
Apesar de ter uma voz fúnebre que evocava a tristeza, Nelson também pregava otimismo em suas canções
Em 2011, comemora-se o centenário de um dos músicos mais tristes do nosso samba. Que Nelson Cavaquinho é um dos nossos maiores artistas, isso é inegável. Descrevê-lo é o trabalho árduo. Afinal, não tem como não partir para o lado emocional quando se escuta versos como: “Não sei quantas vezes subi o morro cantando/Sempre o sol me queimando/E assim vou me acabando“, de “Folhas Secas”. E olha que, aqui, Nelson fala do seu amor pelo samba na Estação Primeira de Mangueira.
Depois de sair da cavalaria da polícia, Nelson passou por complicações financeiras. Sua ascensão como sambista iniciou no Zicartola, no final da década de 60
A canção acima foi gravada por volta de 1957, mas só veio aparecer na curta discografia de Nelson em seu álbum homônimo, de 1973. Nascido em 29 de outubro de 1911, o sambista carioca frequentava rodas de choro tocando o instrumento de seu sobrenome artístico na Gávea. Apesar de ter o pé no samba desde cedo, Nelson chegou a entrar para a polícia fazendo rondas noturnas a cavalo.
Nessas perambulações, chegou a travar contato com Cartola e Carlos Cachaça, compondo alguns sambas descompromissados. Depois de deixar a polícia, Nelson se viu em complicações financeiras e passou a vender suas composições a outros artistas. Apesar de romper a parceria na hora de escrever com ele, Cartola foi um dos responsáveis pela ascensão da carreira de Nelson. Graças às apresentações no Zicartola, encantou o público por volta da década de 60 e lançou no início de 1970 o primeiro disco, Depoimento do Poeta.
Mas foi em seu terceiro disco que Nelson mostrou algumas de suas melhores composições. Afinal, um bom sambista que se preze deve, no mínimo, reconhecer a genialidade de faixas como “Rugas” (gravada na década de 40 e ovacionada por Vinícius de Moraes e Tom Jobim) e o partidão “Mulher Sem Alma”, que forma uma espécie de contraponto entre a voz quase fúnebre de Nelson com a euforia da cuíca.
Por mais que um compositor de samba encontre na tristeza o verdadeiro ápice de suas letras, não tem como dissociar do ritmo a alegria do Carnaval. Nelson ovaciona essa festa em “Vou Partir”, refletindo o desejo da maioria dos trabalhadores em abandonar o batente e vibrar em uma das maiores festas do ano.
Nelson Cavaquinho também prova que o caminho soturno às vezes pode ser a justificativa ideal para se chegar à felicidade. Em “Juízo Final”, o sambista cita o apocalipse para se chegar ao ‘amor eterno novamente’. Elementos como sol, luz e semente são essenciais para germinar um otimismo que pode ser alcançado por todos. “Quero ter olhos pra ver/A maldade desaparecer“.
Nelson Cavaquinho: “Juízo Final”
Nelson Cavaquinho: “A Flor e o Espinho”
Guilherme de Brito, um dos maiores parceiros de Nelson, faz um dueto memorável na emocionante “A Flor e o Espinho”, talvez um dos sambas mais tristes já gravados. Aqui, os dois sambistas sepultam um bordão eterno do samba: “Por isso é que eu penso assim/Se alguém quiser fazer por mim, que faça agora“. Sempre citando a Mangueira como o verdadeiro abrigo de seus sambas, Guilherme e Nelson preveem uma futura reverenciação artística do legado do samba carioca. “Vivo tranquilo em Mangueira porque/Sei que alguém há de chorar quando eu morrer“.
Eles estavam errados. Hoje, todos ficamos aos prantos só de ouvir as tristes canções de um dos maiores sambistas de todos os tempos.
