
Quando João Gilberto registrou pela primeira vez a canção “Desafinado”, trouxe um anacronismo que confundiu o público e a crítica naquele longínquo ano de 1958. Alguns se perguntavam se era autodepreciação ou até insanidade falar de desafinação em tempos onde os crooners e vozeirões enchiam os cofres das gravadoras brasileiras.
Beck recorreu a “Desafinado” em um suspiro efêmero de menos de 30 segundos em “Readymade”, que funciona como um sonho estático com as variações melódicas surgindo como abstrações
Só muito tempo depois perceberam que, em questão de tonalidade e afinação, “Desafinado” era perfeita, simplesmente genial. Nem mesmo quando Stan Getz regravou-a em Jazz Samba, com um lindo solo de sax, conseguiu atingir a aura sobreposta por João. Não é à toa que o crítico e musicólogo Zuza Homem de Mello a nomeou a canção mais perfeita do disco que foi o marco da bossa nova, Chega de Saudade.
Essas desconstruções formaram o mote inicial para que Beck consolidasse a obra Odelay. Ele não procurava perfeições; tentava fugir das amarras musicais de seu tempo para supor um caminho próximo e imperfeito, marcado por batidas que, se fossem colocadas hoje em dia, resultariam em um longo processo de pagamento de direitos autorais – que, convenhamos, interessa mais às grandes gravadoras do que aos próprios artistas sampleados.
Beck recorreu a “Desafinado” em um suspiro efêmero de menos de 30 segundos em “Readymade”, que funciona como um sonho estático com as variações melódicas surgindo como abstrações. Tem teclados esvocaçantes, bateria de rock indie, sax de Stan Getz… até que desabam em um breakbeat intenso à lá Beastie Boys instrumental em “High 5 (Rock the Catskills)” – Beastie Boys que, ainda que esteja em um gênero diferente de Beck, serve como ponto de partida próximo para você indicar Odelay a um amigo.
“Where It’s At”, por mais que pareça a cartilha sonora ideal para identificar de longe um trabalho de Beck, fala de sexo de uma forma sátira que se tornou uma piada de si mesmo. Quem imaginaria que ela carrega sampler da complexa Sinfonia nº 8 em B-menor de Schubert ou vocais que evocam a seriedade em meio a trejeitos eletrônicos que puxam referências do R&B? Ele pode ser digno de autocomiseração nos vocais, mas faz um contraponto no mínimo curioso com as colagens instrumentais que soariam aleatórias se não fossem tão seletivas.
As batidas de R&B também favorecem o músico em “The New Pollution”, uma trilha endiabrada repleta de deleite com samplers do sax tenor espaçoso e melódico de Joe Thomas dialogando com órgãos de soul instrumental que explicam o seu gosto particular por Booker T. Jones – músico com quem chegou a trabalhar na gravação do espetacular The Road From Memphis, orgulhosamente tido pelo Na Mira do Groove como um dos melhores discos de 2011.
Para forjar toda a imperfeição, Beck sabe que tem que recorrer à perfeição, ainda que seja de outros músicos. Provavelmente João Gilberto não deve dar a mínima para o que fizeram com “Desafinado” (a música nem foi composta por ele mesmo). Os anos podem se passar, e muitos podem considerar essa busca pela imperfeição como algo notável e estupendo no disco de Beck – justamente o contrário do reconhecimento de João. Em Odelay ou qualquer outro disco de Beck, a estética está acima do virtuosismo individual em algum instrumento.
A grande virtude de Beck, mesmo, é a indulgência e a preocupação de atingir, com a música, resultados que vão além do deleite sonoro dos ouvintes.
