
01 Sexx Laws 02 Nicotine & Gravy 03 Mixed Bizness 04 Get Real Paid 05 Hollywood Freaks (ft. Dust Brothers) 06 Peaches & Cream 07 Broken Train 08 Milk & Honey (ft. Johnny Marr) 09 Beautiful Way (ft. Beth Orton) 10 Pressure Zone
11 Debra (ft. Dust Brothers)
Gravadora: Interscope
Data de Lançamento: 11 de janeiro de 1999
Muitos gostam de classificar Beck como um artista e produtor mestre em colagens e estéticas referenciais – o que ele realmente é. Talvez em 1999 ninguém imaginaria que ele lançasse um disco como Midnite Vultures, mas não demoraram muito para entender que, vindo de Beck, nada pode se esperar. E logo entenderam.
Apesar de não ser tão citado em sua discografia como Odelay (1996) ou Sea Change (2002), Midnite Vultures parece ser o disco mais atemporal de Beck, por ser claramente influenciado pelos anos 1970 com as exacerbações de gêneros que vão do country rock ao funk.
Mas é perigoso reforçar piamente uma ‘atemporalidade’, principalmente porque nele Beck também faz um ‘mixed bizness’ com rap, rock alternativo e música eletrônica – gêneros em alta nos anos 90.
No entanto, dá pra dizer sem medo: Midnite Vultures é o disco mais negão de Beck!
Prince é o espectro maior de um disco onde o cantor surge com a pretensão de ‘desafiar a lógica das leis do sexo’, em “Sexx Laws”.
O disco é todo dançante e repleto de sarcasmos inocentes – algo que começa na faixa inicial, segue como norte de “Nicotine & Gravy”, onde Beck diz estar ‘ficando doidão’ pra soltar a parafernália geral em “Mixed Bizness”, faixa que une os slaps típicos de um Bootsy Collins com a levada do single “Honky Tonk Women”, country-rock dos Rolling Stones. Olha só: uma ligação que tem em comum apenas a década de surgimento virou mote para uma faixa de Beck.
Midnite Vultures também pode ser entendido como um álbum-ensaio que teoriza a trajetória do funk para o rap, que estava em alta no fim dos anos 1990 (e continua em alta).
“Hollywood Freaks” ironiza (ou preconiza) um dos maiores defeitos do hip hop, o engrandecimento precoce: ‘Eu quero saber o que te faz gritar/E ser sua fantasia de vinte milhões de dólares (…)/Doidos de Hollywood na cena de Hollywood’. Claro que isso poderia ser aplicado à cultura pop em si, mas a opção de fazer um rap desleixado em parceria com os Dust Brothers entrega tudo.
E, claro, quando falamos de música negra também temos que expandir para o blues. Essa estética prevalece em “Peaches & Cream”, onde o cantor joga todos os trejeitos clichês de uma boy band naqueles acordes abertos e espaçosos de guitarra – sem deixar de inserir curtos loopings eletrônicos e uma espécie de coro gospel nos minutos finais. Uma puta sacada, diga-se de passagem: uma das melhores do álbum.
“Broken Train” já é uma incursão ‘mais séria’ no country, e talvez seja a mais conhecida do disco, com solos de guitarra, synths e efeitos eletrônicos inseridos numa sincronia estonteante.
Aliás, sempre que se fala de Midnite Vultures, não deixam de descrever as inspirações que vêm de outras canções – todas elas dos anos 1970 e 80. Por exemplo, “Get Real Paid” referencia “It’s More Fun to Compute”, do Kraftwerk; a empolgante “Milk & Honey” é filha direta de “The Message”, do Grandmaster Flash; “Beautiful Way” foi escrita depois de o músico ouvir o folk “Countess From Hong Kong”, do Velvet Underground; e “Debra”, que conta novamente com a participação dos Dust Brothers, é uma balada inspirada em “Raspberry Beret”, do Prince.
Experimentação é com Beck mesmo, mas nenhuma delas foi tão ousada e levada a fundo como em Midnite Vultures, um trabalho que não tem medo de evocar as glórias dos anos 1970, além de brincar e contorcer os clichês e idiotices (incluindo os trejeitos vocais e o excesso de sexualidade) que também foram herdados daquela década tão sagrada para a música.
