O pianista e bandleader Duke Ellington

John Coltrane era um músico abençoado. Além de ter se tornado um virtuoso no sax, tocou com alguns dos músicos mais importantes do jazz. O salto inicial se deu com o breve período em que tocou com o primeiro grande quinteto de Miles Davis e gravou o antológico Kind of Blue, em 1958 (mas que foi lançado no ano seguinte), que expandiu as possibilidades do ritmo por ser trabalhado em uma escala modal num tiro só de gravação.

Neste disco, a parceria entre Duke Ellington e John Coltrane reforça aquilo que eles têm de melhor, sem que um interfira na liberdade do outro

E a outra grande experiência veio alguns anos depois quando recebeu o convite de Duke Ellington para gravar um disco em conjunto. Experiente, Duke foi um dos maiores compositores e bandleaders de todos os tempos: ele tinha um ‘feeling’ para capturar a essência de novos músicos que invejaria um Chopin ou Schulbert.

Como pianista, Duke criava ritmos abertos para introduzir de forma magistral os solos dos seus integrantes. Nessa parceria com John Coltrane, foi exatamente esse o ponto: apesar de comandar a maior big band em atividade (de acordo com uma lista da DownBeat de 1962), Duke chamou todo o quarteto do saxofonista e trabalhou alguns temas de sua autoria, como a melódica “In a Sentimental Mood”, de 1935, que abre o disco com um piano denso e melancólico que força um lindo solo no tenor de Coltrane com um peso mórbido. Tem uma beleza indescritível – talvez seja uma das melhores das inúmeras versões desse tema.

Em 1962, John Coltrane estava trilhando o caminho para se tornar um dos maiores jazzistas do século

Apesar da primeira faixa evidenciar a influência do bandleader no álbum, Coltrane crava sua unicidade com uma melodia bop que atinge o ápice da velocidade na canção seguinte, “Take the Coltrane”. O saxofonista exibe o poder de seu tenor em sopros intermitentes que criam uma ponte entre o lirismo e a velocidade. Tudo isso apimentado pelas baquetas de Elvin Jones.

Em “Big Nick”, Coltrane abusa do agudo do soprano com elevações que chegam a ser monstruosas. Você ouve essa canção e pensa: da onde ele tirou todo esse fôlego para explorar diversas notas por um longo período? O saxofonista inicia com uma balada à lá Charlie ‘Bird’ Parker. E aí, ele se empolga com sua bela improvisação e domina a canção, ofuscando a ambientação rítmica do grupo. E aqui, vale destacar a sincronia quase espiritual entre Coltrane e Jones.

Justapor diferentes ramificações do jazz, criando um link entre o jazz orquestral e a fúria do bebop é uma das grandes contribuições de Duke Ellington & John Coltrane. Não que o líder tenha conseguido domar um dos mais prolíficos músicos do século passado. Mas uma coisa, temos que concordar: se John Coltrane foi o responsável por fornecer uma das melodias jazzísticas mais lindas com este disco, Ellington é a grande mente por trás disso tudo.

Ou seja, a parceria entre os dois músicos reforça aquilo que eles têm de melhor, sem que um interfira na liberdade do outro.

Ouça abaixo esta pérola na íntegra: