, como Tóquio, costumam reforçar os valores patrióticos quando frequentam uma roda de samba ou comem uma feijoada. E, quando voltam pra cá, veem esses valores nacionais com maior paixão. Tudo por conta do distanciamento.

Curumin assumiu esse pequeno distanciamento quando olhou para o seu passado. E ficou tão fissurado com as coisas legais dos anos 60 e 70, que decidiu colocar modernidade e passado em um entrelaço esquisito que, logo na primeira audição, já se percebe incopiável.

Japan Pop Show já começa como uma lenda moderna. “Salto no Vácuo com Joelhada” é a descrição de um golpe dum personagem de seriado japonês que, de início, lembra a ressaca de “Sunday Morning”. E aí, Nakata te dá um hello colocando sua bateria ao lado de produções eletrônicas que vão se misturando a scratches e sintetizadores que simulam peso.

Em “Dançando no Escuro”, a voz de Marku Ribas aproxima-se com o que poderia chamarmos de tribalismo brasileiro, com sublevações musicais quase amazônicas. Ribas soa como um nortista que se envolveu numa tribo indígena – mas não esqueceu do seu ‘forrózinho na escuridão’.

“Compacto” é uma canção típica de domingo para quem procura sossego, ‘um fino honrado’. Curumin celebra o vinil para ‘sentir a raiz crescer sobre os seus pés’. Mais um exemplo da nostalgia que cerca um dos melhores discos nacionais da década passada.

A primeira impressão que se tem do disco é que ele foi feito para ser estampado em vitrine. E, realmente, Japan Pop Show é mais conhecido lá fora do que no Brasil, mas o motivo é realmente difícil de explicar. “Magrela Fever” tem todos os atributos para ser tocada em uma rádio nacional de qualidade, com refrão fácil e composição identificável. Aquele refrão de “Kyoto”, uma excelente mistura com dancehall que deve ter surpreendido BiD, pode ser ovacionado em festivais. “Caixa Preta”, um funk que ironiza o acidente aéreo da Tam próximo ao Aeroporto de Congonhas que matou cerca de 200 pessoas, é revestida de uma revolta picareta contra os mistérios sustentados pelo governo e pela imprensa. ‘Quem é que financia? Quem se beneficia?’

Além de tudo isso que já falei, Japan Pop Show é um álbum cheio de ideais que – graças! – não soa nem um pouco panfletário. “Mal Estar Card” fala daquele problema recorrente de um país como o nosso que sofre com a desigualdade de renda. Todos queremos nossa ‘fatia do filé’. Vemos prédios gigantescos sendo erguidos e a indústria automobilística dando saltos econômicos (‘nunca vi ninguém ficar rico sem pisar na cabeça dos outros’, canta Christopher Lover), mas, já que nem todos podem fazer greves, Curumin apresenta uma simbólica sugestão: ‘apresento o meu mal estar card’. Divide o dindim, caceta!

Até o final do primeiro semestre de 2012, Curumin deve lançar o disco Arrocha (que já tem uma pequena amostra aqui). Vamos pular aquela famigerada pergunta sobre superar o trabalho anterior e partir para as possíveis discussões: veremos Arrocha com a cabreiragem de estar desperdiçando a oportunidade de reconhecer um trabalho de qualidade? Veremos mais uma vez como um álbum-vitrine? Elogiaremos Curumin novamente por sua inventividade? Ou, aquela que explicitamente tomo partido: será que os olhos dos produtores que fazem a música circular para as massas estarão voltados para Arrocha? Pô, o Curumin merece uma fatia bem maior desse filé aí, manolos!