
Zach de la Rocha, o frontman do RATM
“Killing in The Name”, certamente, é a música de rock que mais ouvi na vida. Foi ela que me introduziu às batidas pesadas, às letras revolucionárias, aos vocais estridentes e à performance verborrágica de um dos maiores vocalistas que já ouvi, Zack de la Rocha.
Não é a toa que esta canção é a principal do álbum homônimo de Rage Against the Machine, o primeiro que lançaram, em 1992. Lembro que quando comecei a escutá-lo, sempre me apoiava nas letras dos encartes. Justamente “Killing In The Name”, a música que mais gostava, não tinha a letra reproduzida – o que me instigava a apertar o “Repeat” incansavelmente na tentativa de captar o sentido da canção.
Tom Morello consegue assimilar na guitarra o tom nervoso dos vocais, trazendo sonoridades que instigam a revolta, a necessidade de se libertar de algo ou mesmo a simples vontade de pular do chão
Só a introdução melancólica do bumbo do baterista Brad Wilk já lançava o tom sórdido da canção. Eis então que entra a síncope do baixo de Timmy Commeford introduzindo o riff inicial da guitarra do cientista político formado em Harvard, Tom Morello.
A letra é absolutamente politizada, como todas as canções do RATM. Fala da submissão generalizada dos cidadãos com aqueles que dizem ter lutado em prol da liberdade de todos, usando como justificativa as “badges”, ou medalhas honorárias. O termo “They are the chosen whites” [“Eles são os brancos escolhidos”] remonta à sociedade separatista construída pelo eurocentrismo.
Outro tema recorrente nas letras de RATM é a violência, seja a opressão do Estado ou o instinto animal predominante daquele que não teve escolhas na vida. “Bullet In The Head” é a pura síntese disso. O Estado é o controle máximo de uma sociedade e não hesita em usá-la como cobaia de suas invencionices, até que um dia eles lhe enfiam uma bala na cabeça. “They say jump/and you say how high/your brain dead/you gotta a fuckin’ bullet in the head” [“Eles mandam pular / você diz o quão alto / seu cérebro apaga / você recebeu a porra de uma bala na tua cabeça“].
Em “Know Your Enemy”, os riffs característicos de heavy metal são a base do fervor de um cidadão que nasceu sem escolhas e que se mostra irritado com todo o aparelho estatal. Para ele, os inimigos são ‘todos aqueles que me ensinaram a lutar comigo mesmo’. Quem, afinal? “All of which are American dreams” [“Todos eles são os sonhos americanos“] – uma evidente crítica à hegemonia americanista e ao povo que sucumbe aos ideais desses mandatários.
Das referências musicais, pode-se dizer que o RATM é bastante influenciado pela afronta social do Public Enemy e dos preceitos do hip hop em geral; das guitarras barulhentas e da politização das letras do Living Colour, Bruce Springsteen e Cypress Hill. Também pode-se perceber o vazio niilista fortemente disseminado pelo punk rock, principalmente da estética criada pelo The Stooges. (Antes da dissolução do grupo, em 2000, eles gravaram covers dos artistas que mais lhe serviram de influência no álbum Renegades, incluindo canções de Bob Dylan e Afrika Bambaataa.)
A liberdade de pensamento (influenciada pelas ideias de George Orwell no livro 1984) é o tema de “Freedom”, a incitação às revoltas populares nos moldes do idealismo de Che Guevara marca “Township Rebellion”, o ato punk de destruir tudo que se vê pela frente está explícito em “Bombtrack” e o clamor dos rappers de lutarem pelo seu papel na sociedade é evidente em “Take The Power Back”. Os instrumentistas, principalmente o exímio guitarrista Tom Morello, conseguem assimilar o tom nervoso dos vocais, trazendo sonoridades que instigam a revolta, a necessidade de se libertar de algo ou mesmo a simples vontade de pular do chão.
De forma direta, influenciados pelo som pesado do rock e do hip hop, munidos de microfone, guitarra distorcida, baixo com o grave no talo e bateria marcando o compasso rítmico, Rage Against the Machine alçou sem paralelismos um lugar de destaque no rock pós-anos 80.
Aliás, foi graças a este álbum que me interessei pelo rock, pelas causas sociais e pela leitura de Karl Marx. Ainda hoje, consigo escutá-lo como se fosse a primeira vez. Olha que dá para extrair muita coisa, ainda!
Ouça o álbum Rage Against the Machine na íntegra:
